terça-feira, 30 de junho de 2009

Pensamento II

"A parte boa de voltar para essa vida sem tempo para nada, é que acabou também o tempo para aquelas verdades que eu insistia em enxergar."

domingo, 28 de junho de 2009

Incondicional

A chopperia estava cheia. Muita agitação, pessoas e mais pessoas curtiam uma música qualquer. Ela estava lá. Ele também.

Michele era uma morena encantadora. Sorriso simpático, extrovertido, que a tornava mais bonita. Não, ela não precisava de nada disso para ser uma linda mulher, mas o conjunto todo tornava a sua presença algo assim, surreal.

Ela dançava, e sorria para ele. Ele, um tanto quanto tímido, retribuía o sorriso com certa falta de jeito, sem graça. Jonatas era um moreno alto, magro, mas também dotado de seu charme próprio. Encantava Michele, o seu cavanhaque, no estilo cafajeste, e a combinação deste detalhe com sua timidez. A noite prometia.

Então ela chegou e eles começaram a conversar. Conversa de balada, aquele papo estranho, sem nexo, que os induzia a um único final: o beijo. E foi o que aconteceu, ali mesmo, no meio do bar. Um beijo nada demorado, porém muito intenso, com desejo dos dois, com calor dos dois.

O beijo aconteceu e logo estavam no quarto de Michele. Jonatas se sentia um pouco incomodado, não saiu preparado para acabar a noite ali, mas gostava e tentava fazer com que isso superasse a ansiedade e o nervosismo.

Depois de uma noite de transas intensas, dormiram. Modo de dizer é claro, afinal Jonatas não conseguiu dormir. Não pregou o olho, e enquanto ela respirava profundamente o sono cansado, ele pensava e pensava.

Após algumas semanas, eles continuaram a se encontrar. Porém Michele sentia que havia algo estranho, que o bloqueava, que não o deixava natural. Jonatas tinha um segredo.

- O que há, Jô? O que está acontecendo que você fica assim, tão calado?
- Nada, Mi, nada. Eu sou assim mesmo, sou na minha.
- Ah ta, me desculpe...só acho que já te vi mais falante, só isso.

Mas a situação não acabou por aí. Eles já transavam com certa intimidade, tinham uma grande sintonia na cama, invejável. Michele, que sabia de seu ciclo e de suas vontades, ofereceu para que eles parassem de usar camisinha. “Incomoda e não dá a mesma sensibilidade”, dizia. Péssimos planos, Jonatas ficou triste, cabisbaixo, e propôs uma conversa séria:

- Algum problema, meu bem?
- Eu não posso transar sem camisinha com você. Não posso, com ninguém. Eu tenho um problema sério.
- O que é Jonatas? Pode me dizer, eu estou do seu lado, você sabe que eu gosto muito de você.
- Eu tenho AIDS. – disse Jonatas, tomado por um nó em sua garganta.
- AIDS?
- É, Michele, HIV, soropositivo, chame como quiser. O que eu sei é que não posso satisfazer você, me desculpe se não posso atender sua vontade. E se quiser ir embora agora, pode ir, como todas já foram, nas outras vezes.
- Calma, eu estou do seu lado, ok? Não vou sair de perto de você, calma!

E o silêncio foi o que restou. Jonatas foi embora triste, envergonhado, e com aquele sentimento de perda que sempre teve com todas as amizades, namoradas, trabalhos e relações que perdeu ao confessar sua realidade. Sua realidade não era das melhores, pensava.

Michele ficou atordoada. Já estava envolvida, gostava demais dele e não podia acreditar que era verdade. Sentiu medo, sentiu dor, e sentiu aquele apertar na boca do estômago, de quem sabe que não sabe o que fazer.

O tempo foi passando e os dois resolveram tentar se equilibrar. Michele decidiu que iria ficar mesmo com Jonatas e que poderiam sim ser um romance lindo, sem obstáculos, sem medos. E foi assim que continuaram: felizes, superando os altos e baixos da vida, e vivendo sempre a olhar pra frente.

Depois de algum tempo, ambos vivendo já juntos, Michele chega em casa orgulhosa com a novidade: passou no vestibular. Passou, e agora vai estudar enfermagem, vai se tornar a melhor enfermeira de onde estiver, vai se dedicar ao máximo.

