sábado, 4 de fevereiro de 2017

Vinte e três

Eu me lembro daquele dia. Ah, como me lembro...

A semana vinha em um ritmo esquisito. Ainda me adaptava às novas rotinas, novos horários, que insistiam em desregular meu corpo e principalmente minha cabeça. Ainda sim, e como sempre, fora do alcance da nossa vontade: era noite de espetáculo.

Já no camarim, com os meninos organizando a coxia, eu respirava fundo entre uma piada e outra dos meus velhos companheiros de guerra e de palco. Me lembro de termos feito algumas fotos, estava tudo bem. 
E quando chegou a hora de subir, bem...já não havia mais escapatória. Era hora de respirar fundo e ir, independente do que estivesse acontecendo dentro do peito. Escalei rapidamente aquela escadinha vagabunda de metal e logo estava ali, de cara pra cortina. 

Até que eu a vi...

Em meio à platéia, a combinação cabelos-loiros-e-sorriso mais incrível que já olhei assim, ao vivo e de perto. Era como se houvesse um brilho em volta daquela mulher, que sorria com os olhos e aparentava realmente estar aproveitando tudo o que via e ouvia. 
Fiquei encantado, maravilhado, apaixonado. Já não conseguia mais me concentrar direito, só me esforçava em deixar tudo ainda mais bonito, pra poder ver ainda mais daquela aura tão boa.

Não pude resistir: olhei, acenei com a cabeça, sorri de peito aberto. Ela, que já estava sorrindo, abriu ainda mais os olhos e acenou de volta. Confesso que parecia um sonho.

Hoje, tantos anos depois, consigo sentir a mesma sensação ao ver seu sorriso, já logo pela manhã. E quando olho direito, as vezes, nem acredito que o desfecho foi mesmo este. Meus olhos, que se enchem d'água facilmente, é claro que me denunciam. E ela até sabe porque.

Enquanto ela levanta e se troca apressada, me estico todo e penso em como a vida foi generosa. Em me trazer de volta, em me dar um presente como este, em me fazer ser alguém melhor. 

Todos os dias.

Até o fim.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Before I forget

A instabilidade atormenta.
A indiferença tortura.
A ira desespera.
A incoerência sutura.
O padecer umedece.
O fechar protege.
O resistir judia.
O poder emerge.
A cegueira acelera.
O lembrar domina.
A ligação acalma.
O esperar confirma.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Chains

Dias após estar ali, frente ao trabalho, à loucura, a todo aquele novo universo, era certo que havia muito a se perguntar. E o fez:

 - Escuta...você nunca me disse, mas o que te trouxe aqui?
 - Bem...minha vida inevitavelmente me jogou longe de tudo o que não poderia ser meu. O que me trouxe aqui tem a ver com a história de amor mais bonita que eu já li.
 - Nossa...se importa se eu perguntar qual é?

Continuaram alimentando os animais, carregando os pesados fardos de comida. E enquanto seguiam de cerca em cerca, ele continuou:

 - A minha.
 - A sua história de amor te trouxe aqui? Como isso é possível, se histórias de amor costumam fazer as pessoas serem felizes para sempre? Ou, pelo menos, é o que costumava ler...
 - Também costumava acreditar nisso. Tive muitas histórias ao longo da vida que me fizeram ver e pensar muitas coisas sobre o amor. E tive a minha história, que me explicou de verdade tudo o que eu deveria saber sobre amar, ser amado, e principalmente, acreditar.
 - Você não deveria enrolar tanto...mas entendo se não quiser contar.
 - ...

Terminaram então a última leva, e sentaram-se ali no barranco, olhando a vista das montanhas e da névoa que as cobria durante o sol de fim de tarde. Aquele outono anunciava um inverno diferente dos anteriores, o que ainda trazia um mistério.

 - Como ela era?

 - Ela era doce. No sentido mais sensível que a palavra possa ter. Doce e intensa, como nunca havia visto e como nunca jamais vi, antes e depois. Seu jeito bonito de olhar me cortava por inteiro, desde quando acordávamos até a hora de dormir. E ah...como ela me olhava! Aqueles olhos grandes me faziam ter certeza de muitas coisas. De todas elas. 

 - Inclusive a de que ficariam juntos?

