domingo, 31 de maio de 2009

Sobre envenenar-se.

(Créditos da Imagem: Fragmentos de mim mesma)

Envenenar-se não é uma opção, é um fato.

E esta habilidade, eu desconheço em muitas outras pessoas, apenas a vejo mesmo em mim, e em alguns outros que se identificam comigo. Porém nos outros não sinto, então, não cabe ao degas aqui querer medir a intensidade. Aqui dentro já me basta.

E falo habilidade não como sendo algo que me gabe por conseguir, mas sim porque não fácil, mesmo. Existem sim habilidades ruins, por exemplo: um cara “bom de briga” é bom no que faz, porém uma briga nunca é uma boa coisa. Claro, em minha opinião.

E no foco da conversa, não é preciso muito para estar envenenado por si próprio. Na realidade é até bem simples, basta ver o que é o veneno. Em muitas vezes podem ser: pessoas, lugares, fatos, memórias, marcas, imagens, músicas, entre outros.

E me enveneno apenas por ter o veneno em mim. O veneno vem com o amor. Tudo que faz bem traz um pouco do que faz mal, e a capacidade de fazer o mal vencer é, muitas vezes, impressionante. Há quem ainda duvide da história do amor e da dor. Eu não.

E peco, pois, não por exigir mudanças, afinal ninguém é obrigado a nada. Peco por lembrar, por usar as informações (que eu mesmo guardei) contra mim mesmo, e ainda pior: cruzo informações reais e crio situações irreais. Com isso, passo a agir em cima dessas novas situações e, sendo elas irreais, não existem no mundo exterior – apenas aqui dentro da selva – e quem está a volta fica mesmo sem entender nada.

A sensação é poderosa. Me enveneno, e então minha velocidade de pensar se potencializa e é neste momento que tudo começa. Aparecem de onde não deveriam sair dados, fatos e informações com as quais começo a fazer cruzamentos e, com isso, ficar mais envenenado. Então surgem as frases - aquelas que foram ditas e que me fizeram mal – que ajudam a piorar a situação. Ah, como são fortes as frases. Por fim (como se já não fosse o suficiente), e de tanto mentalizar tudo isso, aparecem as pessoas. Se eu estiver na rua elas aparecem materialmente, e se eu estiver no meu quarto elas aparecem mentalmente. A diferença, contudo, é mínima.

Com esse coquetel todo, e com cada item fazendo bem a sua parte, eu tomo. Tomo tudo e já estou mal. E as reações, essas sim são complicadas. E é por estas reações que eu temo tanto me envenenar – haja vista que isso não está sob meu controle – perto das outras pessoas. Prefiro sozinho, em qualquer lugar. Eu, Deus, e um maço de cigarros.

Tenho tentado me educar a não pensar. É, isso não é nada fácil. Há quem tente isso para o amor ou para a paixão, e desse jeito imagino que seja mais difícil ainda, porque se o “pensar” já é difícil de controlar, nem quero tentar o “sentir”. Entretanto tenho me educado a relevar. Relevar é a palavra, o ato desejado. É ouvir, ver, lembrar, ir e – em seguida, quase que como em conseqüência – relevar.

Sei que tenho machucado algumas pessoas com essas atitudes. Não, isso não é um pedido de desculpas, porque estes são feitos olhos nos olhos. É apenas a esperança de um dia consertar o que tenho visto como defeito, e deixar de cometer os mesmos erros. É a esperança de que a não-imparcialidade dos meus julgamentos possa ser amenizada e, com isso, possa sorrir mais no lugar de sentir dores.

É a esperança de ser mais forte que o veneno e de com isso ser melhor.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O começo do fim.

(Créditos da Imagem: Diário de Solteiro)