Jonatas nunca soube se ela gostava de ver sangue, ou coisas assim. Achou um tanto estranho, mas resolveu não questionar. Se essa era a opção dela, e se ela estava feliz, era o que importava, ele estaria feliz.

O que ele nunca soube é que Michele o amava muito. E o amava mais do que qualquer outra pessoa que esteve ao seu lado, sabendo ou não do seu problema. Michele possuía um amor incondicional, puro, e profundamente dedicado por seu namorado.

- Mas filha, por acaso você lá gosta de ver sangue, menina? – disse sua mãe, ao ouvir a novidade.
- Ah, mãe, não se preocupe. Estou fazendo o que o meu coração manda, vou estudar e me tornar uma enfermeira muito competente. Um dia, o Jô vai precisar de mim, vai ficar em um estado do problema em que precisará de mim. E eu estarei aqui, e serei capaz de cuidar dele.

Michele, com toda sua espontaneidade e simpatia, falou alto demais. Jonatas, do corredor, ouviu suas palavras. Ao ouvir, subiu direto para o quarto, sentou-se na cama, e pôs-se a chorar. E a chorar, e a chorar.

O amor real, é incondicional, e ultrapassa todos os limites. O amor vence. Sempre.

sábado, 27 de junho de 2009

Pensamento I

"Não, eu não tenho medo de morrer. Eu só tenho medo da dor, mas não da morte."

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Após a surra.

Seria ideal que, após aquela sequência de golpes, eu (dono de passividade e paciência demasiadamente atribuídas) viesse aqui e escrevesse mil linhas.
Mas não. Não me sinto apto.
Me sinto imóvel, paralisado, congelado. Passei mais de uma hora olhando para a xícara de café vazia, e pensando, e desabafando com minha única companhia: meu ego.

Então passou quase um ano. Porém, o celular não tocou pra uma saudação. Triste ilusão.

Sabem onde e como me derrubar, e é exatamente ali que me acertam. No ponto fraco, na ferida.
E como sempre, as pancadas vêm naquele momento em que eu preciso de tudo, menos delas.
Embora inibida pelos hematomas e por todo o sangue escorrendo, ainda resta aqui dentro uma esperança. O problema é que as pancadas fortes me tiraram a força e a resistência para lutar (depois de tanto lutar e de só apanhar). E está doendo, ah, como está doendo.

Então é dormir e deixar que venha o amanhã. E sem essa de papo digital.
Boa noite, Sid.

É mesmo.

A vida é uma sucessão de decepções. Aí você morre.

domingo, 21 de junho de 2009

Papo de criança.

Flor de Liz e Ana Júlia brincavam na sala. Duas gurias, pequenas, e amigas da escolinha. Faziam ali um desenho, enquanto a mãe de Julinha observava a empolgação e os sorrisos bonitos das duas.
- Olha, tia Mari, esse é o meu pai, a minha mãe, e esta aqui sou eu! – disse Flor para a mãe de Julinha, enquanto apontava o desenho.
- E você não queria um irmãozinho, pra não se sentir sozinha? – perguntou Mariana.
- Ah, eu não! Eu odeio os meninos, argh!

E fez aquela carinha de brava com uma janelinha nos dentes da frente.
Flor e Julinha tinham 8 anos. E Mariana as olhava com toda a sua paciência materna.

