sexta-feira, 17 de abril de 2009

Em grande estilo

Desligo o carro, travo tudo, subo as escadas e apago as luzes de fora.
É hora do show.
Abro a porta e encontro o silêncio. Luzes apagadas, bom aroma e música em volume baixo (vem do quarto, no fundo).

Mas estou sozinho! Estaria eu sonhando?

Engravatado entro lentamente. Não me sinto mais só, e digo mais, sei que não estou só, e isso não é (ou pelo menos não parece) bom.
Agora afrouxei o nó da gravata vinho. Abro a geladeira e tenho poucas opções – não sou do tipo que vive às mil maravilhas – e então surge um perfume no ar. Um perfume, que faz tudo mudar.

- Feche isto, tem algo melhor aqui.
- Quem é você?

Desapareceu. Sabia que devia ter acendido as luzes, oh céus! Sinto um pouco de medo, talvez, mas uma excitação natural. Gosto do inusitado, do não preparado, do que é novo e é sempre bom. Mas onde teria conseguido minhas chaves? Como se pôs para dentro do apartamento? Melhor deixar pra lá.

Ando apreensivo pelo corredor. Foi só uma dose de uísque no snooker bar, estou bem, não estou vendo ou ouvindo coisas. E o perfume, de novo. Era a sensação de prazer e curiosidade, de excitação e descobrimento e de tanta coisa a mais ali naquele cheiro. Um perfume que eu nunca havia sentido, e todo homem sabe como isso é bom. Ou deveria saber.

A porta está toda aberta, e meu quarto é em “L”. No hall de entrada do quarto a música parece ficar mais alta. “The three O’clock blues”, conheço bem, e sei que tem bom gosto. Vou entrando e tirando a gravata, quando de novo:

- Deixa essa gravata, menino.

Menino? Não sou mais um menino há muito tempo. Não tenho mais cabeça, corpo e nem rosto de um menino há certo tempo, que nem me lembro mais.

- Quem está aí?
- Fique onde está! – ouvi em seguida.

Não sabia por que, mas sabia que deveria ficar. Então fiquei. E foi assim que uma silhueta feminina se aproximou de mim.

A única luz era a de fora, da noite clara de lua que cuidava da cidade grande. E esta luz iluminava o meu quarto trazendo aquela sombra de um vestido longo – dos meus preferidos, sempre – que delicadamente cabia no corpo da misteriosa mulher. Ou seria uma menina, ou uma senhora? Não, não era velha. Eram cabelos longos e logo se via que o vestido a moldava, de forma a definir suas curvas e realçar sensualidade. Mas por que teria me chamado de menino?

E se aproximou. E aquele perfume aos poucos desorientava meu senso do que era certo. O blues no volume exato e cabelos frente aos meus olhos. Ela dançou. E dançava sensualmente, me fazendo um objeto coadjuvante de seus movimentos suaves e precisos. Nos compassos aveludados do blues ela me envolvia. Ao me dar conta, já estava sem gravata, e com os botões da camisa sendo abertos com os dentes da magnífica e sedutora, da misteriosa amante. Ela sabia o que fazia, e isso me inspirava. Sim, desejo, eu já a queria. Mesmo sem ter olhado em teus olhos! (como nós homens somos obedientes ao libidinoso!)

Seguiu adiante, como deveria ou não ter feito, e encostou sua lombar em meu abdome. E desceu lentamente, me causando tremor nas pernas, e arrepio em cada um dos poros. Virou-se para mim e pela primeira vez vi o reflexo de seus olhos pela luz. Castanhos, bonitos e traçados olhos. Olhos, cabelos, e perfume de mulher: que coquetel perigoso.
Segurou-me o pescoço com certa força, e mesmo sem perder a sensualidade, disse com firmeza por cima do blues:

- Vai pagar o que deve ao Moraes?
- Hein? – retruquei com ar estranho.

A voz dela era firme. Era firme e era sensual, que coisa louca! Era uma voz feminina, de mulher perigosa – como defini em pensamento – que tinha algo a dizer.

- Vai ou não vai pagar o Moraes?
- E..e-eu...eu não..n-não sei do que você fala!

Me laçou o pescoço com o braço, dentro de toda aquela delicadeza e sensualidade, e me atirou sobre a cama com o mesmo ar perigoso. E num movimento rápido sem me deixar opção agachou-se e voltou-se para minha direção com uma arma!

Uma arma!

Antes mesmo de a excitação acabar, ameacei levantar. Foi quando a amante, sem rodeios, atirou! Uma, duas, três vezes em meu peito.
O impacto dos tiros me atirou de volta contra a cama.

O blues continuou. Estranhamente a vi abaixando a arma, e sentando sobre mim.

E ela foi embora. E eu, também.

Um comentário:

Felipe disse...

Fantástico! Que cena, cara, adorei!