quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Conclusão?




Tudo começou em uma daquelas reuniões para reflexão. É, a empresa oferece estes momentos para que, em grupo, possamos bater um papo e refletir sobre algum tema sugerido.
Não surpreendente, o tema escolhido foi o ano que passou. Só de ouvir já pode-se imaginar que foi aquele lenga-lenga que todo mundo está acostumado, com direito a show do Robertão e toda aquela enrolação. Mas, não!

A reunião começou e a equipe já imaginava que seria um blá-blá-blá danado. Até que o desenrolar do assunto foi nos prendendo e, puxa vida, nem eu imaginava que seria tão produtivo.
O primeiro ponto a me prender, me congelar: Quais eram as suas metas para 2009? Com o perdão da expressão, mas, cacete! Minha virada 08/09 foi conturbadíssima, não tive o menor tempo para pensar em metas, planejamento, prazo, importância dos meus desejos. Simplesmente deixei o ano virar, e continuei, carregando uma coisa em cima da outra.

Impressionado (por só agora ter me dado conta de que passei o ano inteiro na base do "deixa a vida me levar"), deixei com que a reunião seguisse e veio o outro ponto chave: Quais foram suas conquistas em 2009? E dentre elas, quais fazem parte de suas metas traçadas?

E o exercício era o seguinte: cada um recebeu uma folha sulfite, e poderia escolher entre massinha, giz de cera, canetinhas ou lápis de cor. E, com a ferramenta escolhida, deveria desenhar algo que significasse cada uma das conquistas mentalizadas. Foi então que me emocionei muito.

Primeiro porque minha noite havia sido uma das piores noites da minha vida, passei em claro, ouvindo todas as coisas que nunca imaginei que uma pessoa só seria capaz de dizer para me ferir. Passei uma noite inteira sendo ofendido verbal e visualmente, agredido e limado, retirando de mim minha moral e meu pequeno orgulho, derrubando o meu ego gigante e me atropelando depois de tudo. Foi terrível.

Mesmo assim me emocionei, ao desenhar cada um dos itens: Um chapéu de formando, simbolizando minha formatura;Um ponto de parada, simbolizando o fim das minhas viagens de ônibus que tanto me consumiam o estômago;Uma gravata, simbolizando o novo emprego;Um mapa, simbolizando as viagens que fiz e os novos lugares que conheci (independente de em quais condições isso aconteceu);Um relógio, simbolizando a fase da minha vida na qual estou tendo tempo para realizar minhas coisas, o que não acontecia antes do meio de 2009;Um espelho, simbolizando que neste ano eu pude parar mais para refletir e descobrir muita coisa sobre mim e, por fim, um tinteiro e uma pena, simbolizando que neste ano eu pude escrever bem mais do que imaginava.

Nem eu pensei que teria conseguido tantas conquistas, por mais insignificantes que pareçam, mudaram a minha vida e me ajudaram - neste momento de reflexão - a entender que o ano passou, mas trouxe comigo valores agregados que permanecerão para sempre. Por mais turbulências que possa ter tido, foi um bom ano, e que me deixa aqui as lágrimas de emoção, esperando por um ano cheio de tanta coisa boa e ruim misturada, emoções fortes e destruidoras também, e momentos tão felizes quanto horríveis, porém, inesquecíveis. Sim, assim mesmo, porque é assim que o ano se tornará incrível, como foi este dois-mil-e-nove. Como em um cheque, que já foi, e não mais irá voltar.


Obs.: E o celular foi para a privada. Minha última grande conquista.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pensamento X

Pouca segurança, permite aos que estão do outro lado que te vençam.
Muita segurança, permite aos que estão do seu lado que te enganem.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Welcome to the show



Ouço os gritos aqui de dentro, parece muita, muita gente. Olho pelo vão da cortina, nossa!, tem mais gente do que eu esperava e - melhor ainda - estão todos eufóricos. Gritam, choram, pedem, falam, e tudo ao mesmo tempo. Olho novamente através da cortina, por Deus, vai ser demais essa noite.

Aqui dentro alguns estão ansiosos, outros nem tanto. Alguns canalizam suas tensões em orações, outros em meios não tão lícitos. E eu estou em silêncio, apenas observando tudo, e as características de cada um: o que o trouxe até aqui, este mesmo momento que eu estou vivendo, e fez com que eu me conectasse desta forma com cada um deles. Estamos aqui, preparados.

Saio de fininho e vou até a porta, costumo fazer isso sempre. Há luzes e telões, música, efeitos especiais e o posicionamento exato de cada objeto. Tudo foi montado e milimetricamente projetado (mas não por linhas em papel, e sim a olho nu, pela experiência de quem manda) para que seja um momento perfeito. Uma viagem, sem dúvida, faço.

Agora é a hora! Já nós chamam lá de fora, e iniciamos e nossa oração, abraçados, unidos pela energia do prazer e da música, que nos move até lugares sequer um dia imagináveis. Todos unidos e com força, sabemos o que deve ser feito, e é em abraços de boa sorte que nos construímos por inteiro.

Passo pela porta novamente, e agora é sem volta. Por um instante mentalizo todas das coisas ruins: pessoas que fingem me amar, pessoas que não me respeitam, meu ódio e minha raiva de sentimentos terríveis como a indiferença e a pena. Penso nos desentendimentos, na minha liberdade reprimida, nos meus desejos contidos por algo que só tem me feito mal.

Penso. E deixo tudo da porta para dentro.

Agora é a hora deles, que estão gritando e ansiosos buscam se divertir essa noite. E é para isso que todos nós estamos aqui. Entro no palco, vejo a multidão, faço uma saudação e recebo gritos eufóricos.

Bem vindos ao show!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Eu vivo

As ruas são estreitos corredores
As avenidas, grandes passarelas
Amantes sob o céu escuro e cinza
Distraem-se sedentos por amor

O tic do relógio é triste sina
O tac lembra a dor que habita o peito
Com todos os problemas resolvidos
Eu finjo ser quem sou, pra ser eu mesmo

Procuro aquele santo na carteira
Entre o dinheiro sujo e os telefones
Ao bater o portão com tanta força
Eu vivo o desespero de quem ama

Eu vivo o desespero de quem ama
Eu vivo o desespero de quem ama

Eu vivo o desespero, eu vivo, eu vivo

Eu vivo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poema de criança

Hoje o dia acordou tão cinza
Não tão longe do meu coração
Cinza, cinza, coração
Cinza, cinza, coração

Quando eu choro, eu tenho medo
Quando eu temo, peço perdão
Medo, medo, perdão
Medo, medo
Perdão?

Se eu tenho um pesadelo
Lembro do cinza do dia
Pesadelo, pesadelo
Pesadelo, dia, dia

Mas se acordo e está doendo
Não mais tenho meu coração
Está doendo, coração
Está doendo, meu coração

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Amor de Carnaval (Parte III)


Depois de um longo e conturbado ano, veio chegando fevereiro, e Homero já pensava nela. Droga! Não podia, pois estava agora engatando em um namoro, já há alguns meses, até. Entretanto, era inevitável: aquele encontro de desejo e loucura do último carnaval, o primeiro encontro, há 2 anos, por Deus! Não sabia bem o significado destes pensamentos, mas não podia se controlar. Raquel era incrível e apaixonante.

Por um truque do tal destino, o pior – dentro da cabeça de Homero – aconteceu: foram os dois para o baile, ele, e a nova namorada.

Chegando lá, Homero logo encostou em um balcão, e ficou por ali. Queria discrição, tremia só de pensar na possibilidade de encontrar Raquel e, enfim, não conseguir esconder a decepção de não poder tocá-la. Estes pensamentos o consumiam, enquanto a namorada tomava devagar o seu drink doce.

Ao descerem para a pista, Homero tentava agir naturalmente, mas era inevitável. E quando estava pensando em subir de volta, rapidamente flagrou em meio à multidão. Era ela. Raquel, e...quem era aquele ao seu lado? Homero não acreditou no que seus olhos viam, Ela estava de mãos dadas com...Argh!, outro rapaz!

Homero tentou disfarçar e olhou fixamente para Raquel, até que seus olhos se cruzassem. E foi o que aconteceu, ela virou para observar a multidão e seus olhos ficaram na mira dos negros olhos de Homero. Raquel paralisou.

E ali permaneceram, enquanto disfarçavam com os respectivos namorados, com alguns passinhos de dança, se fitavam e não se perdoavam. Raquel sentia um ciúme incontrolável, e seus olhos franziam sua testa, claramente perceptível. Já Homero, pobre homem, sentia somente aquele ódio de ter, por um momento apenas, perdido sua paixão de carnaval. Ignorava o fato de estar acompanhado, pois queria ela. Raquel, Raquel, Raquel. E não parou de olhar.

Até que os olhos dela foram transmitindo calma, e os dele, confiança. Disse à namorada que ia ao banheiro e ela fez sinal de não, como quem vai ficar dançando. “Ótimo”, pensou. E foi em direção da entrada do baile.

Raquel disse que precisava de ar, e acenou com aquela expressão feminina de quem pode ter tudo. Ele, claro, pediu que fosse tomar um ar e que tomasse uma água. Deu o dinheiro. Ela sorriu, quase que maliciosamente. Ele não entendeu.

Quando ela chegou lá fora, Homero já a esperava. Belo rapaz, e cada vez mais, encantador. Era um jovem de pele clara, com cabelos e olhos negros. Charmoso, ela assim o definia.

Homero a tomou pelas mãos e a puxou para o lado mais escuro da escada. Sem pensar duas vezes, olhou diretamente em seus olhos e deu-lhe um beijo daqueles de eliminar tudo o que estiver à volta. Como na primeira noite, sabiam que estavam ali para se amarem, desta vez com tempo curto, porém, preciso.

O beijo foi intenso, Homero segurava com firmeza a mão de Raquel, enquanto acariciava suavemente seu rosto em contrapartida. Raquel se sentia nas nuvens, por aquele instante, que terminaria. E terminou.



Hoje não se sabe mais nada sobre estes dois apaixonados. Nunca mais foram vistos, juntos ou separados, nestes bailes de carnaval. Não se sabe nem se ainda gostam de marchinhas etc e tal. O que se sabe é que esta paixão ficará marcada para sempre, e que não importa o que fizeram, o fizeram por amor.

E fevereiro, claro, está aí...