E o fim se anuncia. O fim de mais um ciclo, de mais uma etapa que começou de forma tão inesperada - com uma viagem por acaso - e se seguiu tão arduamente. Uma fase que acelerou acontecimentos e precocemente gerou mudanças bruscas em mim, e que resultou enfim em um reconhecimento maduro frente ao espelho: você não é mais o mesmo.
É o início da etapa final, o começo do fim.
Bem que me avisaram pra chegar com calma aqui, pois iria passar tão rápido que não daria pra ficar muito tempo. Bem que me disseram para não esperar e viver tudo o que eu pudesse, e que era pra eu guardar bem os rostos, os nomes, os gostos, as cores e tudo mais o que me coubesse lembrar, pois só do que estivesse guardado é que eu me aproveitaria.
Não sei bem se faço questão de levar tudo isso embora. Levo, eu sei, a bagagem deste tempo em mim. Entretanto, o que eu levo não é meu, e sim dos meus amigos, parentes, filhos e netos que hão de ouvir e de mentalmente construir o que eu tiver para contar: do bom e do ruim.
Peço a Deus todos os dias para que eu vá livre. Temia algumas pendências, porém temo tanto a Deus, que essas não mais existem. Eu vou em paz, em liberdade e suficiência. Três acessórios que eu tive mesmo que vir até aqui buscar, e que valeu a pena a jornada.
Assim, não superando a vontade de ir atrás de um novo sonho, de um recomeço, de um bom plantio, deixo a forte repugnância daquilo que me fez um cara difícil. Digo isso, assim, sem medo: bato as botas ao sair, não com tom de quem cospe no prato que comeu - não! - mas em respeito ao que me tornei, não quero nem levar a poeira que carregue os males desta terra em mim.
Carrego nas malas muito além da bagagem. Trago comigo mensagens, mais visuais do que qualquer vocabulário - pois também não exijo deles tal habilidade - para que eu possa passar a quem for de interesse. E deixo na marginal a fome vencida a sono, a insonia a andar com a bic, os favores que eu não devia e as cervejas que eu não cobrei. Deixo tudo aqui, para que se esvaeça e tome outros rumos. Deixo para as novas cabeças que aqui se acomodam um pouco do desejo de que sejam fortes como aprendi a ser. Quase sempre.
E os que farão falta, receberão cartas. Aos outros não me esquecerei, pois tudo é parte de mim. Mas não tornarei a lembrar para que não me envenene do que eu mesmo criei. Porque com estes aqui aprendi tudo, de bom e do ruim.
E o fim, então, se anuncia. Tímido, porém ágil. Sucinto, e discreto. O começo, do fim.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A teus cabelos

E sim, meu bem, eu te amo
Mas não tanto porque me apetece
Amo-te mais, por teus olhos
E porque tens cabelos
Curtos e, ainda assim, lindos.
Amo-te, meu bem, sem culpa
E ja tive tanta culpa disso
De ter que te amar, e ter medo
E de guardar em segredo esse amor (oh meu Deus!).
E de desejar-te tanto,
Porque, além de tudo
Eu amo desejar-te tanto.
E amo também, ver-te dormindo
Sei que você não percebe,
Também eu sei que não queres
Mas aliso teus cabelos
Que são curtos e, ainda assim, lindos.
Quando você me belisca
Porque olho para outras moças
Meu amor, não ligue, não brigue
Pois te desejo tanto
Que te olho mais que pra elas
Que te olho tanto, e não canso
De tocar estes teus cabelos
Curtos e, ainda assim, lindos.
E ainda mais que os cabelos
Tem tua espontaneidade
E a velha habilidade
De te despir, inteira
Porque tens curvas belas,
E perigosos caminhos
Porque tens gosto doce
E te desejo tanto
Tanto que até me perco
Entre esses seu cabelos
Curtos e, ainda assim, lindos.

sábado, 23 de maio de 2009

Esquinas

(Créditos da Imagem: Alunos Ulusiada)

Só eu sei, as esquinas por que passei
Só eu sei, só eu sei
Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar
Sabe lá, sabe lá

E quem será, nos arredores do amor
Que vai saber reparar
Que o dia nasceu

Só eu sei
Os desertos que atravessei
Só eu sei, só eu sei
Sabe lá, o que é morrer de sede
Em frente ao mar
Sabe lá, sabe lá
E quem será na correnteza do amor
Que vai saber se guiar

A nave em breve ao vento vaga
De leve e traz toda a paz
Que um dia o desejo levou

So eu sei
As esquinas porque passei
Só eu sei, só eu sei.

*Além de expressar parte do que estou vivendo, essa música vai em homenagem ao meu querido Valter, que sabe da minha ligação com a música Esquinas.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Wake up.