 - Sim, e felizes. De que éramos felizes e de que assim seríamos. Era como se houvesse um feitiço, algo mágico que nos prendia, nos fazia ficar olhando nos olhos por horas! Não precisávamos de muito mais que uma brisa vindo pela janela e o nosso cheiro. Sim, nos sentíamos meio malucos, mesmo...- e riu, com os olhos já cheio de lágrimas.

 - Onde estão esses olhos agora?

 - Divididos. Entre qualquer lugar do mundo que devam estar, e aqui, congelados pra sempre em minha mente. Não há um dia que não sonhe com ela, o mesmo sonho, toda vez.
E sabe, de todas as coisas que podia ter visto sobre o amor, não há nada maior do que sentir sua força, seu poder, o corpo todo tremendo e a certeza de que ali é exatamente onde se quer estar. Não poder estar ali, desta feita, se tornou minha maior pena. 

E isso me trouxe aqui.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A sede

O tempo é de limpeza. Não há outra palavra que se encaixe tão bem quanto a própria expressão.

São picadas de cobra, copos quebrados, cães raivosos, e a energia em volta a se desestablizar. Magnetismo e sensibilidade bruscamente prejudicados por uma nuvem que insiste em obscurecer a tão recente luz.

Os poros continuam abertos.

Pela primeira vez olho para o futuro e não sinto medo. Pelo contrário, sinto sede. Não porque a vida pode ser melhor - e ainda que, definitivamente, será! - e sim pela angústia que trouxe a coragem, e pela coragem que trouxe a decisão.

A parte mais difícil está rolando.

O horizonte com um por-de-sol lindo anuncia um outro caminho. O céu e o mar infinitos em si dão o seu recado, convencendo enfim de que há um outro lado esperando para ser descoberto, explorado, enfim, reconhecido como sendo então.

Na ansiedade de fazer as coisas acontecerem - traços de um quase cético capricorniano - corro como quem quer mergulhar e seguir a nado. Já em cima da hora de pegar impulso, quando olho em volta, percebo que aquelas mãos que um dia me seguraram  - em qualquer fase que tenha tentado, assim,  me jogar -  já não estão mais aqui. Paro na beira, respiro fundo e penso...parece que agora o mergulho e, principalmente o não mergulho, dependem apenas de mim.

Molho então os lábios, agradeço aos céus, e me sento na pedra. Valorizo a contemplação, sinto a brisa, fecho os olhos.

Minha sede é do destino.




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Waiting Silence

Os dias, que correram longos, tornaram o mês mais curto. 

Um tiro.

Nisso, não pude conter as lágrimas ao sentar na janela e vê-la ali - como diria o poeta - tão redonda, imensa e amarela. Somente uma lua cheia é capaz de canalizar toda e qualquer turbulência. Ainda, tão poderosa, tem essa força em qualquer lugar do mundo.

E quando as nuvens insistiam em tentar escondê-la de mim, desviava sutilmente os olhos e encontrava seu corpo ali, iluminado pela luz do abajur, formando o que os meus amigos fotógrafos dizem ser a sombra perfeita. Um pouco rude, talvez, decepcioná-los, mas estou mais perto da perfeição do que qualquer flash.

Mais uma taça de vinho enquanto você dorme e suspira profundo. E ao contornar a curva de seus quadris, paro os olhos em seu rosto, todo desenhado. Bebo mais um pouco e agradeço pelo privilégio de estar aqui.

Por um instante, então, volto no tempo alguns anos. Penso naquelas madrugadas frias e em toda aquela trilha sonora. Junto versos de todas as canções que ouvimos, percebo a forma como elas falam da gente e como amar você é algo assim, bonito, para mim.

Ainda emocionado, me perco nos sentidos...porém não nos pensamentos. E talvez, de todas as promessas e declarações, tenham estas sido feitas em silêncio ou por palavras, a mais forte continua sendo a que nos manteve aqui. A que faz cada ano passar assim, leve e despercebido.

Hoje, enquanto esperamos o silêncio após toda a confusão, consigo em certos momentos respirar tranquilo como este seu sono cansado e lindo. A noite tem que passar, o dia tem que agir, e assim o coração se acalma, os olhos se fecham, e só fica o perfume e o silêncio.

Até de manhã.