Amor de Carnaval (Parte II)


Um ano se passou. Um ano inteiro sem se verem. E foi em um novo fevereiro, que Homero se surpreendeu. E Raquel, conseqüentemente, e não sem motivo. Naquele mesmo clube, talvez a banda fosse diferente – tanto faz – porém se reencontraram. E o encontro foi tão mágico quanto, porém, com uma corrida e um abraço emocionante! Abraço de saudade, de carinho, de desejo. E após um beijo, naquele clima excitante que é o carnaval, a festa despertou nos dois uma vontade incrível de se ter, por inteiro, por aquele momento.

O que era para ser sujo e obsceno, se tornou intenso e mágico. Ali, no meio da escuridão, foi que um canto qualquer se fez o mais perfeito lugar para uma transa louca e incontrolável, discreta mas nem tão silenciosa, enfim, perfeita. Era a união daqueles corpos sendo selada com a força dos beijos apaixonados e o suor dos corpos tremendo de prazer.

E após aquele momento de intensa sedução e libido, ousaram se olhar nos olhos, e como nunca tivessem se visto, transpirando e sorrindo, trocaram algumas palavras:

- Você, por aqui, só pode ser coisa do destino! – Raquel se mostrou supersticiosa.
- Não acredito em destino, porém, o que quer que tenha me trazido até aqui, foi maravilhoso.
- Nossa, a gente só se encontra em carnaval, o que é isso! – E gargalhou como quem está livre de tudo e de todos, para este amor de carnaval.

E gargalharam, e se abraçaram. Ali, no baile mais incrível de suas próprias vidas.

Amor de Carnaval (Parte I)



Reza a lenda que há toda uma magia diferente no carnaval. Um clima único, que tem o poder de trazer - em meio a toda a bagunça e a folia - o amor mais puro que se viu, mesmo que tão caliente seja.
Pois bem. Essa é a estória de Raquel e Homero. Dois amantes que em um carnaval se conheceram, e em um carnaval viveram, pra sempre...



O baile começou e Homero caiu na bagunça. Adorava, ah, como era bom chegar a primeira noite, em meio às pessoas pulando e sorrindo, curtindo aquele show. E as músicas iam de bem a melhor, enquanto ele sorria e observava, atentamente – pois era um grande observador, este Homero, sempre ligado – todos os casais, e rapazes a puxar o trem, enquanto lindas mulheres dançavam as marchinhas.
E eis que ela surge. Uma moça sorridente sai pulando do trenzinho como quem vai tomar fôlego, olha para Homero e sorri.
Ela é linda – pensa ele. E definitivamente Homero estava certo. A guria tinha cabelos negros e pele clara, um contraste incrível. Não era lá muito alta, como nenhuma mulher deve ser, e tinha formas tentadoras. Parecia não existir, naquele momento.
Enquanto sorriam, se olhavam. E a música, então, se calou na cabeça dos dois. As pessoas em volta se transformaram em vultos, e começaram a se aproximar. Então como num filme escrito, sem qualquer medo ou dizer, se abraçaram e em um beijo se perderam completamente. Nada de beijo cinematográfico ou qualquer coisa assim, mas foi sim um beijo de verdade. Um beijo, mesmo.
E ali permaneceram até o fim da música, quando se afastaram algum centímetros, e sorriram um ao outro:

- Incrível... – disse ela, ainda que assustada.
- Qual o seu nome?
- Raquel, e você, deus grego, como se chama?
- Homero.

E riram, mais e mais. E assim passaram ali a noite, se conversando, se conhecendo. Raquel e Homero, Homero e Raquel.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Perigo na Selva





Caminhando nada tranquilamente pelos vãos e becos selva adentro, paro em um canto escuro, em busca de proteção. Não há pessoas, e aliás, não há qualquer sinal de vida por aqui. E não devia nem estar espantado, há tempos ja sei que estou sozinho. Que teria, eu, de reclamar?



Apenas observo.


É bem triste, as vezes, chegar neste ponto. Estou parado, encostado em algum tipo de parede (ou barranco), e só consigo visualizar destruição. Está tudo escuro, e em meio aos feixes de luz, identifico uma fumaça leve. Parecendo oriunda de algum desabamento. Provavelmente o orgulho que despencou de uma vez, e que espalhou a poeira da loucura, aquela que fica repousando sobre todo lugar que eu piso.


E é quando resolvo dar um ou dois passos para o lado de fora, para conferir o território, é que sinto. De novo, consumindo minhas forças e me tirando o equilíbrio das pernas, aquela dor inigualável do golpe na boca do estômago. Só pode ser ele: o monstro, o rei da selva, que é bem maior que dois leões, que é o louco que exala a poeira que eu piso aqui dentro, e que me intoxica as entranhas me tirando o fôlego e o viver.


Quando o monstro do ego é ferido, fica descontrolado e é capaz de tudo. Me bate forte no estômago e logo me derruba, me faz revirar de dor e transpirar incessantemente. E sai por aí em alta velocidade, em busca de alimentar-se de algo que o faça melhor. Que mostre a ele que é ele o todo poderoso, e assim, faça voltar a paz na selva.



Paz momentânea, triste fim deste lugar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cantor de Bolero


"O cinismo é a arma dos infelizes

Carregue suas cruzes,
Com ela,
suas crises."

(Zeca Baleiro)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bilhete

"A forma como você sorri salvou minha noite. Obrigado por existir, mesmo que, por hoje."

Diagnóstico

E construímos o amor sobre a areia. Uma base fraca, feita de mentira, traição, medo, insegurança. Tanta coisa. Quando veio a tempestade, a estrutura que a gente tinha era fraca, suja, fria. A tempestade levou o amor embora e deixou só o alicerce vivo: nossa imaturidade. O amor voa com o vento, levando a saudade e as lágrimas. Um dia as trará de volta, com outras cores e gostos, porém com a mesma coragem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

The game of love


Se for parar para ver, as coisas são assim mesmo. Não dá pra querer ganhar sempre, sabe? Igual nos filmes, quando a pessoa vai acertando na roleta, até que perde tudo e depois fica pensando se a bolinha era imantada?

Mais ou menos isso.

A gente vai jogando, e tem que aceitar perder em certos momentos. Perder agora, pra ganhar depois. Deixar passar agora, pra esperar vir uma "mão" melhor depois, e assim por diante. Deixar rolar.

Dá até aquela vontade de trapacear. E trapacear é ótimo, porque a gente vê que ganha fácil, perde pouco. Só não pode contar o segredo: se contar, acaba a graça. Te descobrem, e aí você perde. Perde tudo, não importa há quanto tempo esteja ganhando.

O jogo do amor é assim que se joga: quando a gente aprende como funciona, o jogo perde a graça. Aí a gente começa a esquecer de jogar e, de repente, o amor chega! E na hora que ele chega, a gente já esqueceu, e começar a ganhar. Besteira, beibe, sorte de iniciante.

Quando se esquece das estratégias, não dá pra voltar atrás, já jogou errado. Nao importa quão bom trapaceiro você já foi, há sempre uma hora de entregar os pontos.

E todos nós somos assim, mesmo, um monte de pecinhas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

O que será?

Os tempos não são mais os mesmos. Sim, muita coisa mudou pra melhor, ou pra pior, bem como outras nem tanto: apenas estão diferentes. Falando sobre o que se quer “ser quando crescer”, realmente, nada é como antes.


Quando eu era bem criança, lembro de ficar impressionado e achar o máximo o fato de meu pai conhecer todo tipo de gente. Íamos levar o carro ao mecânico, ao funileiro, ao dono de loja de carros ou ao “borracheiro”, e eram todos amigos dele, os donos. Então quando resolvíamos ir ao açougue, à padaria, ou atrás de algum pedreiro para realizar algum serviço, e ele conhecia todo mundo!


Hoje paro pra pensar na minha geração, que é intermediária entre a dos meus pais e a dos meus filhos, e isso já não funciona mais. E o motivo é simples: quando tinha, lá, meus 17 anos, e tinha que escolher um caminho para a minha vida resolvi ir pra faculdade. Estudar algo que eu não sabia bem como seria mas que, enfim, me faria ser alguém na vida.


E foi da mesma forma com as pessoas mais próximas de mim: Um foi virar engenheiro, de produção, de alimentos, de mecânica, de eletrônica ou de química. Outros? Dentista, advogado, médico, jornalista, oceanógrafo! Cada um seguiu o seu caminho, foi pra um canto do país – ou até, do planeta – atrás de cuidar da própria vida.


Mas e aí, me questiono. O que acontecerá com os donos de padaria ou os padeiros, com aquele mecânico que é o melhor, que é o honesto? O que será do dono do açougue, que entende tudo de corte de carne, e que ainda fazia aquele preço camarada? E digo mais: todo mundo longe de casa.

Tenho a impressão, as vezes, de que se eu um dia parar pra olhar minha cidade natal, aquela lá do interior, não vai ter sobrado nada! No dia que aquele pedreiro que era um escultor de casas, decidir descansar da vida, quem é que vai construir casas? Um engenheiro civil que entende de exatos cálculos matemáticos mas não sabe bater massa?


Então torço para que estes mestres tenham filhos, e que os filhos gostem do que os pais fazem, para que aprendam bem como fazê-lo. Não é nenhuma garantia de sucesso (ou do pão mais gostoso, afinal me preocupo com ele), mas é uma esperança.


Ou senão continuaremos neste ritmo, resolvendo tudo com os computadores, comprando carne pela Internet e mandando pintar o carro na autorizada. Sejamos bem vindos à vida prática.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O tempo e o amor (continuação)



- Acorde, acorde!

- Ah..ahn...quem é você? – A linda menina questionou, ainda parecendo estar desacordada.

- Eu sou um jovem sonhador, que acredita no bem, e na força dos pensamentos. Um jovem em busca do futuro, de conhecer o que há do outro lado, onde um dia hei de chegar! E você, está bem?

- Estou...é...acho que estou. Sou uma garota, apenas uma menina, com sonhos de menina e âmbito de mulher. Sou uma moça em busca do meu passado, do que me trouxe até aqui, e do que fez com que eu fosse o que sou hoje. Uma garota em busca do passado, de conhecer o que há do outro lado, que é de onde vim.