(Créditos da Imagem: Jujubas e Marshmallows)

Tenho tido sonhos cada vez mais lúcidos.
Além de possuírem algumas características repetitivas, noite após noite, meus sonhos têm sido cada vez mais intrigantes e este fato me paralisa a cada respectiva manhã.
Sinto como se meu subconsciente estivesse tentando se comunicar comigo dessa forma, me mandando sinais e símbolos para que eu entenda, abstraia e assim consiga resolver o que - insconscientemente - está me incomodando. Entretanto, acredito eu, não estar obtendo êxito nessa interpretação.
São diferentes cenas, porém todas querendo dizer (penso, que) a mesma coisa. Por exemplo: sonhei que estava andando pelo trilho de um trem, mas que tinha que atravessar um determinado local que estava interrompido, quebrado e sem ponte, onde abaixo havia algo parecido com um penhasco. Na outra noite, sonhei que estava atravessando o oceano e, em uma terceira noite, que rodava e rodava pelo centro da metrópole, até chegar na costa, onde havia também o oceano. Atravessar, chegar até lá, superar o caminho, não importando quão longo ou perigoso possa parecer. Será?
O curioso também é a minha habilidade - de dentro do sonho - em tomar minhas decisões, raciocinar e definir diferentes destinos e caminhos. Com total lucidez e controle consigo ir para onde quiser, e as pessoas/lugares/características vão se transformando e se moldando, cada vez tentando trazer alguma mensagem - aposto. Dentro dessa habilidade incluo a de acordar, a hora que bem entender, o que me deixa frustrado pois uma vez acordado, perco o foco e o suposto sentido que poderia encontrar ali dentro.
Me intriga a quantidade de atributos que meus sonhos possuem. Se eu vejo um objeto, ele tem cor, forma, tamanho, peso, cheiro, entre outras qualidades. Porém tudo bem definido. Algo parecido com um capítulo de um livro, um episódio de série ou qualquer coisa que possua começo, meio e fim, onde tudo é bem descrito e não tão bem organizado.
Isso tudo, sem citar a não objetividade dos fatos. Coisas sem explicação acontecem, como carros batendo, uma pessoa passando correndo ou um telefone tocando sem que eu consiga enxergar quem é no visor. E é nestes eventos abstratos que tento me concentrar pela manhã, para que não se percam em meus pensamentos, e assim eu possa interpretá-los em diferentes formas durante o dia. Tem sido difícil.
No campo real, muita coisa diferente tem acontecido. O fim de determinados ciclos se anuncia, e consequentemente o início de outros tão importantes quanto. O esclarecimento de algumas informações e, com isso, algumas preocupações. Alguns sentimentos meus, naturais, vêm sendo alterados por fatores externos e isso sim tem me preocupado muito.
Como me disseram outro dia, prepare-se, pois a verdade que você ainda não viu, você verá. É por essa verdade que estou aguardando, para que seja esclarecido cada item em questão ou para que, mesmo que sem alguma objetividade, deixe de me incomodar. Para que eu, enfim, acorde.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Quem sabe.

Tudo poderia fluir, não fosse a maldade, o egoísmo e o medo outrora plantado em mim. Não sei de quem é a culpa, queria ao menos saber, ou até queria culpar, apenas para tirar de mim essa carga.
Fui me decepcionando. Entrando no meio sujo, conhecendo gente com atitudes sujas. Na hora era bom, é claro que é bom, ou não haveria. Mas chegou ao fim, me olhei no espelho e peguei só o que interessava: Prazer, este sou eu. - Me apresentei.
Mas foi que restaram vestígios. Ficou em mim a não-ignorância dos fatos, o conhecimento do mau, a desconfiança do bom, a agressividade à sujeira - onde quer que ela esteja -, a repelência ao sorriso falso (também ao aperto de mão).
Então vem aquela sensação de amargo que vai da língua à garganta. É o veneno, que ficou. Que ficou e que eu costumo usar na hora da loucura, contra mim mesmo. Costumo me envenenar com a própria poção e ver o quão forte sou para aguentar o resultado. E por mais surpreendente, para mim, ainda tenho estômago.
A parte ruim mesmo é quando eu ataco. Talvez para me defender, ou talvez em um desejo de que as coisas não fossem como são, eu ataco e pego pesado. E acabo por ferir e depois de tudo me reduzo a lixo. Claro, nem preciso dizer que não durmo. A noite toda.
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Eu queria abraçá-la, mas não sei da reciprocidade do desejo. Sei, e não sei. Não sei.
Eu sinto vontade de um monte de coisas, e começo também a sentir pressa.
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A minha vontade real é tentar sair do meio. Ficar longe dessa besteira, dessas pessoas e atitudes e argh, desse lixo. Mas as vezes parece impossível.
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Eu quero consertar as coisas mas não sei por onde começar. Aí eu fico assim, um tanto calado, sem jeito. Sinto vergonha, demais.
Quem sabe eu consiga.
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Quem sabe.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Brainstorm

