quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os semelhantes se repelem

- Adeus, não volte nunca mais.
- M-mas, Fernanda...
- Acabou! Há quem me dê o valor que nunca me deu.
- Eu...E-eu não posso te perder para outro!
- Vá!

E bateu a porta. Exatamente do jeito que eram as coisas para Fernanda: sem cerimônia, tudo muito prático e imediatista. Bateu a porta em sua cara.
Flávio era o que chamavam de “problemático”. Tinha uma vida diferente da dos outros homens de trinta e poucos, com quase nenhum dinheiro, com as roupas que estavam em sua mochila (pois não tinha moradia fixa) e um pouco de drogas pra se sentir melhor. Sem metas ou planos, sem objetivos. Vivo. Era assim que Flávio se sentia, vivo.
E desceu os andares conforme os sensores das escadas acendiam as luzes. Descia com certa dificuldade embora as luzes acesas, pois não estava bem. Não se sentia bem, e além de tudo, acabara de perder a namorada. Chegou até o térreo e saiu pela porta estreita do prédio em que Fernanda morava. Parou. Olhou ao seu redor e avistou todos os outros prédios do condomínio, com pessoas nas janelas a conversar e a gritar chamando seus filhos: “Vem pra dentro, Samueeel”. Aquela gritaria e movimentação toda não o deixou parado por mais de dois minutos, e saiu em direção ao seu carro.
- Eu sou vivo, eu sou vivo, eu sou vivo! – pensava e sussurrava para o painel do carro. Deu partida e seguiu.

Era próximo das nove da noite e Fernanda olhava no relógio, ansiosa. Finalmente conseguiu se livrar do homem-problema. Está livre, e agora para viver a própria vida – ou o que Fernanda chamava de vida – com novas pessoas, lugares e sensações. Alcançou o celular no braço do sofá, discou alguns números...
- Oi, Fer! – atende a voz do outro lado.
- Oi lindo, tudo bem? O que vamos fazer hoje?
- Estou pensando naquela chopperia, vai estar legal por lá, e já tenho as entradas. Topa?
- Está ótimo, te espero aqui! Beijos, tchau!
Fernanda era uma moça. Jovem e bela, daquelas que têm beleza sem maquilagem, durante o dia. Sempre levou a vida de forma independente, tinha casa e carro próprio, tudo com muito trabalho. Sua beleza perigosa sempre a ajudou em diversos aspectos. Era o tipo de mulher que sabia o quanto um decote estratégico era poderoso e uma saia social com um corte mínimo no joelho fazia a diferença. E por essa independência toda, sempre teve muitos homens. Experimentava, conhecia, sem medo. Mas sabia, dentro de si, o quanto não era feliz. Invejava em pensamento namoros saudáveis, casais sorridentes e felizes. Mas na roda de amigas não saía por baixo:
- Até parece que eu vou casar! Homem não presta, essa vida só engana e eu vou é aproveitar, isso sim!

Bela, porém triste. Aventureira, porém hipócrita. Essa era Fernanda.

Flávio arrumava as coisas em cima do palco. Tinha uma banda e animava as noites de quinta-feira na Zona Sul. Toda quinta, tinha pop anos 80 no palco principal. E ele estava lá terminando de montar tudo, afinando instrumentos com o pessoal e conversando. Não ria muito, sabia que não estava bem, e deixava transparente para os amigos da banda. Saíram, foram até a Van e, com os vidros fechados, “deram um pega” para relaxar. É, esse era o jeito, perante as adversidades de seus estilos de vida e a necessidade de estarem em sintonia em cima do palco.


E foi então que aconteceu.

Bar lotado, e aquele ambiente de descontração e sorrisos disparados de um lado para o outro. A banda tocava, mulheres dançavam e homens cruzavam os braços, cada um em seu canto, fitando as belíssimas presas.
Flávio sorria e se divertia lá em cima. Ah, como gostava do que fazia. Era um exímio guitarrista e tinha fãs ali dentro do bar. É bom ser o centro das atenções.

Até que ela entrou.

Abriu-se a porta central do bar e Fernanda entrou. Linda, com uma saia que fez Flávio explodir por dentro de tanto ciúme e com os cabelos loiros que o deixavam sempre, sempre alucinado. Entretanto, não estava sozinha. Atrás dela entra um homem, aparentemente mais velho que ela, e mais velho que Flávio. Aquele perfil coroa-garotão. De mãos dadas, sorriam, conversavam ao pé do ouvido, e até se beijavam.
Flávio sentiu um terror e instantaneamente as mãos suarem. Era sua bela, a linda Fernanda, o olhar perigoso e sensual, que cabia exatamente em seu abraço, nas mãos de outro homem. A sensação de perda o fez sentir pânico, mesmo no meio do show, no meio da música. E cada sorriso dela o desarmava mais e mais.

Não, a música não parou.

Flávio, mesmo se sentindo provocado e profundamente ofendido, agredido, continuava a tocar. Enquanto Fernanda fingia que não era a banda dele, Flávio tentava fingir que ela nem estava lá. Pobre enganação.

A vulgaridade com que Fernanda agia fez Flávio sentir nojo. A possibilidade de imaginá-la indo para a cama - após beber alguns copos de vodka - com o homem desconhecido, por pura descontração, deixava claro para ele que não precisava mesmo daquilo tudo.
Flávio não era mesmo um partido que valia a pena. Sabia que, quinta após quinta, não abandonaria a vida sem compromisso para tirar Fernanda do mundo. E ela, dentro de toda essa realidade, iria continuar experimentando. A vida é feita pelo universo de possibilidades que a envolve.

Agora, muito tempo depois, não se sabe o fim de nenhum dos dois. O que sabe mesmo é que, ambos, não vão nada bem.

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