- E o seu pai, está bem?
- Ta sim, e a minha mãe também!
- Vou te contar uma história sobre seu pai, o Emílio.
- Conta, conta!
- É, conta! – abriu também Julinha um sorriso curioso, com os olhinhos azuis brilhantes.
- Sabe, o Emílio sempre foi um menino legal. Era assim quando o conheci, aos 15 anos. Não gostava de estudar, mas não precisava, pois prestava atenção em todas as matérias e as professoras dele gostavam. Era bonito, e era alegre! Era amigo da maioria das pessoas e essas o admiravam muito. E eu, uma menina dedicada e também com muitos amigos, gostava muito dele. Gostava e sentia ciúme, porque muitas meninas queriam ficar perto dele, e todas umas chatinhas, ai ai ai.
- Conta mais, tia, conta mais!
- Calma – Mariana riu – que eu estou contando. Eu e o Emílio tínhamos uma amizade muito gostosa. Como a de vocês duas assim. Nós riamos, conversávamos e fazíamos juntos os trabalhos de escola. Ele também gostava muito de mim, nos dávamos bem. Porém, o tempo passou e nós perdemos contato. Encontrei seu pai muito tempo depois, e tudo estava diferente. Seu pai continuava o mesmo, bonito, jovem, e alto. Mas sua vida havia mudado de ritmo, ja trabalhava, e estava apaixonado e feliz!
- E minha mãe, tia Mari, e minha mãe?
- Seu pai havia conhecido sua mãe. Estava apaixonado, e ah, como tinha um brilho nos olhos. Seu pai era meio namorador, sabe? Hahaha eu fiquei surpresa de vê-lo assim, tímido contando da nova namorada, Renata, sua mãe. Emílio contava dela, que era belíssima e gostava de conversar e de rir. Contava como se dava bem com ela, como eles eram diferentes mas mesmo assim um casal que tinha tudo pra dar certo. Seu pai gostava muito dela, sabe? E por isso é tão bom vê-los assim hoje, felizes, juntos, e dando essa educação pra você.
- Tia, você ainda acha meu pai bonito? Hahahaha – gargalhou com aquela risada gostosa, de criança, a Flor.
- Seu pai é muito bonito, é charmoso e muito carinhoso também. Enfim, é um homem completo. Mas sua mãe é ciumenta e muito brava, então chega de perguntas, hein! Fim da história!
- Sua mãe gostava do meu pa-ai, sua mãe gostava do meu pa-ai! – Flor de Liz cantarolava e corria pela casa.
E saíram as duas correndo a rir e brincar.

Mariana nunca se esqueceu de Emílio, mas preferia acreditar que tudo o que não aconteceu se tornou mesmo uma estória, um conto de fadas. Também nunca entendeu o porquê de ele nunca ir à sua casa buscar sua filha, a doce Flor, mas também preferia não pensar. Fica a música das crianças na cabeça, a história no tempo passado, e valendo este presente amigo. Ah, crianças!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mais feliz.



O nosso amor não vai parar de rolar,
de fugir e seguir como rio
como uma pedra que divide o rio
me diga coisas bonitas.

O nosso amor não vai olhar para atrás
desencantar nem ser tema de livro
a vida inteira eu quis um verso simples
para transformar o que digo

Rimas facéis, calafrios,
fure o dedo faz um pacto comigo
um segundo teu no meu
por um segundo mais feliz

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Soco no estômago.

(Créditos da Imagem: Camerino Neto)

Tento ser o melhor. Dar o melhor de mim, mostrar a que vim. Tento, pois tanto já passei e vivi, já conheci e experimentei, que consigo distinguir o que é ou não melhor para a minha vida. Até agora.

Quando em sociedade, muito embora tenha problemas com as pessoas, procuro ser pacífico. Respeitar opiniões, argumentar e ouvir argumentos. Dou espaço, mesmo que muitas vezes não receba, mas eu deixo as pessoas serem como eles querem pois isso as faz sentirem melhores. Não sou do tipo que protesta, que briga e reivindica. Procuro um acordo, e essa passividade nem me incomoda tanto assim. Só tento fazer as coisas acabarem bem.

Gosto de algumas pessoas, de verdade. E para com essas eu procuro ser ainda melhor, pois o bem que elas me fazem sentir, as tornam merecedoras do meu bem.

Não faço sacanagem, não jogo sujo, respeito. Isso não é uma decisão minha, mas sim uma característica que vem de criação, da forma como eu cresci e aprendi. Não tenho escolha, é assim que funciona, e nem quero ou pretendo mudar.

Gosto da palavra lealdade, e é isso que eu tento praticar. Ser leal, e jogar as cartas na mesa, o preto no branco, os pingos nos “i”s, ou a forma como eu quiser citar “clareza”.

Vejamos:
--
carácter (át ou áct)caráter (át) ou carácter (áct) (latim character, -eris, sinal, marca) - s. m.
1. O que faz com que os entes ou objectos|objetos se distingam entre os outros da sua espécie.
2. Marca, cunho, impressão.
3. Propriedade.

4. Qualidade distintiva.

5. Índole, génio.