.Olhar pra frente sempre foi a intenção.
.Chegou a hora de fazê-lo.
.Desvincular-se das conexões negativas.
.Desvincular mesmo.
.Estacionar por questão de condição.
.Abrir um leque de possibilidades.
.Abrir 3, 4 ou 5 leques de possibilidades dentro daquelas possibilidades.
.Escolher uma.
.Ou umas 20, dependendo da versatilidade.
.A versatilidade anda junto com a disposição.
.Que anda junto com a motivação.
.Motivação não existe.
.Disposição vai atrás de satistação.
.E de dinheiro.
.Quanto mais, melhor.
.Mais da mistura, dinheiro e satisfação.
.Sem hipocrisia, dinheiro traz felicidade sim.
.E cura tudo.
.Menos doença.
.Até o telejornal insiste em me contar.
.E o jornal, e o portal.
.E a carteira.
.E o mau-humor.
.O mau-humor traz o ódio e a indiferença.
.Esses dois não precisam estar juntos para serem poderosíssimos.
.Um a um.
.Eu vou embora e não me importa tanto para onde.
.Nem o que vai ter lá.
.O que importa é ir.
.Deixar isso tudo pra trás.
.O que não significa fugir.
.Fugir é impossível.
.Tá tudo aqui, na cabeça.
.Poderia ser diferente.
.Mas tanto faz.
.Quem se importa com as decisões que eu tomo?
.As pessoas querem se mostrar fortes.
.Mas não valem nada.
.Nem um nada.
.Mas se mostram mesmo assim.
.Eu prefiro chorar.
.Eu choro na frente de todo mundo.
.Mas não é porque sou coitado.
.Eu choro porque eu sinto vontade.
.Não me controlo, para que alguém pense algo.
.Não pensam mesmo (no fundo).
.Eu continuo tentando.
.O tempo vai acabar.
.Quem fica e quem vai?
.Estou indo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Carta de Deus

Machado,

Sei que parece estranho, mas sou eu mesmo. Quero te esclarecer medos e angústias, e toda esta loucura que tanto questionas.
Já sei que você acredita em mim. Já entendi e acredito quando me dizes, toda noite. Acredite, isso é bom tanto para você quanto para mim, e para nossa relação. E que bom que acreditas também no meu poder e em todas as possibilidades que dei para que sua vida possa ser do jeito que você escolher. O livre arbítrio é seu.
De tal premissa, digo mais: tenha calma. E tire essa calma de onde sempre tiras, ou seja, de dentro de si mesmo. Calma essa que te dei herdada do jeito de sua mãe. Pega esta calma e respira, pensa, mas não se esqueça de mim.
Você sabe que errou. Errou feio e eu acredito no seu arrependimento, acredito quando pedes perdão. Acredito na tua culpa e que não faria se voltasse. Eu sei que não faria, tens me mostrado isto. Mas fez, certo?
E é assim que as coisas funcionam. Não só para mim não, para a vida mesmo. Você fez e vai pagar. Demorou demais até para vocês (todos) entenderem o princípio da ação e reação, mas já que já entenderam, têm de segui-lo. Mas dentro de você estou tentando te dizer (e também mostrar) que não vou ser mau contigo. Maldade tem limite e isso não é coisa minha, você sabe.
Você vai ficar bem e vai se livrar deste mal que tem te consumido. Não sei se te é novidade, mas o mal que te incomoda é reação, é seu, filho e criado. Infelizmente (ou não), não posso impedi-lo de agir. Só não vai ficar aí para sempre, porque você é bom. Você tem se esforçado - tenho visto - para não fazer mal para as pessoas, e o que você chama de "própria justiça", mesmo sendo diferente da minha - acredite - é muito válido. Faz parte daquele livre arbítrio, do qual lhe falei.
Não vou me tornar extenso, fui claro para o que devia. Machado, você é um ser pensante e não pediu para ser assim, mas não me culpe por isso, cara! Prefira sê-lo, porque te fiz assim e porque tem gente que te prefere assim. Pode apostar que sim.
Só não deixe nunca de se lembrar que, depois do seu acidente, a cada partida que dá em cada carro eu estou ali contigo. Quando sai eu fico contigo, mas fico também em tua casa, olhando para o que prezas. E que, o mais importante: o amor que tu sentes é puro e é teu. Eu te permiti sentir, e faça um bom uso dele, porque só assim estarás de bem, em paz.
Pare de me pedir paz, seja-a.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os semelhantes se repelem