O jovem ficou confuso, e lembrou das palavras do velho homem. Sabia que seria loucura, porém resolveu arriscar, e contou com o acaso. Ou com o destino? Já não sabia ao certo, o que sabia é que estava ali, exatamente onde deveria estar. Ou não.

Após muita conversa, se conheceram melhor, os dois. Ele, jovem e sonhador, aventureiro, em busca de um sonho. Ela, com as mesmas características, e a identificação era cada vez mais nítida, mais sólida. E, com muita sensatez, os dois reconheciam esta linha forte que acabam de criar, este elo, que se tornava cada vez mais consistente.

- Mas o que nos trouxe exatamente até aqui? – Indagou a garota – Não estamos onde queríamos estar: eu não encontrei o meu passado, eu encontrei você.

- E eu não encontrei o meu futuro, não sei bem onde estou, o que sei é que encontrei você.

E disseram em perfeita sintonia:

- Nós nos encontramos.

Riram. Riram e deitaram no chão de tanto rir, e se olharam fixamente...



---

Essa estória não termina aqui. O que se sabe sobre o jovem e a menina, é que se encontraram curiosamente, por um profundo e intenso golpe do acaso, em um lugar que não exatamente importa, e em um momento que não deve fazer parte do passado ou do futuro, de nenhum dos dois.

Fato consumado é que o tempo errou. Errou para os dois, pobres jovens, que a cada sorriso conheciam o amor, sem mesmo saber o que é este sentimento. E o tempo erra mesmo, e assim os fez perfeitos, um para o outro, como nunca identificado antes, na vida de cada um deles. Entretanto, na hora errada, no lugar errado.

E assim é melhor deixar como está: os dois ali sorrindo, se identificando e se encontrando pra sempre. A magia deste encontro é essa, o errar do tempo, o acertar do amor.

O tempo e o amor



Havia há muito tempo um jovem sonhador. Como tantos outros, um menino com alma de criança e força de um homem, com olhos sempre bem abertos, capazes de enxergar além de ver, e com ouvidos muito atentos, para poder escutar além de ouvir. Este era o herói da estória, o belo jovem.
Em uma de suas viagens pelos próprios pensamentos, algo lhe dizia que – curiosamente – ele não deveria estar ali. Sim, e repetia para si mesmo: “eu tenho que ir além, e eu estou indo!”, e então começou a arquitetar em sua mente de que forma poderia sair dali, pular alguns passos, talvez, mas desde que realizasse seu desejo de conhecer o que estava lá na frente.
O jovem, sempre sensato e com muita sensibilidade, contava com a companhia de um homem mais velho no lugar em que morava. Este homem era seu melhor amigo, sua companhia em tantos cafés por madrugadas intermináveis, mesmo em felicidade e paz, ou em aflição e desespero. Após ter tido tal vontade de ultrapassar o presente, o jovem pensou ser de interesse do velho homem saber de seus planos.

- Isso é loucura! – falou com precisão, o sempre sábio homem – Não há o que não se submeta ao tempo, ao espaço, ao que é palpável, tangível. Não se meta a bancar o inventor, ou pode perder as rédeas da situação. Não queira ver além do que os olhos o permitem!

O jovem foi para casa equivocado, aflito. Não podia deixar que sonho se esvaecesse, por mais respeito e consideração que tivesse ao velho homem, sua ânsia por ser algo mais o dominava, o levando diretamente, então, ao velho porão da casa onde morava. E ali, com suas poucas ferramentas e com o espírito aventureiro que o ordenava, montou sua própria máquina do futuro!
Olhava para a máquina, toda torta e com pedaços de ferro e madeira pelos lados, com olhos de fome e curiosidade. Sabia que seria capaz de entrar, muito embora não soubesse o que o aguardava do outro lado. E foi o que fez: entrou na máquina. Ao apertar o botão da ignição, que montou utilizando um velho interruptor (sujo e enferrujado que encontrou no porão), algo muito estranho aconteceu. A máquina começou a tremer, bem como o porão e a casa toda. Assustado, o jovem gargalhava inocente e involuntariamente, rumo ao futuro!
Luzes se acendem, o jovem sente uma pressão muito forte no peito, e perde a consciência...

A máquina desaparece.

Ao acordar, o jovem se encontra deitado, do lado de fora da máquina, em um lugar todo branco. É isso mesmo, uma espécie de deserto, porém com o chão completamente branco, bem como tudo o que há em volta.
O jovem abre os olhos e, coçando-os pelo ardor da claridade, se assusta! Será que seus olhos estariam o enganando? Onde estava? – Se questionava o tempo todo – Olhou para o lado de trás da máquina e encontrou uma pessoa, também deitada, e desacordada.
Sabia que não estava sozinho, e chegou mais perto. Virou o rosto da pessoa e pode ver: Era uma garota, aparentemente uma adolescente, linda, com cabelos negros bem lisos e uma pele lisa. Rosto de menina, mesmo.

Tentou chacoalhar seu corpo, e chamar sua atenção...

(continua...)

sábado, 28 de novembro de 2009

Mais forte.

"A feiúra é mais forte que a beleza. Pois a beleza tem prazo de validade, porém a feiúra, esta é pra sempre."

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O grande encontro (Parte IV)




- Medo. Medo de não conseguir controlar. Este é o meu principal medo: de perder a situação das mãos, e de deixar as coisas fluirem naturalmente. Não acho que as "coisas" se resolvam sozinhas, nem em mim, nem em ninguém. Este papo de deixar a vida correr é pura besteira, e é disso que tenho medo, de - a hora que eu me der conta - a vida já estiver lá longe, já tiver corrido de mim, escorregado, entende?

- Sim, acho que sim - ele respondeu franzindo a testa, como quem tem algo a dizer - pois vejamos, você que sempre ouviu todas as coisas que ouviu sobre o quanto é responsável, inteligente, dedicado...humpf! besteira, cara! Acorda, que essa imagem existe mesmo, mas você tem que saber administrar, senão perde. Aliás, ja perdeu: pra sua insegurança, pra seus desejos incontidos, e pra esse veneno que você insiste em injetar a cada vez que quer se sentir pior. Você se derrubou, para pra pensar!

Congelei. Pensei, como sempre. Ou pior: olhando fixamente para um espelho que se movia diferente, minha imagem exata. Meus olhos nunca me amedrontaram tanto.
Então com muita calma, resolvi contar a verdade:

- O problema não está exatamente aí. O problema está aqui dentro. Não posso mais conviver com determinadas verdades, não consigo visualizá-las em outras pessoas e não tenho poder sobre isso. Simplesmente pelo fato de que está tudo aqui, em meus emaranhados pensamentos. E alguma poetiza por aí estava certa: A gente só tem medo daquilo que está dentro da gente, e isso é o que mais me apavora: a realidade. A minha realidade, sendo projetada em outras vidas, em outros universos. O universo das possibilidades é sempre infinito.

- Uau! Agora eu to gostando, acho que estamos chegando a um acordo, hein! Fale mais, fale mais...é bom ver que você voltou ao meu encontro.

É, eu voltei e, ao que me parece, "agora pra ficar"...

domingo, 22 de novembro de 2009

Entre o céu e o inferno



Cristina Ricci is fucking crazy.

Visita à selva




Chego na selva. Olhos atentos a todos os lados, ouvidos e percepção aguçada (pensava, por um instante, ter perdido isso), eu vim pra ver como anda este lugar.

Deixei este lugar de lado. Embora sei que este seja "o" lugar, este é o meu lugar, e é aqui eu que eu tenho que estar. Deixei este lugar de lado para correr atrás daquilo que me condena e me escraviza: a fome. Deixei este lugar de lado, mas estou de volta.

Não sei quanto tempo foi, se alguns meses, ou quem sabe alguns dias que fiquei longe. Não importa. Em visitas esporádicas é que construo minha moradia em meio a essa forte chuva de pesadelos, e é me escondendo por debaixo das cabanas feitas de mato e de mentiras é que visto minha máscara, para me defender dos ataques dos animais selvagens e das fraquezas do meu egocentrismo. Dá medo. Mas, vambora.

Parece que está tudo abandonado, as coisas estão calmas por aqui, não vejo grandes movimentos. De qualquer forma, já entrei, e preciso ver se está tudo certo, ou se existe alguma ameaça. A selva existe, em cada um sabe (ou deve saber) bem como cuidar dela. Cada um deve saber o tamanho e os perigos que rondam o interior da própria selva. Mas não, a maioria, não se preocupa tanto. Tudo bem.

Vou desbravar mais um pouco, para ver o que encontro. Vou alimentar a esperança de lembrar que isso aqui é realmente um bom lugar. Que é bem melhor estar aqui do que lá fora, trabalhando pra pagar o que comer, pra ter energia pra trabalhar.

Que saudade das madrugadas a fio com coca-cola e muito assunto.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Hoje, não.



Eu sento na calçada com meu violão, e toco todas as músicas que me fazem sentir só. Aprecio a solidão, e as pessoas "normais" nunca entenderam isso. Talvez nunca entenderão...

Talvez.

A cada melodia que sai chorando, trago memórias de bons momentos em minha mente. Os mais recentes, porque este foi o trato. Fiz um pacto comigo mesmo, de que iria reviver em mim somente os bons momentos, exatamente para isso, para ter certeza de que eles ficarão aqui dentro, para sempre.

Tudo fica para sempre.

E a solidão tem gosto de quem acolhe bem, com sinceridade. A solidão é o sentimento mais sincero e ao mesmo tempo mais desonesto que existe. Explico. É o sentimento mais sincero pela clareza e cumplicidade: é você e você, e ninguém mais. Tem coisa mais objetiva e "preto no branco" do que isso? Ao mesmo tempo que a solidão é um sentimento de falsidade, porque não há nada mais falso do que a gente mesmo.

É verdade! Não adianta querer dizer que se é diferente: todos somos iguais, nos enganamos, mentimos pra nós próprios, mentimos para os outros e nos deixamos enganar, e enganamos também, e consertamos uma mentira com outra pra ver se melhoramos, mas acabamos por piorar ainda mais a situação. E imagina esse rolo todo com você sozinho, no meio de uma auto-afirmação? Terrível.

E é por essas e tantas outras que aprecio estes momentos de isolamento do mundo real. Porque primeiro que não há nada mais sujo e nojento do que o mundo real. Segundo que, tão sujo e nojento quanto, é o que a gente tem dentro da gente. Mas além de todo esse podre, somos um bando de egoístas, e fazemos questão dessa enganação. Então é aí que se isolar fica muito melhor: pensamos que estamos bem, brincamos de nos distrair, e de ser foda.