6. Firmeza.

7. Dignidade.

8. Artes gráf. Molde de letra escrita.
9. Sinal, figura (usada na escrita).

10. Artes gráf. Tipo de imprensa. = letra

11. Sinal de abreviatura.

12. Med. Aspecto|Aspeto.
Pl.: caracteres|carateres.

Dupla grafia pelo Acordo Ortográfico de 1990: caráter ou carácter

Grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990: carácter


--
Achados um, quatro, cinco e sete. Dou valor a eles pois são itens que me ajudam a ser essa pessoa que vos escreve. São itens da construção, do todo. São o que me diferenciam de outra pessoa (e de seu caráter, seja ele bom ou mau) e me fazem único.

E eu sigo minha vida dessa forma, buscando cada vez mais discernimento para escolher o que faz parte de mim e o que não faz, tentando respeitar, considerar os contextos levando em conta os conceitos, tudo isso, para ouvir que sou um mau-caráter?

Nesta fase que estou passando, de renovação e busca, de luta, de anseios, ouvir isso não é nada bom. Me desconstrói, me abala e me faz sentir pior. Tento dar o meu melhor, fazer o melhor, lutar pelo amor e pela paz, pelo amor em paz inclusive, e sou ofendido. É um tapa na cara.

Outra:
--
hipocrisia - s. f.
1. Fingimento de bondade de idéias ou de opiniões apreciáveis.

2. Devoção fingida.

--
Então em seguida ouço: hipócrita! Por Deus, agora um soco no estômago.

Entendo a dificuldade de acreditar nas pessoas – haja vista maldade existente no mundo - e também o julgamento culpado dado a qualquer um, até que nos provem o contrário, por isso tenho que relevar. Aliás, tenho que relevar?

É difícil ser colocado injustamente em um grupo onde não se quer estar. É difícil quando não acreditam em você, e mais ainda, quando as pessoas que não acreditam são próximas de você.

Nunca gostei de ter que provar aos todos o que sou. Gosto de viver, e de deixar assim que as pessoas pensem o que quiserem. Se sentirem vontade de falar para mim o que sentem, melhor ainda, afinal críticas construtivas são, sim, bem vindas.

Agora, ou ainda me falta muita consciência de auto-análise para entender “mau-caráter” e “hipócrita” como crítica construtiva, ou, tem alguma coisa muito errada por aqui.

*Significado das palavras encontrados em: Dicionário Priberam

As meninas dos jardins.

(Créditos da Imagem: UOL)

Abro a porta vejo a fumaça no asfalto
o sol me cega eu sigo em frente
encaro o sol deixo meu rastro para trás
o dia corre assim veloz
o dia corre além de nós
E eu vou me desviando das aeronaves
que aterrissam a todo instante
morrer já não parece novo já não assusta
desço a rua augusta a 120 por hora
Hi hi johnny hi hi alfredo
Nada respira como antes só o medo
Vejo as meninas dos jardins
belas nos seus jeans
a riqueza é um alqueire
uma quadra da oscar freire
eu vi o mano mano brown
mandando um rap para valer
eu vi o mano mano brown
vestindo gap na tv

Cato no chão migalhas
do banquete dos que comem
o que que houve eu nunca mais ouvi
chamar meu nome
A rua é reta a vida é torta
quem se importa
se eu vou morrer de sede
ou se eu vou morrer de fome
O sol nas bancas de revista
e na capa da revista
sombra grana e água fresca
Vejo novos ricos
Vejo velhos pobres
Não vi ninguém abrir a boca
mas ouvi o grito
Deus misericórdia de nossa miséria
Caravela de cabral
morte e vida severina
as meninas dos jardins gostam de rap
as meninas dos jardins gostam de rap
as meninas dos jardins gostam de happy end

Cantilenas do futuro
nas cidades sem futuro
orações ao vento preces sem destino
sangue no asfalto
- Ninguém é alto o suficiente
que não possa rastejar

O meu boy morreu
que será de mim
manda buscar outro correndo
lá no itaim

*Gostaria de ter colocado o vídeo, mas não encontrei nenhum. Neste caso, fica a letra dessa música fantástica, obra deste grande ídolo e poeta brasileiro.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Espelho

O seu problema
É que não esquece
E quando tenta desvincular
Se lembra.

O seu problema
É que não se concentra
E quando ao demais se concentrar
Se lembra.

O seu problema
É que demasiadamente luta
E quando pensa em desistir
Se lembra.

O seu problema
É o tanto que, aflito, sofre
E quando pensa em, pra lá, deixar
Se lembra.

O seu problema, seu moço
É que você
Se lembra.