- Adeus, não volte nunca mais.
- M-mas, Fernanda...
- Acabou! Há quem me dê o valor que nunca me deu.
- Eu...E-eu não posso te perder para outro!
- Vá!

E bateu a porta. Exatamente do jeito que eram as coisas para Fernanda: sem cerimônia, tudo muito prático e imediatista. Bateu a porta em sua cara.
Flávio era o que chamavam de “problemático”. Tinha uma vida diferente da dos outros homens de trinta e poucos, com quase nenhum dinheiro, com as roupas que estavam em sua mochila (pois não tinha moradia fixa) e um pouco de drogas pra se sentir melhor. Sem metas ou planos, sem objetivos. Vivo. Era assim que Flávio se sentia, vivo.
E desceu os andares conforme os sensores das escadas acendiam as luzes. Descia com certa dificuldade embora as luzes acesas, pois não estava bem. Não se sentia bem, e além de tudo, acabara de perder a namorada. Chegou até o térreo e saiu pela porta estreita do prédio em que Fernanda morava. Parou. Olhou ao seu redor e avistou todos os outros prédios do condomínio, com pessoas nas janelas a conversar e a gritar chamando seus filhos: “Vem pra dentro, Samueeel”. Aquela gritaria e movimentação toda não o deixou parado por mais de dois minutos, e saiu em direção ao seu carro.
- Eu sou vivo, eu sou vivo, eu sou vivo! – pensava e sussurrava para o painel do carro. Deu partida e seguiu.

Era próximo das nove da noite e Fernanda olhava no relógio, ansiosa. Finalmente conseguiu se livrar do homem-problema. Está livre, e agora para viver a própria vida – ou o que Fernanda chamava de vida – com novas pessoas, lugares e sensações. Alcançou o celular no braço do sofá, discou alguns números...
- Oi, Fer! – atende a voz do outro lado.
- Oi lindo, tudo bem? O que vamos fazer hoje?
- Estou pensando naquela chopperia, vai estar legal por lá, e já tenho as entradas. Topa?
- Está ótimo, te espero aqui! Beijos, tchau!
Fernanda era uma moça. Jovem e bela, daquelas que têm beleza sem maquilagem, durante o dia. Sempre levou a vida de forma independente, tinha casa e carro próprio, tudo com muito trabalho. Sua beleza perigosa sempre a ajudou em diversos aspectos. Era o tipo de mulher que sabia o quanto um decote estratégico era poderoso e uma saia social com um corte mínimo no joelho fazia a diferença. E por essa independência toda, sempre teve muitos homens. Experimentava, conhecia, sem medo. Mas sabia, dentro de si, o quanto não era feliz. Invejava em pensamento namoros saudáveis, casais sorridentes e felizes. Mas na roda de amigas não saía por baixo:
- Até parece que eu vou casar! Homem não presta, essa vida só engana e eu vou é aproveitar, isso sim!

Bela, porém triste. Aventureira, porém hipócrita. Essa era Fernanda.

Flávio arrumava as coisas em cima do palco. Tinha uma banda e animava as noites de quinta-feira na Zona Sul. Toda quinta, tinha pop anos 80 no palco principal. E ele estava lá terminando de montar tudo, afinando instrumentos com o pessoal e conversando. Não ria muito, sabia que não estava bem, e deixava transparente para os amigos da banda. Saíram, foram até a Van e, com os vidros fechados, “deram um pega” para relaxar. É, esse era o jeito, perante as adversidades de seus estilos de vida e a necessidade de estarem em sintonia em cima do palco.


E foi então que aconteceu.

