quinta-feira, 9 de abril de 2009

O salto

- Relaxa, meu brother, no ar ninguém me pega.
- Vai devagar brow, você sabe que eu tenho medo quando está à noite.
E ele foi.

Depois daquela noite limpa, cheia de estrelas (e quando eu digo cheia, é cheia mesmo, porque o céu parecia uma sopa negra de estrelinhas brilhantes) e tomada por aquela brisa típica da cidade, meus dias nunca mais foram os mesmos. Nem os de Daniel.

Um jovem cheio daquele brilho no olhar. Aquele que está em todos os jovens, sabe como é? Que a gente vai perdendo ao longo dos anos? Então. Daniel era assim, jovem, bonito (também como todo jovem é) e alegre. Ta bem, não era lá tão alegre assim. Por isso resolveu que estava precisando de novas emoções pra sua vida.

Eu estava lá. Na primeira vez que ele olhou para os vídeos, para as pessoas experientes no assunto, e para todos os diferentes jeitos de se fazer. Olhou para mim e disse: Cara, eu vou saltar também!

E foi mesmo. Aliás, ele era muito assim, quando era pra ir, ele ia!

Daniel, Júlio, e eu. Medroso que sou, fiquei naquela: “pode deixar que eu filmo tudo”. E foram os dois. E foi lindo. E inesquecível!
Depois de todo o ritual, e curso, e simulação, e o diabo, chegou a hora de saltar. Foram lá meus dois irmãos para o avião, e desceram como dois pássaros livres para voar. Mentira, claro. Caíram como duas abóboras e gritaram mais que o passarinho que eu imaginei. Mas mesmo assim foi fantástico.

Júlio, no pós-abóborismo (nome que eu o atormentei por anos, inclusive) chegou já exaltado:
- Eu nunca mais faço isso na minha vida!
- Não gostou, Ju? – entreguei-me à emoção que ele sentia.
- Meu, o que é isso? Se o chão é para as cobras, e o céu é para os pássaros, a gente é que não é daqui!

Gargalhadas gerais, e vamos embora pra casa. Daniel não abriu a boca, não disse uma palavra sequer após o salto. Parecia imóvel, ouso dizer, pois olhava fixamente pro caminho que eu – dirigindo – tomava, e nem movia o pescoço para prestar atenção no que nós dois conversávamos. Ele se apaixonou. E foi como dessas paixões avassaladoras que pegam um homem de jeito, derrubam, passam o rolo-compressor e depois mastigam e engolem. Não, eu não exagerei, paixão é assim. E meu irmão estava assim.

O desprezo de Júlio para com os saltos serviu inclusive de combustível para Daniel. Então começou a fazer mais cursos, comprar equipamentos, e se especializar. Foram anos, posso dizer, de muita dedicação e muita paixão. E olha que este tipo de combinação é difícil de acontecer em um relacionamento, mas o dele com o pára-quedas era assim: Puro, sincero, de respeito. Cumplicidade e companheirismo eram características fortíssimas entre os dois. Ouso citar: Amor.

Agora então era um profissional. Saltou em tantos lugares no país, e também fora do país: Europa, Ásia (ah, como gostou da Ásia), e até Oceania. Podia também saltar no deserto, saltar em pé, deitado, filmar, ensinar, e mais outras tantas habilitações que eu até perdia a conta. Dentre essas, a decisiva e perigosa, habilitação para saltar a noite.

Fomos então para o avião. Ele queria muito a minha companhia, e estava tão triste – não só por ser uma pessoa triste, que pensava demais, mas também – porque naquela semana havia perdido seu amor. Perdido seu amor para a vida, para o mundo, para qualquer outro amor. Vamos para o avião.

Tudo certo com os equipamentos, com o vôo, e com o local. Porém Daniel viu como eu estava preocupado, como não gostava de sair de avião à noite (também não usava frequentemente dessa prática) e o principal: como eu tinha medo. Enquanto prendia algumas travas, me disse:

- Relaxa, meu brother, no ar ninguém me pega.
- Vai devagar brow, você sabe que eu tenho medo quando está à noite. – completei.
E ele foi.

Da noite cheia de estrelas só sobrou a angústia e o desespero de ver o equipamento falhar e, com impotência e dor, deixar meu irmão voar. Um vôo feio, direto ao chão, sem volta.

Já não se sabe se foi o amor que o fez ir embora das nossas vidas. Se foi a falha dos equipamentos, se foi na hora da montagem ou do salto. Não se sabe, e nunca ninguém saberá. O que se sabe é que o amor antigo está por aí, e que o meu irmão, embora já tenha ido, ficou por aqui.

Um comentário:

Felipe disse...

Ótimo texto, muito intenso. Impossível ler e não se lembrar daquela música, Dezesseis, do Legião. O quanto isso nos ensina, não é nada que já não sabíamos e ao mesmo tempo é aquilo que vale a pena ser lembrado, sempre.
Parabéns pelo blog cara, vou acompanhar! abraços