Não somos.

O fato é que só quem me conhece mesmo sabe da onde é que vem tudo isso. É bem mais complexo do que parece, porém bem menos exato do que essas frases afirmativas tentam cercar.
A vida é um universo de possibilidades.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Impressões

Parece que aquilo que eu sempre falei pra mim mesmo, frente ao espelho, que precisava que acontecesse para que eu pudesse viver tranquilamente dentro daquelas condições, aconteceu hoje. Não sei ao certo, por isso estou indo dormir, que é pra ver como acordo amanhã. Se eu acordar com a mesma sensação de fortaleza que eu estou sentindo agora, muita coisa irá mudar.
Se for mesmo, que pena, porque aconteceu tarde demais. Bem que me falaram que eu só ia conseguir, mesmo, quando eu parasse de tentar.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sinal Fechado

Só assista se estiver preparado: http://www.youtube.com/watch?v=minBYEaXy7k


Sinal Fechado

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...

Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...

Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem

Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?

Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)

Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança

Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...

Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...

Até o fim

Convite




Sentei naquela mesa de plástico. A 22. E os dois que estavam comigo sentaram nas cadeiras ao meu lado, estando um de frente para o outro. Ninguém em minha frente, só ela.

Pedimos uma bebida e começamos a conversar, aquela conversa boa, sem preocupação. Eis que a vi: curiosamente na minha direção, duas ou três mesas à frente, e virada de frente para mim. No mesmo momento em que a encontrei, ela me encontrou. Tenho certeza que ela me viu! Olhou para meus olhos, como quem pergunta "O que faz você olhando assim para os meus olhos?", e logo saiu do foco. Elas (quase sempre) são assim, precisam de algo mais para conseguirem fixar um olhar. Dei um sorriso daqueles de canto de boca, de quem se sente "o bom", e pus meu foco na mesa.

Mas foi no primeiro copo que minha dureza desabou. Ah, o poder da beleza feminina. Ao terminar o primeiro gole, coloquei o copo sobre a mesa, e quando olhei para minha frente é que percebi: a menina dos cabelos pretos cacheados, da pele branquinha e de mãos pequenas e, com toda certeza, lindas, estava de vestido. Um vestido rosa, milimetricamente exato o tamanho para me provocar um arrepio de dar até frio. Aquelas pernas branquinhas por debaixo da mesa, cruzadas, e envolvidas por poucos centímetros de vestido visíveis, me hipnotizaram. E ela percebeu.

Entre um ou outro gole, tentava controlar os batimentos, e tentava não fixar aqueles joelhinhos um em cima do outro, implorando para serem beijados. E em uma dessas mudanças de foco, enquanto eu suspirava pensando "Meu Deus...", olhei em seus olhos, e ela nos meus. Ali ficamos presos, olhos nos olhos, fixo. Eu com um olhar submisso à tal sedução, e ela com um olhar poderoso, de quem manda na situação. E manda.

Era o que ela precisava para fixar os olhos nos meus. E após segundos de olhar sem qualquer interrupção, ela resolveu jogar: e descruzou as pernas. Ahhh eu não saio vivo daqui hoje, pensei. Ela sorriu, maliciosamente, e continuou a olhar nos meus olhos, como quem não permite que eu tire dali meu olhar. Falha terrível, não pude evitar: desci rapidamente e medi cada centímetro de distância entre uma perna e outra, cada detalhe daquele desenho que formava entre a sombra daquelas pernas lindas e rijas. Aquele convite.

Até que ela terminou com a crueldade: cruzou novamente as pernas. Desta vez, a perna direita sobre a esquerda, o que me fez olhar imediatamente em seus olhos, e ela entendeu o recado. Quero mais.
E sorriu, de novo, maliciosamente. Desta vez, com o outro canto da boca. Bebeu mais um gole, e me despistou. Pra sempre.

domingo, 8 de novembro de 2009

A melhor coisa que te aconteceu.



Essa é a estória do rei e de seu conselheiro. Todos os dias saía o rei para a floresta, pois gostava de caçar. O rei gostava de ser o caçador mais bem reconhecido de seu próprio reino e, por isso, praticava. Assim, como em todos os seus passos, ia acompanhado de seu conselheiro.

Não havia nada que o rei fizesse que seu conselheiro não o ajudasse, com as sábias palavras girando em torno de mil significados, dentro de seus conselhos. E assim seguiam, a caçar, os dois.
Porém em um destes dias de caça, ao tropeçar em um galho seco preso a algumas raízes de árvores, o rei caiu de frente para algumas flores cheias de espinhos. Ao esticar os braços para tentar se apoiar, o rei bateu uma das mãos em uma fatia cortante de uma planta. Com isso, o seu dedo mindinho foi cortado, amputado.

Com a ajuda de seu conselheiro, o rei fez um curativo e voltaram para o reino. Quando chegaram, o conselheiro lhe disse:

- Majestade, a perda deste dedo, foi a melhor coisa que te aconteceu!

Sem entender, o rei ficou irritadíssimo! Como pode o conselheiro, que sempre foi tão sábio, dizer uma grande besteira dessas? Como pode ser tão ousado? E tomado por essa ira contra o próprio conselheiro, o rei o prendeu e lá o deixou, sem a própria família, preso em seu castelo.

Depois deste dia suas caçadas começaram a ser assim, sozinhas, mesmo. Com algumas dificuldades de encontrar o caminho - afinal, sem a ajuda do conselheiro - o rei acabou indo parar em uma tribo de canibais! Desesperado, o rei foi capturado pelos canibais e, mesmo sem entender uma sequer palavra, sabia que seria devorado mais cedo ou mais tarde.

Porém, ao chegar o líder do grupo de canibais, o mesmo deu um grito bem alto, ordenando qualquer coisa que fosse parecida com um "Parem!". O líder chegou mais perto do rei, e apontou a falta de seu dedo mindinho. A falta de qualquer parte do corpo significava doença, imperfeição, o que impedia a tribo de devorar o aflito rei.

Assim no caminho de volta, mesmo voltando correndo para não encontrar com qualquer canibal faminto nunca mais, o rei só pensava em seu conselheiro. Quanta sabedoria! Pois se o rei não tivesse perdido seu dedo um dia, teria sido devorado pela tribo. Realmente, a perda de seu dedo, foi a melhor coisa que já lhe aconteceu.

Seguiu o rei direto para a prisão onde se encontrava o conselheiro, para lhe contar o ocorrido. Quando o rei terminou de contar da escapatória, pediu perdão ao conselheiro, por tê-lo prendido sem entender o que tais palavras significavam. Então, o conselheiro o respondeu:

- Você não precisa pedir perdão de nada, Majestade. A melhor coisa que me aconteceu, foi você ter me prendido aqui. Pois se eu não estivesse preso, e estivesse junto a ti, quem ia ser comido seria eu, afinal, tenho todos os dedos das mãos.





*Existem coisas em nossa vida que acontecem inesperadamente. O que aconteceu ontem, independente da dor irreparável, foi a melhor coisa que me aconteceu.

Do fundo do meu coração



Não volte nunca mais pra mim.



*Lembra quando esta musica tocou, no mesmo show do vídeo, e eu chorei, e você não entendeu o porquê? Então, ta aí. Eu sabia que um dia teria de cantá-la. E essa hora, definitivamente, chegou.

sábado, 7 de novembro de 2009

Sobre a responsabilidade


Não é de hoje que é preciso pensar antes de agir. É, talvez nem todos sejam da mesma opinião, pois há quem se permita enlouquecer e perder a noção do que é certo. Entretanto o fato é que a responsabilidade corre por aí, lado a lado, com a consequência.

Explico. E começo pela parte mais difícil: a hora do acerto. Independente de qualquer situação, somos forçados a tomar decisões, e é tomando decisões que fazemos a nossa vida, que escolhemos dentre as possibilidades. Pois bem. Se ao tomar-se tal decisão, se deixar de analisar todo o círculo de possibilidades em volta das reações decorrentes dela, tem-se uma bola de neve. Uma sequência de ocorrências que não se previu.

E agora? E se não tiver responsabilidade sobre os próprios atos?

Saber reconhecer quando se é responsável, quando a "culpa a sua", quando sua batata vai assar, é um dom. E saber dizer, principalmente, se você pensou ou não antes de tomar suas atitudes, é um sinal fantástico de auto-reconhecimento.

Até no meio da loucura, é preciso tê-la, a tal da responsabilidade. Mesmo porque, sabendo ou não que se quer extravasar o suco do que é certo, se deve lembrar que amanhã é outro dia e que o mundo há de girar bem rápido. Mais do que se pode calcular.

Então falo da parte mais fácil: a reputação. Essa é questionável e, muitas vezes, ignorada. Porém penso da seguinte forma: poucas coisas ficarão na vida - após a nossa morte - além do próprio nome. Por isso penso na importância de se fazer merecer cada passo, pois você há de ser lembrado, pelo bem ou pelo mal. Você pode até não se preocupar com o que os outros pensam, e aliás nem precisa, porque não faz tanta diferença. Hoje.

Ser responsável pelos próprios atos é questão de idoneidade, de honra. É mais que assumir, reconhecer: é pegar para você. E quando se sabe exatamente o que foi feito, é que se deve passar por cima do orgulho e do ego juntos, e dizer: sim, eu sou responsável por isso, e assumo as consequências.

E o pior é que sempre que percebe-se isso, é que se pensa: devia ter visto isso. Ontem.