Bar lotado, e aquele ambiente de descontração e sorrisos disparados de um lado para o outro. A banda tocava, mulheres dançavam e homens cruzavam os braços, cada um em seu canto, fitando as belíssimas presas.
Flávio sorria e se divertia lá em cima. Ah, como gostava do que fazia. Era um exímio guitarrista e tinha fãs ali dentro do bar. É bom ser o centro das atenções.

Até que ela entrou.

Abriu-se a porta central do bar e Fernanda entrou. Linda, com uma saia que fez Flávio explodir por dentro de tanto ciúme e com os cabelos loiros que o deixavam sempre, sempre alucinado. Entretanto, não estava sozinha. Atrás dela entra um homem, aparentemente mais velho que ela, e mais velho que Flávio. Aquele perfil coroa-garotão. De mãos dadas, sorriam, conversavam ao pé do ouvido, e até se beijavam.
Flávio sentiu um terror e instantaneamente as mãos suarem. Era sua bela, a linda Fernanda, o olhar perigoso e sensual, que cabia exatamente em seu abraço, nas mãos de outro homem. A sensação de perda o fez sentir pânico, mesmo no meio do show, no meio da música. E cada sorriso dela o desarmava mais e mais.

Não, a música não parou.

Flávio, mesmo se sentindo provocado e profundamente ofendido, agredido, continuava a tocar. Enquanto Fernanda fingia que não era a banda dele, Flávio tentava fingir que ela nem estava lá. Pobre enganação.

A vulgaridade com que Fernanda agia fez Flávio sentir nojo. A possibilidade de imaginá-la indo para a cama - após beber alguns copos de vodka - com o homem desconhecido, por pura descontração, deixava claro para ele que não precisava mesmo daquilo tudo.
Flávio não era mesmo um partido que valia a pena. Sabia que, quinta após quinta, não abandonaria a vida sem compromisso para tirar Fernanda do mundo. E ela, dentro de toda essa realidade, iria continuar experimentando. A vida é feita pelo universo de possibilidades que a envolve.

Agora, muito tempo depois, não se sabe o fim de nenhum dos dois. O que sabe mesmo é que, ambos, não vão nada bem.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O que foi aquele beijo?

(Créditos da imagem: Meus Pensamentos5)

As duas bocas se encontraram em sintonia. Eram lábios: meus, e dela. Bocas, em um excitante misto de firmeza e suavidade, numa entrega intensa. Neste instante – como nunca antes – senti a entrega.
Um beijo longo – em duração - que além do físico, transcendia todos os limites daquele espaço e tempo em que o verbo beijar se preocupava em estar. Mais que o simples tocar, encarregava-se também o beijo de fazer deslizarem línguas em movimentos precisos: tanto quanto o toque das mãos que se procuravam a todo instante. E era preciso muito para interrompê-lo, pois tudo o que não fosse beijo, dali não faria parte. E se não fizesse parte, não haveria de incomodar, pois nada há de atrapalhar um beijo.
Boca e boca, língua e boca, língua e língua, boca e língua, boca e boca. E um turbilhão de arrepios que trazia em si mãos trêmulas e respiração ofegante. Os lábios a se encontrar e a se procurar, numa constante e proposital seqüência de perda e encontro, a fim de não se separarem nunca mais.
E enquanto minhas mãos deslizavam pela sua nuca, até agarrarem os seus cabelos e provocarem um suspiro (destes que tem a sonoridade e a duração que o momento pede, nada além disto), as mãos dela se alternavam entre um suave toque no meu rosto e um arrepiante aperto em meu abdome como quem diz: “Este território é meu”.
Um beijo de cinco sentidos: tocar intenso, respiração alternando entre acelerada e profunda. E enquanto os olhos fechados podiam ver o fundo da alma do outro, ouvia-se o som do tocar, do gemer e do sussurrar em silêncio, degustando do paladar que lambuzava e fazia transbordar o prazer.
Beijo que é beijo é assim, sem controle, sem tempo, sem medo. E o que menos havia ali era medo, quando o que mais havia era a surpresa. Por tão inesperado, é que tinha tanta magia.
E com total autonomia as mãos sabiam exatamente para onde ir. E essa combinação não tão equilibrada de toques suaves com apertos sufocantes, trazia à tona um calor e uma instigante loucura. Agora minhas mãos a seguravam: uma delas trazia sua coxa à altura da minha cintura, e a outra puxava seus cabelos com a firmeza de que se doma uma fera. E as dela, seguravam meus cabelos curtos e faziam com que ela me desarmasse sem esforço.
E a cena de todo o suor, todo o aroma e todo o pecado daquela noite, não importa como terminou. Importa mesmo é como começou: com um beijo. Com os lábios: meus, e dela. Com as duas bocas, quando entraram em sintonia.
Uau! O que foi aquele beijo?

