domingo, 31 de maio de 2009

Sobre envenenar-se.

(Créditos da Imagem: Fragmentos de mim mesma)

Envenenar-se não é uma opção, é um fato.

E esta habilidade, eu desconheço em muitas outras pessoas, apenas a vejo mesmo em mim, e em alguns outros que se identificam comigo. Porém nos outros não sinto, então, não cabe ao degas aqui querer medir a intensidade. Aqui dentro já me basta.

E falo habilidade não como sendo algo que me gabe por conseguir, mas sim porque não fácil, mesmo. Existem sim habilidades ruins, por exemplo: um cara “bom de briga” é bom no que faz, porém uma briga nunca é uma boa coisa. Claro, em minha opinião.

E no foco da conversa, não é preciso muito para estar envenenado por si próprio. Na realidade é até bem simples, basta ver o que é o veneno. Em muitas vezes podem ser: pessoas, lugares, fatos, memórias, marcas, imagens, músicas, entre outros.

E me enveneno apenas por ter o veneno em mim. O veneno vem com o amor. Tudo que faz bem traz um pouco do que faz mal, e a capacidade de fazer o mal vencer é, muitas vezes, impressionante. Há quem ainda duvide da história do amor e da dor. Eu não.

E peco, pois, não por exigir mudanças, afinal ninguém é obrigado a nada. Peco por lembrar, por usar as informações (que eu mesmo guardei) contra mim mesmo, e ainda pior: cruzo informações reais e crio situações irreais. Com isso, passo a agir em cima dessas novas situações e, sendo elas irreais, não existem no mundo exterior – apenas aqui dentro da selva – e quem está a volta fica mesmo sem entender nada.

A sensação é poderosa. Me enveneno, e então minha velocidade de pensar se potencializa e é neste momento que tudo começa. Aparecem de onde não deveriam sair dados, fatos e informações com as quais começo a fazer cruzamentos e, com isso, ficar mais envenenado. Então surgem as frases - aquelas que foram ditas e que me fizeram mal – que ajudam a piorar a situação. Ah, como são fortes as frases. Por fim (como se já não fosse o suficiente), e de tanto mentalizar tudo isso, aparecem as pessoas. Se eu estiver na rua elas aparecem materialmente, e se eu estiver no meu quarto elas aparecem mentalmente. A diferença, contudo, é mínima.

Com esse coquetel todo, e com cada item fazendo bem a sua parte, eu tomo. Tomo tudo e já estou mal. E as reações, essas sim são complicadas. E é por estas reações que eu temo tanto me envenenar – haja vista que isso não está sob meu controle – perto das outras pessoas. Prefiro sozinho, em qualquer lugar. Eu, Deus, e um maço de cigarros.

Tenho tentado me educar a não pensar. É, isso não é nada fácil. Há quem tente isso para o amor ou para a paixão, e desse jeito imagino que seja mais difícil ainda, porque se o “pensar” já é difícil de controlar, nem quero tentar o “sentir”. Entretanto tenho me educado a relevar. Relevar é a palavra, o ato desejado. É ouvir, ver, lembrar, ir e – em seguida, quase que como em conseqüência – relevar.

Sei que tenho machucado algumas pessoas com essas atitudes. Não, isso não é um pedido de desculpas, porque estes são feitos olhos nos olhos. É apenas a esperança de um dia consertar o que tenho visto como defeito, e deixar de cometer os mesmos erros. É a esperança de que a não-imparcialidade dos meus julgamentos possa ser amenizada e, com isso, possa sorrir mais no lugar de sentir dores.

É a esperança de ser mais forte que o veneno e de com isso ser melhor.

Um comentário:

Felipe disse...

Há muitos venenos que são necessários, ainda que letais, e isso é uma injustiça. Poderíamos não nos envenenar em certos pensamentos, mas se o fizéssemos não seríamos nós mesmos, como Sócrates também não o seria sem a última taça de cicuta.
Envenenar-se é, apesar de tudo, ético.