Em tempo:
1 - Não, não vou ser pai.
2 - Minha vida as vezes é mesmo muito chata.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Pensamento VIII

Qual é a pior parte da sensação de se sentir enganado: A dor ou a vergonha?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Se tudo correr

Corre o tempo atrás de mim
feito um leão esfomeado
Corro eu atrás do tempo
Corro, feito o tal coelho
"Eu estou atrasado"

Faço da hora corrente
Mil minutos perdidos
E por aí, pela frente
Ao perigo veemente
Pesares escondidos

Se permaneço deitado
Logo me vejo aflito
Do mundo, então afastado
E por rancor, exilado
Pelo provável delito

Porém ao sair de casa
Sinal da cruz, amém
Nem vou olhar pros lados
Só serei abençoado
Se tudo correr bem

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ouro

Gosto de aparecer assim, quando tudo parece perdido. Me vejo as vezes isolado, quase que indeciso se vou ou se fico, e mais uma série de diferenças entre tantos e tantos maiores que eu. Alguns olhares despertam atenção para minha aparência, alguns pedem minha aparição assim, logo de cara, como se ninguém ainda estivesse ali, e eu chegasse chegando. Gosto de surpreender, de despertar misteriosos desejos, de instigar o poder até daqueles mais fracos, que se vêem fortes em qualquer momento de sorte. Sou, muitas vezes, o mais tímido. Faço do inimigo minha principal arma, aqueles mais fortes entre os menos potentes. Mas quando chega alguém assim, de preto e que se faz presente, logo abro o jogo e digo: Não posso! Sou fraco demais para isso.

Mas quando fico para as últimas, aí sim é que provoco tentações. Sou tão singelo que causo risos, pois ninguém consegue me segurar. Morro, mas não empato. Capivara no barranco: sou dos fortes, o mais fraco.

Não ouse blefar, porque eu perco. Não confie em mim! E se eu saio em qualquer rodada e alguém ousa: Truco! Corta esse pica fumo e pronto, estou morto. Morro, mas não empato.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Coisas da vida




"Eu não tenho nada pra dizer
Por isso digo
Que eu não tenho muito o que perder
Por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer
Por isso sonho"

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Família



Existem certas coisas que me deixam emocionado. Por ser assim, um tanto quanto emocional dentro do cartesiano, não consigo me conter. E assim aconteceu ao encontrá-los.
Sempre tive um grande carinho por essas duas irmãs. Belíssimas as duas, jovens, e de sorriso espontâneo, quase que puro. Sincero. Minhas duas “primas distantes”, como nós mesmos costumávamos brincar, são pessoas queridas das quais sempre senti uma saudade imensa. Quase que inexplicável, tal imensurável sentimento. Quando descobri que realmente poderia vê-las, isso me pareceu quase um susto. Taquicardia, disritmia, e todas essas outras falhas deste pobre coração sofrido. Até que enfim eu estava ali.
A demora na rodoviária foi quase que um martírio, todas as ações ocorrendo no tempo certo. Eu cheguei naquela terra e lá estava a esperar. E ela chegou: Linda, loira e sempre, sempre charmosa. Minha prima distante, agora ali tão próxima, na minha frente. Ela, e só ela. Que emoção, que coisa boa, que presente para uma fase tão difícil!
Havia tanta coisa pra falar que o melhor a se fazer, na hora, foi calar. Calar e deixar chegar, havia tempo, e até ânsia! Recíproca e intensa ânsia de saber como o outro estava. Saber o que aconteceu desde o dia da partida. Dela.
Saímos dali, ela conduzindo. E ao chegar naquele belo lugar, foi que encontrei: A irmã, a mais nova e não menos importante, e seu futuro marido. O abraço foi longo e intenso, puro, emotivo. Me segurei para não me desfazer, para não chorar, ali em sua frente. Estava estonteantemente bonita, com aquele olhar de sempre. Aquele de quem se pode confiar, que acolhe e conforta em qualquer circunstância.
Feliz também ao conhecê-lo, o futuro marido. Aquele a quem entrego uma das jóias mais raras da vida, preciosa e cheia de brilho. Seu brilho, único.
Após tal grande encontro, coisas maravilhosas. Dias infelizmente curtíssimos porém de intensidade inigualável. Por Deus, e ainda nem falei do irmão mais novo!
Quando elas foram embora, tinham um irmão mais novo. Baixinho e gordinho, uma criança, é claro. Agora ao encontrá-las, o tempo ajudou para todos: meu priminho cresceu e estava alto, da minha altura, veja só? E bonito, tal qual as irmãs, bem criado. Uma pessoa tão boa – claro, vindo da mesma fonte – que me emocionou de verdade. Cresceu.
Meus queridos, esta é apenas uma simples forma de dizer-lhes, o quanto eu amo vocês e como me fizeram bem ao me receberem. Esta hospitalidade, este carinho e este amor com o qual sou abençoado de ter vindo dessa família maravilhosa, não se pode encontrar em qualquer lugar. Parabéns por essa simplicidade que move vocês, sem dúvida alguma, para qualquer lugar que desejarem. A mesma que os levou até aí, acreditem. Se hoje vocês estão tão bem, é por esforço próprio e por toda essa vontade e crença naquilo que há de mais belo que é o amor.
Obrigado pelo imenso carinho, e por essa existência que me fez chorar – mesmo que ali, escondido – ao ir embora daí. Desculpem se não pude ficar o tempo que desejavam, se não pude conversar o tanto que eu gostaria de tê-lo feito, e se não pude dar a atenção equilibrada a cada um de vocês. Desculpem pela bagunça, mas embora dentro dessa seriedade toda, eu sou assim mesmo.
Gostaria que todos vocês lessem este texto, pois veio do que há de melhor em mim, para dar a vocês como forma de retribuição. Mesmo que não seja necessária qualquer troca, nada do que eu faça vai ser suficiente para dizer, no mais alto dos volumes, o quanto fiquei feliz por tudo o que fazem, e por tudo o que são, para este primo distante.
Metida, parabéns pelo seu aniversário. O aniversário foi seu, mas quem ganhou presente fui eu. Que você possa ser mais e mais feliz com este belo sorriso e usando o mesmo bom perfume a cada dia, deste novo ano de vida.
Bonita, parabéns pelo bom partido. É um bom homem e só me deixou mais feliz por poder confiar a alguém assim o carinho que tenho por você, que será sim, mais que suficiente.
Rapaz, não há nada que eu possa dizer que não envolva a palavra: sucesso! És um menino fantástico, com um ar de artista e com a simplicidade do mais humilde tocador. Que continue a trilhar belos caminhos, orientado por essas duas peças raríssimas que estão ao seu lado.
“Tios”, que mesmo não sendo: Obrigado. Primeiramente obrigado por tudo o que foram para mim, e por tudo o que ainda serão. No colo de vocês, me senti menino, me senti homem, me senti primo e me senti filho. Obrigado por me proporcionarem momentos tão felizes. E em segundo lugar, porém não menos importante: Meus sinceros parabéns. Porque sendo assim, tão bons, é que fazem estas crianças dignas de tudo o que há de melhor na vida. Se os três são assim, tão belos, a culpa é toda de vocês!

Um forte abraço, com muita tristeza por essa ausência.

Do seu primo distante, que até joga baralho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Valsa magra

Tudo vai se esvaecendo assim de um jeito tão estranho.
Gestos, falas e gracejos, dias que não vão chegar.
Tudo passa, já está longe, e assim, nós, pra onde vamos?
Se o pouco que nos resta é o tempo da não-paz.
Há um mundo inteiro solto, de verdades ou conselhos.
Há um sonho que ficou pra trás, trancado porta a fora.
Deixa o que não presta ali, tomando chuva, no alpendre.
Deixa o que presta lá, junto, pois eles não se separam.
Lembra do que era tão ruim, esquece o que lhe agradava.
Lembra não-mais de nada pois o que mesmo te importa?
Se o que queres é vida e o que buscas flutua.
Se o que não buscas é isso e isso é o que te rodeia.
E dentro da valsa magra cabem vinte cigarros,
já dentro do roque gordo o que resta é o teu desprezo.
Pra que essa marca intangível do pretérito imperfeito,
enfim um dia apareça, como meu, então, defeito.

domingo, 4 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Maldição Eterna

“Alô?”

“Oi. Sou eu.”

Só pessoas que têm ou recentemente tiveram uma relação especial com a gente podem se apresentar dessa forma. Sem dizer o nome. Demora um bom tempo até que a gente esqueça o som de determinadas vozes. Por isso, declinar o nome, pelo menos por um período, é perda de tempo.

“Oi, Nadja. Tudo bem?”

Era ela. Nadja, meu amor perdido. Eu sempre quis falar coisas inteligentes para Nadja, bem diferentes de um simples “tudo bem?”. Sempre quis impressioná-la com falas cinematográficas. Hoje vejo como isso foi ruim para o nosso romance. Eu deveria ter acreditado que ela pudesse gostar de mim como eu sou mesmo, com minhas frases banais e gramaticalmente manquitolas. Uma relação em que você se sinta na obrigação de parecer melhor do que é não pode ter um futuro muito brilhante.

“Fabio, eu queria escrever um texto sobre a minha verdade. A minha versão sobre o fim do nosso romance. Você já apresentou, nos seus textos, a sua verdade. Não acho muito justo. Aliás, não acho nada justo.” (Ela frisou o “nada” esticando deliciosamente a primeira sílaba. É uma das pequenas coisas que mais me trazem saudade. Me ocorre o seguinte pensamento: a saudade das pequenas coisas dói ainda mais que a saudade das grandes coisas.)

“O que você está querendo é inusual, Nadja. Posso adiantar que…”

“Não me adiante nada, Fabio.”

Nadja jamais tivera muita paciência com embromações. Daí o corte abrupto de minha frase. Num momento isso me encantou. Depois confesso que senti falta, em Nadja, de uma dose um pouco maior de paciência. Pelo menos comigo. É curioso, nas relações, como muitas coisas que vemos no começo como virtudes no outro ou na outra se transformam depois, aos nossos olhos, em defeitos. O tempo é cruel como um velho cossaco russo.

“Eu quero expor o meu lado. Fabio, você sempre foi imaturo. Extremamente imaturo. Você gosta do amor impossível. Você gosta da fantasia, não da realidade. Você não deu certo comigo por mais que eu amasse você. Você não deu certo com a Constância por mais que ela amasse você. Será que você percebe que não dá certo com ninguém? Quando será que você vai crescer, Fabio? É isso que eu quero escrever no artigo. Você é um embuste, Fabio. Alô, você está aí?”

Ela queria uma prova de que seu golpes verbais estavam doendo. E eu dei, talvez por uma espécie de gentileza póstuma.

“Sim. Pode ir em frente, Nadja.” (Recentemente li numa revista americana que a melhor coisa que você pode fazer quando se vê numa conversa destruidora com sua namorada é encerrar essa conversa enquanto os danos não são tão grandes assim. Infelizmente, em relação a Nadja, só li depois de um número considerável de conversas pesadas.)