O prezar

Desde que decidiu, por si só
Relevar toda essa loucura
É que tento dizer, solo
Em poesia, em verso e candura
O quanto me alivia a alma
Ver em ti, qualquer doçura

Quero também dizer-te
Que quando vou, tão distante
Minutos tornam-se meses
Nesse sutil instante
Em que ligo pra saberes
Da saudade cortante

E assim torno-me escravo
Do sonho e do meu caderno
Do lápis pouco apontado
Em que lhe dedico versos
E do café apressado
(Que me faz sempre acordado)
Pra te manter por perto

Pra que o melhor venha sempre
E que é preciso algum sonho
E que o melhor pra gente
Fique dentro de um conto
Que conte, cante e não pense
Em um talvez desencontro

Desde que decidiu, por si só
Quero também dizer-te
E assim torno-me escravo
Pra que o melhor venha sempre

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Caderno, mundo meu.

(Créditos da Imagem: Meu Celular)


As coisas não têm feito tanto sentido.

Queria mesmo era dar um fim nisso tudo, nessa besteira de fazer o mal para os outros e poder me encontrar fora deste caderno. Queria apagar o que fiz de mal, para os outros, e para mim mesmo. Mas eu não uso borracha, então eu poderia muito bem passar o lápis por cima disso tudo, rabiscar, tornar sem efeito. Mas e se a ponta quebrar?

Deixa tudo o que passou nas páginas anteriores.

Eu tenho sede de virar a folha, e então em vez de escrever, eu posso fazer um belo desenho. Posso tocar uma música também, se eu quiser. Alguém aí quer ouvir meu novo samba? Tem alguém aí? Não?
Mas está tudo bem, porque eu sei que depende de mim para estar. E se eu estou sozinho agora é porque escolhi estar, mas isso pode mudar, se eu escolher assim. Eu sou dono disto tudo. Deste nada. Deste mundo! Seja ele o meu mundo, mundinho ou mundão. Mindinho, ou mundano. É meu, e eu desenho ele da maneira que eu quiser. Do tamanho que cabe na folha.

Eu não acendo um cigarro desde o dia em que parei de fazer as perguntas erradas. Desde quando parei de perguntar o que eu não queria ouvir, pois iria me machucar e me consumir, e rasgar. Eu não durmo quando isso acontece. Ta bem, eu me entrego: desde ontem.

Vez em quando esqueço quem eu sou. Então aparece uma página cheia de mundo, de pessoas, de música alta e de festas. Aparecem aquelas noites intermináveis, quando se está no lugar errado e não dá para ir embora. Não dá pra ejetar do avião, nem para se jogar no mar.
E depois dessa página vem três ou quatro de arrependimento. São linhas arrastadas de caneta azul, e de lágrimas pra brincar de aquarela. Dor pautada, vergonha escrita, pânico bem acentuado e pontuado. E medo porque corretivo é bom só para fazer sujeira. É verdade, não é?

E quando me deparo com a metade exata do caderno é que vejo: não posso arrancar nenhuma folha, senão cai uma do final. Os dias são meio assim: já perdi vários deles, assim como já tentei usar duas, três, dez folhas para um dia só! Queria escrever dormindo também, mas só às vezes. Só quando eu sonhasse que estou caindo, lá do alto. Porque eu tenho medo de altura se estiver em cima de um muro, mas não de andar de avião. Acho que tenho mais medo da dor do que da morte.

Se um dia eu falar dormindo, não me acorda não!
Anota tudo, que eu quero ler depois.
Ler é melhor que escrever, e é por isso, que tudo aqui é bem mais para você, do que para mim.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Avesso de um romance.

Chega com a delicadeza de uma tempestade
Ou a sutileza de um furacão.

Ah, temível olhar disperso
Pequenas mãos, tão pesadas
Ah, insensível salto alto
Perigosa saia, vestido colado.

Desde que seu doloroso passado
Encontrou essa água límpida
(Que há tempos, tão perdida, tão assim, sem direção)
Teu presente dá bons frutos
E o futuro, te dá surtos
Conseguiste meu perdão.

E meu desejo insaciável
Ah, que mal irreparável
Que fizeste no meu peito.

Quando exalas todo o avesso
Do meu romance perfeito
Quando contrarias tudo
Cegando-me os preconceitos.

Tu me curas, só eu sinto
Sem saber direto como
É bom que não saibas nunca
Pra que não mate o encanto
Desse mal irreparável
Que fizeste no meu peito.

Problemas

Perdão aos que passam por aqui e estão me cobrando novos textos! Tive alguns problemas pessoais sérios e agora muita coisa mudou na minha vida.
Para completar, estou com problemas com a internet também. Logo, está ficando um pouco difícil entrar (inclusive para postar!). Em contrapartida, estou com mais tempo livre do que o normal, o que significa que estou escrevendo mais.
Obrigado pela paciência!

domingo, 3 de maio de 2009

Sobre o grupo

Tive um crescimento complicado.
Não era do grupo. Nunca, nunca conseguia ser. Para uma criança ou para um adolescente este fato realmente não foi nada fácil.
Enfim cresci. Em um determinado momento da vida comecei a definir o que chamei de minha identidade, e esta definição começou a facilitar as coisas pois me ajudava a escolher os lugares em que deveria estar e, principalmente, os que não deveria estar. Válido também para as companhias, para as músicas, para os empregos e enfim, muita coisa.
Hoje me tornei um adulto. E não é nenhuma novidade eu contar aqui que continuo fora do grupo.

Sempre fora.

Não tiro fotos em grupo, não ando em grupos, não vou a churrascos ou festas "da turma" (seja do trabalho, dos ex-colegas do tempo da faculdade etc). E ainda tem mais: não sou da night (embora tenha comportamento notívago, existem diferenças), saí das drogas - que é uma coisa que te leva para o grupo - e das cervejadas, e vodkas e energéticos e bla bla bla.

Parafraseio Mário Quintana: "O mundo me tornou egoísta e mau".

O que vejo é o não-encaixe do meu jeito de levar a vida com o das outras pessoas ao meu redor. Vejo que os comportamentos são ridículos. O teatro em que as pessoas se permitem viver todos os dias as leva para caminhos que exigem mais e mais atuação, eliminando toda a transparência e deixando bem claro o que chamo de altruísmo da falsidade.
É um tal de não telefonar para parecer isso, não atender para parecer aquilo, esconder uma coisa para não parecer outra, dizer certa coisa só para parecer aquela e mais uma lista considerável que você - bem como todo mundo - conhece bem.

O que fizeram com a habilidade das pessoas de serem elas mesmas?

É por essas características, e por algumas outras também, que existem os grupos. Os grupos compartilham dessa ridicularidade que banaliza a amizade, o amor, a paixão, o companheirismo, o prazer, a bondade e a sinceridade.
O mundo me tornou egoísta e mau. E estou fora do grupo.

Não me pergunte se estou feliz assim, pois essa é a parte que menor importa.

Você há de me encontrar por aí. Seja sentado atrás da xícara de café, do copo de uísque ou da cerveja gelada. Há de me encontrar descendo a grande avenida, seja a pé ou não. E também há de me ver em alguma mesa, escrevendo em guardanapos, analisando as pessoas e tentando entender.
Mas que fique bem claro que este entender, não é para me aproximar.
É apenas para saber o melhor meio de como fugir.

sábado, 2 de maio de 2009

I'm going*

Oh my sweet, my loving babe
I have to go now
I'm really sorry, honey
Because I have to go now
I know you want to know the reason
But babe, I'm going.

I can see you are confused, you are dazed
You are not so fine
I am seeing you are crying everyday
But I'm sure, I don't lie
You can cry and cry, or die
But babe, I'm going.

Please don't try to find me, love
Don't say you're going to follow me
And never, never, never ask me, honey
"Where are you going to be?"
Cause' I'm burning up the road now
Oh babe
I'm going.

*Este é um blues que foi composto hoje de manhã, depois do encontro de ontem com um dos guitarristas de blues que eu mais admiro. Quem sabe vem coisa boa por aí, vamos aguardar!