“Você me atirou para fora de sua vida com esse comportamento infantil, Fabio. E me atirou para os braços de outro homem. Bem melhor, aliás, que você, Fabio. Principalmente naquilo.”

Naquilo? Um dos maiores temores de um homem é que seu sucessor seja melhor que ele naquilo. O ideal seria que nossos sucessores fizessem tudo – cantar, escrever poesias, ganhar dinheiro, eventualmente até dar uns beijos -, menos aquilo.

“Fabio. Eu… eu…”

Passou pela minha cabeça a possibilidade de que ela completasse a frase assim: “… amo você”.

“… eu odeio você. Quero que você se ferre.”

Nadja me odeia e eu aceito que seja assim. O grande amor só é grande amor se terminar em maldição eterna.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Viver a vida

Não sou, lá, muito chegado em novelas. Nunca fui.
Mas desta que está em evidência, alguns núcleos me trazem à mente divagações e reflexões quase que intermináveis. É, a dos gêmeos.
Quem bem me conhece, bem sabe o porquê.



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vaga vida.

Venta, vida
Vida vaga
Volta, vento
Vida vasta

Vaga volta
Veste, vaza
Veludada
Vida vaga

Vejo várias
Velhas varas
Velharias
Voltas, várias

Vai, vem, vira
Vira volta
Vão, vencidos
Velhos votos

Vento, vela
Vários vultos
Volta vida
Velho, vulgo

Vago vindo
Volto velho
Vago vício
Vulgo velcro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O grande encontro (Parte III)



Respirei.

- Tá certo. Vamos devagar, o que você quer de mim? - questionei com humildade.
- Quero te trazer de volta. Pois sei que você está sentindo falta disso, de tudo o que você sabe que é, de tudo o que já foi - em qualquer das épocas que tenha vivido - e não tem mais conseguido por causa de tanta poluição aí, nessa sua cabeça.

Respirei de novo. Acho que estava me acostumando com a idéia de estar em um papo "a sós comigo mesmo", comecei a ficar mais a vontade, embora ainda um pouco amedrontado. Respirei fundo e fixei meu olhar em cada um dos traços de seu (ou de meu, como quisesse) rosto: um rosto quadrado, de homem, com um desenho definido. Quase um personagem de gibi, o rosto de qualquer um destes super-heróis, sabe como é? E depois fui ainda mais fundo: sombrancelhas milimetricamente grossas, olhos baixos, como quem só focaliza, não abrange. Talvez eu seja mesmo um pouco assim. O nariz talvez grande olhando de perfil, mas não do ângulo que eu estava. E aqueles traços ao lado da boca seguindo até a maçã do rosto, de quem esboça sorrisos mas não muito os aprecia. Olhei para minha boca: gosto dela também, quando quero. Quando sorrio a vejo perdendo qualquer poder que um dia pudesse ter existido. Resta então o último traço, o contorno externo das bochechas alongando até o queixo, com uma fenda tão milimetricamente desenhada como as sombrancelhas. Nem lembrei de como sou detalhista.

- É, meus parabéns. Você está entendendo bem o que eu quero lhe dizer - afirmou com toda a firmeza e serenidade combinadas.
- Sim, talvez sim. Obrigado por ter vindo, nem eu achei que estivesse precisando tanto.
- Seu narcisista de merda! Eu não precisaria ter vindo para isso, você tem espelho para satisfazer seu ego. Deixa esse papo furado pra lá, e me responde de uma vez...

Assustei. Nem eu achei que tivesse tanto punho, tanta potência e persuasão. Eu me convenci, que sensação mais esquisita. Fixei seu rosto por completo, quando me perguntou com a mesma expressão séria e firme:

- Do que você tem medo?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Woman in Chains

O grande encontro (Parte II)




- Vou parar aqui
- É, acho que aqui está bom, sim. - ele disse, com aquele meu tom de metido que cada vez me fazia mais subir o sangue à cabeça.
- Vamos beber alguma coisa, quero saber o que você está fazendo aqui.
- É: você vai. Eu só vou falar, mesmo.

Entramos no bar, ou entrei no bar? Sei lá, ainda não estava entendendo muito bem o que acontecera comigo. Minha consciência aparecendo pra conversar comigo? Será que eu estou mesmo enlouquecendo, depois de já pensar - por tanto tempo - que eu tinha tendência pra isso?

- Tá certo, agora me fala, o que você fazia ali no banco de trás do meu carro, me esperando?
- Estou aqui não é de hoje, mas senti que você anda precisando de ajuda - aliás - você sentiu, e é por isso que eu estou aqui na sua frente.
- Hum, prossiga
- Ouvi sua última conversa consigo mesmo, lá, deitado na cama de olho pro teto. Você quer melhorar, queria as vezes ser menos isso, mais aquilo, e aquele blá blá blá todo. Essa, por enquanto, não é a parte mais importante. Eu quero saber o seguinte: O que você faz aqui?
- Como assim o que EU faço aqui? Eu estou aqui tentando ficar bêbado e ver se você desaparece!
- Não brinca com isso vai? Só me diz, por que você acha que está aqui, estivesse você neste bar ou em casa de frente para o Denzel Washington.
- É o seguinte: a vida é mesmo este conjunto de possibilidades, é um grande aglomerado de coincidências, contra as quais lutamos para evitarmos grandes consequências.
- Você já ouviu isso antes, não me diga que é seu.
- Não, não é. Mas é marcante, fala aí?
- Aposto que sim - afirmou e bocejou, me provocando instintivamente. Mas me fale mais, me fale por que está aqui, você ainda foi muito superficial para o meu questionar!
- Ah, tá certo. Estou aqui porque escolhi. Porque as atitudes que tomei, com as pessoas que conheci e de frente para as situações que tive que passar, me trouxeram até este exato momento. E ah, porque eu sou um tremendo egoísta também.
- Não me diga por enquanto quem você é. Eu já sei disso, esqueceu? Que eu sou você?
- Humpf, mea culpa.
- E nosso latim é desprezível, não ouse abusar dele.
- Nosso?!?! Como assim, nosso?? Que papo é esse? Que nosso, o que?! Eu não sei quem é você, não sei o que você faz aqui, não sei nem se devo mesmo falar tudo isso só porque você tem a mesma aparência física da imagem do meu espelho!

Naquela hora fiquei completamente irritado. Não sei bem por que, tudo estava muito estranho, nao entendi bem por que estava fazendo tudo isso, mas de alguma forma sabia que deveria fazer seguir, que não deveria fugir. Embora confuso, resolvi continuar, podia ser muito interessante.

Mais ainda...


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O grande encontro (Parte I)



Entro no carro e me tranqulizo: ai que frio que está lá fora. Coloco a chave na ignição, óbviamente mecânico, e com a outra mão já puxo o cinto de segurança pra cá. Olho no retrovisor:
- Ai meu Deus!
- Chamando aos céus a essa hora? - ele diz, com tom de quem tem segurança.
- Qu-Quem é..você?!
- Eu? Não está me reconhecendo, rapaz? Eu sou você! Ou não percebe a semelhança?

E era. Por todos os espelhos retrovisores da face da terra: era eu! Eu ali, no banco de trás, ai-meu-Deus - repeti em pensamento.

- Eu estou vendo que você sou eu, ou eu é que sou eu, ah, sei lá!
- Hahahahaha...
- Seja lá quem você for, ou quem eu seja, o que você está fazendo aí atrás? Tenho cara de taxista? Passa aqui pra frente logo!
- Ta tudo bem, vou pra frente porque seu ego é mesmo uma merda.

Abriu a porta e saiu do carro. Apertou o pino da trava e bateu a porta, abriu a da frente, com a minha mão, o meu jeito de abrir, de olhar a borrachinha da porta escapando, tudo! Entrou no banco do passageiro...

- Ah, o passageiro, como gosto deste nome! - exclamou com o mesmo ar de superior
- Não achava que este meu tom de arrogância era tão irritante
- Talvez dizer aos outros o quanto você é chato pode ser até engraçadinho, mas chegou a hora de você realmente ver o quanto é. E ah, por gentileza, dirija. É perigoso aqui, você sabe né?
- É. - Concordei, dei partida no carro e saí calmamente, olhando nos espelhos e no marcador do consumo.
- Ou será que você esqueceu o quanto é sistemático?
- Hey! - exclamei - Você quer fazer o favor de parar com isso? Veio fazer o que aqui, me jogar na cara meus defeitos? Ou alguém no mundo se lembrou que ando precisando de companhia? Quem diabos é você, afinal?
- Calma lá, calma lá! Enumera as perguntas pra você entender melhor as respostas, e quem fala muito "diabo" um dia o vê, esqueceu?
- Humpf...
- Eu sou você, seu ego, seu orgulho, sua consciência e seu respeito por si próprio. Sou seu amor pela vida, sua poesia e seu sistematismo. Sou teu cansaço de fim de tarde, sua necessidade de ser exclusivo, seu charme e sensualismo, sua inteligência mal explorada, seu humor e sua bipolaridade hipócrita.
- Nossa! Que prazer em te ver...
- Tá vendo o que falei do humor?
- A gente vai parar ou eu vou ficar gastando meu combustível aqui a madrugada toda, posso saber?
- Ah, esqueci, eu sou o escorpião criado dentro do seu bolso, também.
- Ha-ha-ha, e é piadista ainda...

Estava confuso, não sabia direito o que significava aquilo. Era eu, eu! Como assim eu ter me olhado no espelho hoje e agora encontrar com quem estava do outro lado? Como assim eu encontrando comigo? Minha consciência? Por Deus, eu ando bebendo café demais...



continua...

sábado, 19 de setembro de 2009

Por tudo


"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo."

em Lixo e Purpurina, de Caio Fernando Abreu



*Honestamente copiado do Blog da Dri.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Beba a vontade.


Senti a necessidade de escrever. De escrever de novo, de fazer o lápis gritar com o papel, os dedos chorarem palavras e as mãos conduzirem as dores. Olho ao meu redor e ninguém percebe, saio e mais tarde volto, dou voltas, faço contas, olho novamente. Ninguém percebe. E nem deveria, de fato, pois não chamo a atenção. Me cubro, me espalho e logo recolho, me molho e me seco, canto e me desespero, me escondo e me mostro. Eu sou teu amante, teu resto de voz preso na garganta, teu pedido em súplica que diz: volta. Por demais que seja o amor, o ego é sempre maior. Me vejo em um beco, me solto e me mexo, me faço até duro: me morda, que eu deixo. Me lamba, que eu gosto. Me aperta, que eu faço o que você quiser. Mas não me jogue pra baixo, que você não consegue descer pra me pegar de volta. Não me deixe neste lugar onde você não alcança, é alto demais aí em cima do seu nariz. Então me procuro: no velho ali fora que está no portão, ou até dentro da casa. No terno e gravata debaixo do sol, ou mesmo dentro da mata. Na selva que é essa cidade, tão cinza, no peso das costas que vejo em você, mas vejo que você me pisa. Não consigo me encontrar, não acho. E lembro o quanto gosto de seguir, de olhar pra frente, de fazer o certo. Eu gosto da rotina menos que do espontâneo, mas o ocasional só existe se o primeiro lhe der base. Quem haverá de quebrar a rotina se não estiver dentro dela? Que violoncelista você conhece daquele grupo de pagode? E trago mais de dentro dessa jarra: lembro do dia em que percebi a força da luta. A luta é muito mais do que essa preguiça boa, esse cochilo de tarde, essa mórbida calma. Acho que levar um tiro no peito na esquina da Brasil é mais interessante que aquele infarto aos 80. Com ou sem você.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A pergunta veio à mente


O que que eu tô fazendo aqui?

Hein? Ao lado dessas pessoas chatas, a me encher o saco.
Parem com isso, céus! Não precisa perguntar se tá tudo bem, não, se eu to enxergando tudo certinho ou se eu to precisando de alguma coisa.
Sabe qual é? Cheguei até aqui sozinho, com minhas próprias pernas! E eu tenho certeza que é assim que eu vou embora daqui. Por mim.
E pode mesmo me olhar com cara feia, pra essa minha cara fechada de quem comeu e não gostou. Não gostei, mesmo! Não engulo essa babaquice, essa futilidade, esse apego ao que não presta. De não prestar já basta eu, e ainda tenho que aguentar vocês?
Deixem de me atormentar e fiquem longe de mim! Não precisa me ligar pra saber se eu to chegando, se eu venho, se eu fui. A quem mais preciso notificar os meus movimentos? Acreditem, a quem eu achar que devo, o faço sem pestanejar. Mas não movam uma palha que venha a invadir o meu espaço.
Agora se não estiver percebendo que não está agradando, tá bacana, fique a vontade. Porque a hora que eu agir, pode acreditar que é uma vez só.
E tenho dito.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Social.

É bem frustrante essa questão de sociedade. E, baseado nessa frustração, é que me tornei esse alguém tão sozinho. Não, não entenda como lamento!, apenas como constatação, e como parte integrante daquela crise existencialista.

Na minha cidade natal, uma cidade qualquer no interior de um estado qualquer, fui à um restaurante. Um lugar cujo qual sempre odiei devido às pessoas que o frequentam e ao status que é aplicado a quem ali aparece. Prefiro não entrar em detalhes, entretanto o foco é que, estourou meu potencial anti-social. É, ali mesmo, aquela habilidade de esquecer de todas as pessoas e de não olhar para ninguém, apenas para o prato. Coisa chata, confesso.

Não sou lá o melhor "parceiro", daqueles de encontrar, abraçar batendo forte nas costas, perguntar da irmã e etc., mas tenho direito de gostar de me comunicar com quem me apetece e, principalmente, da maneira que eu considerar correto.

Aí depois de toda a análise, vem a parte cabeça dura de todo o contexto: não estou, lá, tão interessado em ser "social". O que acontece com a individualidade, que por mais que me incomode em determinados aspectos - realçando: quando à dois - agora fica tão desejada?

Não sei se gosto desta minha característica. Na verdade, é a primeira vez que paro para pensar a respeito dela (exceto nos momentos de criação de identidade e talicoisa), e não me surpreendo ao rever conceitos que já passaram por aqui.

Passei a preferir a metrópole quando comecei a lidar com a frieza e com a solidão, assim, bem de perto. Foram tantas noites aguardando por nada, mas pensando em tudo, divagando e vivendo comigo próprio. Sâo, aliás, tantos anos que fico assim, que me faz diferença ir a um lugar onde me incomodo. O desprezo e a indiferença têm seu ar de benefício, quando te deixam se virar sozinho. Legal, isso: o mesmo que te fere, te cura. Fantástico!

Prefiro ser, então, este solitário passageiro. O lenhador em busca de toda selva, com a habilidade de se excluir da festa - metafóricamente falando - se transformando em uma câmera, só analisando comportamentos e vivendo em um constante laboratório. Prefiro dirigir por vários quarteirões apenas pensando naquela poça d'água em que pisei ao abrir a porta do carro, dividindo minhas preocupações entre o meu jantar e a luz do óleo, que acabara de acender. Lutando para ter condições de, um dia, traçar uma meta. Não há meta a se traçar quando não se consegue imaginar o que se quer ser, concretamente idealizado, daqui a cinco anos.

Por enquanto, estou pintando este quadro. Sozinho.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Crash!

Discuto
Saio bravo
Entro no carro
Dou partida
Manobro
Saio
Faço a rotatória
Ainda muito bravo
Sigo
Radar 40, desacelero
Desvio dos carros
Olho o marcador, 1/4
Sigo
Tento me acalmar
Consigo
Respiro
Acelero
Vejo a frente de um carro
Veio da travessa, cortou a avenida
Ouço a freiada
Crash!
Ouço cair o parachoque dele
Ouço cair meu paralamas
Ouço estourar o pneu
Perco o controle
Bato no canteiro
Paro
Desço
Brigo
Brigo
Brigo
Telefono
Espero o guincho
Espero o guincho
Espero o guincho
Rio com o motorista
Rio cansado
Deixo o carro na oficina
Vou para casa
Chego
Conto tudo
Como
Tomo banho.
Morro.

Ah, e me lembro de como somos evoluídos quando comparados aos primatas.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Reconheço.


Escapa dos meus dedos o que eu sou. Aliás, o que eu era.
Foge de mim aquela imagem boa, satisfeita e narcisista. Não acho defeito ser assim, desde não haja demasia. E vejo então, que não me encontro. Que hoje o que eu sou já não me deixa tão feliz e a paz que eu procurava – até a que eu, às vezes, tinha – está bem longe daqui.

Adaptei-me a algo que eu não sou. Não sei por que exatamente o fiz, mas foi isso que me tornei e agora estou pagando caro. Primeiro, porque reconheci que esta mudança aconteceu e, droga! Me bato na cara por isso. Segundo, porque não sei como sair daqui deste cubículo cheio de claridade, o que cega mais que a escuridão. A escuridão clareia, mostra, grita! Terceiro, e último, porque faço testes comigo mesmo e estes envolvem outras pessoas, é a parte que eu preferia evitar.

Quando percebi que certas coisas dependem de mim, é que me decepcionei. É assim que estou: decepcionado. Você, que costuma ouvir os meus lamentos, não venha gritar comigo, me chamar à atenção ou me surrar, pois eu já sei de tudo isso. Decepciono-me como quando falava sobre o veneno, sobre o homem na chuva, sobre o detetive, tantos outros. Tantas outras decepções. Tantos outros motivos para a mesma decepção.

Eu queria receber de volta, mea culpa. Abro minha agenda e, cético como todo capricorniano – já dizia L.F. Veríssimo – olho a “frase do dia”: O amor verdadeiro nunca acaba. Quanto mais se dá, mais se tem. Faltou completar, autor, dono da minha superstição momentânea, que não se sabe até quando.

Não achei que meu orgulho subiria em cima de todas as outras coisas. Meu orgulho que vem com minha habilidade de colocar as coisas em seus lugares, e com o cara blasé, de antes. Percebi que, não dando carinho – como fiz por todos os dias da vida – não fui cobrado por isso, e nem mesmo recebi de volta. Não é dando que se recebe, aqui.

Então administro apenas o dom de não ser eu mesmo. Parece fácil para um ator, não é? Bullshit. Vou levando, deixando deste jeito mesmo, camuflando toda a minha vontade de ser a melhor pessoa do mundo. Para os outros, e para mim.

Não sei como consertar, pois perdi a visão para as coisas que estão além. Aprendi (sic) a pensar superficialmente, a ignorar detalhes, a desprender das loucuras e deixar uma rotina destruir meus pensamentos. O trem de ferro precisa de muito mais força para seguir em frente. Café, com pão.

Amanhã ou Depois


Deixamos pra depois uma conversa amiga
Que fosse para o bem, que fosse uma saí­da
Deixamos pra depois a troca de carinho
Deixamos que a rotina fosse nosso caminho
Deixamos pra depois a busca de abrigo
Deixamos de nos ver fazendo algum sentido

Amanhã ou depois, tanto faz se depois
For nunca mais... nunca mais

Deixamos de sentir o que a gente sentia
Que trazia cor ao nosso dia-a-dia
Deixamos de dizer o que a gente dizia
Deixamos de levar em conta a alegria
Deixamos escapar por entre nossos dedos
A chance de manter unidas as nossas vidas

Amanhã ou depois, tanto faz se depois
For nunca mais... nunca mais



*Achei que não fosse precisar colocar a letra inteira, mas é o único jeito de expressar o que eu sinto. Hoje fiz um texto novo que vou publicar em breve, e que eu gostei, aliás. Mas por enquanto, o que eu tenho, é isso.

Força aí

"Amanhã, ou depois. Tanto faz se depois for nunca mais" (Nenhum de nós)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Declare guerra!

(Créditos da Imagem: Capital Urbana)


Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

Nem parece o mesmo
Tá ficando pirado
Onde você encosta dá curto
Você passa, o mundo desaba

E pra te danar
Nada mais dá certo
E pra piorar
Os falsos amigos chegam
E pra te arrasar
Quem te governa não presta

Declare guerra aos que fingem te amar
A vida anda ruim na aldeia
Chega de passar a mão na cabeça
De quem te sacaneia

Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

E pra se ajudar
Você faz promessas
E pra piorar
Até o papa te esquece
E pra te arrasar
Nem o inferno te aceita

domingo, 23 de agosto de 2009

Rosa dos ventos.


E do amor gritou-se o escândalo, do medo criou-se o trágico, no rosto pintou-se o pálido e não rolou uma lágrima, nem uma lástima pra socorrer. E na gente se deu o hábito, de caminhar pelas trevas, de murmurar entre as pregas, de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr. Mas, sob o sono dos séculos amanheceu o espetáculo. Como uma chuva de pétalas, como se o céu vendo as penas morresse de pena e chovesse o perdão.
E a prudência dos sábios nem ousou conter nos lábios o sorriso e a paixão.
Pois, transbordando de flores a calma dos lagos zangou-se, a rosa dos ventos danou-se, o leito dos rios fartou-se e inundou de água doce a amargura do mar.
Numa enchente amazônica, numa explosão atlântica, e a multidão vendo em pânico, e a multidão vendo atônita - ainda que tarde - o seu despertar.

*Não fui eu, foi o Chico. O Buarque.

Trem de ferro

(Tom Jobim e Manuel Bandeira)

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virgem Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão

Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô..
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pato
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficia
Ôo...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Ôo...
Vou mimbora voou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Ôo...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...


*Um dos meus poemas preferidos, desde a infância. Quem diria que hoje, depois de tanto tempo, faria tanto sentido?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

É, ninguém.

Ninguém pode fazer você sentir-se inferior sem seu consentimento. (Eleanor Roosevelt)

domingo, 16 de agosto de 2009

Mendigo.

Não é vontade de escrever ficção, nem de sair rimando. Não tenho uma melodia parida em chuveiro, ou mesmo o violão aqui por perto. Embora soe, mesmo, estranho, não parece existir menor inspiração. Por mais longe que eu esteja, tenho apenas coca cola, caderno de notas, caneta, e dedos. Três, aqueles da escrita.

Tenho alguma certeza de que não sou mais o que eu era. Eu não sei até que ponto isso é bom ou ruim, mas não me reconhecer em qualquer espelho, até agora, serviu de conforto. Dá aquela vontade de assumir que se está crescendo, hã, besteira.

E aos poucos vou vendo o quanto incomodo. Por ser assim, por deixar que pessoas próximas se contaminem, por não entender algumas coisas. Por depender de certas outras, por ser tão fraco e necessitar mostrar força para se proteger de algo que não quer me atacar.

Percebo também o quanto tenho me desarmado. Eu nunca fui de entregar os pontos, de dar dicas, ou explicar o que está acontecendo. Explicava para as montanhas, para as cachoeiras ou para o volante. De onde, será, que apareceu essa necessidade de contar com alguém? Esse ato nojento de assumir meu egoísmo em vez de escondê-lo até mesmo de mim?

Nunca se explique. Uma vez ouvi isso, e levei bem a sério. Não deveria ter esquecido ou deixado passar, nunca. Explicar é perda de tempo quando o interlocutor não está nem aí para você, e quando mais, o mesmo vai usar suas informações a favor dele próprio. Quem são essas pessoas?

Talvez seja mesmo hora de botar a cabeça no lugar. Estou precisando de ajuda, e da mesma forma que sempre neguei isso a todos os que me ofereceram ou me recomendaram, agora bato nas suas portas e digo sem vergonha alguma: Por favor, me ajude.

Porque talvez esta seja minha última tentativa. Exatamente por ser a primeira vez que procuro alguém para me ajudar que não seja eu mesmo. Também porque eu, de alguma forma, ja sei que isto não vai funcionar (como sempre acreditei não surtir efeito), porém preciso tentar nem que seja uma vez.

E é por não acreditar na boa intenção das pessoas, que eu começo agora: abrindo a lista telefônica.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Paradoxo

Como pode estar casado,
sendo tão bom amante
E quem verá no matemático,
bela alma cantante?

Quem convidou o músico
que nao sabe desenhar
Quem, ao vê-lo de perto
não se encantou pelo olhar?

Foge do meio do povo
Este ser tão simpático
Não frequenta as tais peladas
Ousa dizer que é másculo

E luta em persuasão
Mesmo em qualquer mentira
Cria o lúdico então
Despresível mania

Mas com paciência, espera
Enterra sua ansiedade
Está nervoso, não nega
Não revela outra metade

Não caça grandes ambições
Nem sabe o que é, direito
E sua perfeição, narcisa
Ouve gritar do espelho

Você não vale nada.

domingo, 9 de agosto de 2009

O grande encontro


Dizem que uma grande união, quando se entitulada, jamais pode ser desfeita. Não importa quaisquer contra-tempos que venham a acontecer: será sempre iluminada, sempre bela, sempre forte essa junção.
Assim era a amizade de Gabriel e Luana. Se conheciam desde, já, bem pequenos. No primário, para poder ser mais exato. E eram assim, então, carinhosos um com o outro, que nem sequer sabiam a importância que esse amor de amigo carregava. Era único.
Gabriel, aquele menino de sorriso bonito e cabelo lisinho, foi crescendo. E Luana, a magrinha e clara morena, correu seguindo, e entretanto, amadurecendo também. Meninos são sempre mais bobões. Pelo menos ela pensava assim.
Enfim, com um tapa do tempo nas folhas do calendário na parede, os dois já eram adolescentes. Foram separados de sala há alguns anos, mas nada que os fizesse sentir piores. Suas mães, inclusive adoravam:

- Seu filho ainda vai se casar com a minha pequena!
- É, eu acho que esse amor todo, só pode dar casamento!

E era assim. Cresciam e se gostavam, sempre mais, sempre bem.
Fora as crises que na adolescência apareceram. Com a nova voz de Gabriel e as mudanças no corpo de Luana, veio também o ciúme. Ele era popular, tinha as menininhas bobas ao seu redor e isso deixava a impaciência de Luana a flor da pele. Bem como Gabriel ficava tentando despistar os olhares famintos de puberdade daqueles idiotas que ficavam ali, em cima dela, a ponto de segui-la por quarteirões apenas na esperança de um beijo. Pobre esperança.
Assim que terminaram o colégio, os dois tiveram que enfim se separar. E o mais estranho é que não sentiram, lá, tanta dor. Eram ambos confiantes, e mesmo com namorados diferentes, sabiam do carinho e da confiança que possuíam um para com o outro. Isso jamais morreria. Jamais.

Luana e Gabriel perderam o contato. Tudo porque ele deixou a cidade e foi atrás do seu sonho de ser engenheiro. E como gostou da vida de estudante, nunca mais apareceu. Já Luana, permaneceu ali naquela vida, na mesma cidade, com diferentes companhias. Deixou a vida seguir sem muito rumo ou direção, como costumava dizer, deixou "as coisas acontecerem".

Até que, depois de muito tempo, Gabriel apareceu. De passagem, sim, mas estava de volta naquela cidade, no mesmo bairro, em que costumava viver. Não gostava da idéia da casa de seus pais, mas estava ali como hóspede, e resolveu aproveitar.
Com o convite de vários amigos, não deixou de recusar um deles, para uma festa na chácara Alguma Coisa. Não se lembrava o nome, mas não era lá tão importante assim. Vamos pra festa!
Chegando lá, era aquilo que já estava acostumado, mas em doses menores. Muita música, muita diversão, com direito a pessoas bebendo, se drogando, e, assim, se divertindo.
Gabriel saiu do meio do pessoal para buscar uma cerveja. Embora tímido, pois não conhecia ninguém, parecia animado, feliz. Estava em casa, afinal.

Até que, no meio de toda a bagunça, ele viu. Sua cabeça ficou um pouco desnorteada, confusa, que até parou para olhar de verdade. Era uma turma estranha, ali a fumar e a rir feito idiotas - coisa que ele não apreciava muito era qualquer tipo de droga - e a quebrar garrafas e fazer bagunça.
Mas o que mais o intrigou não foi exatamente as atitudes, mas não conseguia acreditar que ela estava ali no meio. Não pôde, sequer, confundir: era Luana, em feição, gestos e jeito.
Ficou olhando fixamente, paralizado na mesma posição, até que ela percebesse. Não sabia, mesmo, se ela tinha lucidez para isso, mas sentiu um nojo que tomou seu instinto. Perdeu a vontade de pegar a cerveja, de estar ali, de ter deixado a cidade, ou até de ter voltado para ela.
Luana, no meio de todo aquele movimento, percebeu aqueles olhos fixos e não quis acreditar. Esforçou-se para levantar ali do meio, e um tanto quanto confusa, saiu da fumaça para ir até a direção dele, que já tinha os olhos razos d'água. Depois de tantos anos, se encontraram, então.

Aí é que Luana se desmontou. Aquela jovem entorpecida, fazendo gestos e conversando qualquer assunto idiota, rindo de qualquer coisa e, assim, se fazendo de superior: desabou. Desabou ao olhar Gabriel, seu velho amigo, ali parado. E, ao contrário dela, estava lúcido, bem vestido e, melhor, bem comportado. Não precisava de nada daquela sujeira para se sentir bem, o que a levou pra uma tristeza súbita.

- Oi? - disse Gabriel com toda aquela ironia que jamais perdeu ao longo do tempo.
- Me perdoe por te fazer sentir isso...
- E..e..eu...não posso acreditar. Luana, não posso. Não vou admitir ver a minha Luana deste jeito, nem me perdoar por ter te deixado assim. Linda, o que foi que você se tornou?
- Eu não sei mais quem eu sou, meu amor. Não sei mais o que é se divertir se não com meus peguinhas, com minhas festas cheias dessas coisas. Estou envergonhada de você me ver neste estado, pois eu esperava não te encontrar nunca mais. Esperava te ver um dia, depois de muito tempo, quando tudo já tivesse se acertado.
- Vem comigo, vamos embora?

Luana pensou. Mas não seria essa ida embora da festa de loucuras que ia tirá-la do meio de tudo isso, então resolveu negar o convite, e ficar por ali, mesmo.
Já Gabriel, fez exatamente o que deveria ter feito: foi embora. Foi-se embora e a cada marcha sentia mais dor de tê-la perdido para este mundo sujo e cheio de contras.
Ela, ali naquele barulho todo, só sentia nos ombros o peso de ter deixado para trás aqueles sorrisos espontâneos (já que agora eram produzidos por qualquer substância), o amor de sua mãe - que agora a tratava como um bixo, um ser estranho - e também o carinho de pessoas como Gabriel, que realmente acreditavam nela.

Tudo na vida pode ser consertado. Tudo pode mudar. Porém, não assim. Não agora. Não tão já.