Projetar-se.

(Créditos da Imagem: Nada a Veer)

Passamos boa parte de nossa vida nos projetando na vida de outras pessoas. Eu diria que na maioria do tempo fazemos isso. Mas isso não faria sentido, afinal essas pessoas (nas quais projetamos nossa vida) teriam que estar projetando a vida delas na vida de outras pessoas. Pronto, já fez sentido.

Crescemos vivendo em sociedade. Analisamos comportamentos e, mesmo que inconscientemente, arquitetamos o que é melhor para o nosso “eu”. Observamos as pessoas mais populares e nos projetamos ali, começando a agir como idiotas, cometendo atitudes babacas para parecermos melhores. Os populares sorriem. Nós, não.

Continuamos a nos projetar. Pegamos um pouco do mais popular, um pouco do quietinho, um pouco do metido a sábio, um pouco do tocador de violão, um pouco do chato contador de mentiras, um pouco do mais namorador. Estamos procurando a nossa felicidade - mesmo que projetada, ainda.

Então nós somos agora os mais populares. Todo mundo quer andar com a gente, quer ser nosso amigo, quer falar dos mesmos assuntos. Besteira. Nós andamos por aí e todo mundo sabe onde vamos, com quem estamos, qual é o nosso nome e a última pessoa com quem saímos. E a penúltima, e a outra. As pessoas se projetam na gente porque nos vêem sorrindo.

Basta crescermos um pouco mais para vermos que não estamos muito longe do zero. Fizemos besteiras procurando ser iguais aos imbecis nos quais nos projetamos, falamos também imbecilidades para parecermos “da turma” e nos envolvemos com as pessoas que queriam que nos envolvêssemos. Não que a gente não quisesse, mas se pudéssemos escolher...

A gente não tem muita vontade de ser rico. Até que a gente começa a se envolver com gente rica, e aí projetamos aquilo para a gente, como se fosse nosso. Agora a gente não só quer ser rico como já é rico, burguês nojento, do tipo esnobe mesmo, o pior. A gente entende de vinho, de viagens e de cinema. A gente fala de sucesso, dos grandes bem-sucedidos-de-uma-só-expressão, e sabe onde está o dinheiro do mundo. Tudo porque nos projetamos ali.

Usamos de maneira suja o nosso dinheiro, o nosso corpo e a nossa dignidade. Desgastamos também a nossa imagem, o nosso respeito, o nosso emprego. E talvez a parte mais grave ferida nesta manipulação de sorrisos é que sujamos a única coisa que ficará depois de tudo isso: o nosso nome.

Temos mesmo é vontade de estar bem o tempo todo. Esquecemos que momentos tristes são tão importantes quanto os felizes, porque emoção é emoção, e se a sentimos intensamente, tanto faz a polaridade. Mas é essa vontade de sorrir à toa que nos faz agirmos como verdadeiras marionetes e nos projetarmos em vidas paralelas visivelmente ridículas.

Mas a pior parte, das piores mesmo, é que só percebemos tudo isso lá na frente. Bem depois.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Fuga de mel.

Já não é preciso muito pra eu sentir que quero sempre
Sempre ter-te, oh bonita, e em teu corpo aconchegar-me
Escutar com paciência cada um dos teus reclames
E daqui, fugir contigo para qualquer dos lugares

E o outono, tão sublime, que me trouxe até teus beijos
Estes de segunda-feira até então desconhecidos
É o mesmo que me cobre dos sussurros nada ingênuos
Transbordando esta alma pobre de prazer em arrepios

Então no meio do frio e do quente repentino
Fujo contigo pra longe, ah, te carrego comigo
Caminhar contigo é pisar em nuvens, suaves nuvens
Pra em teu colo deitar-me e a ti confessar ser só teu menino

Agora já de volta da lua de mel surpresa
Deparo-me com teus olhos
Com tua feroz beleza

Explode meu peito e clama esse meu amor que lhe é tão fiel
E os lábios me acaricia
Teu gosto doce, este doce mel

Individual.

(Créditos da Imagem: Welcome to Luizas)

O mundo é individual.
Não significa que eu goste dessa forma de ver a vida, mas é assim que acontece e é por isso que eu admiro o ambiente metropolitano. Um ambiente tão movimentado, com pessoas correndo e conversando, gritando frente às lojas e acenando frente aos carros. Para mim, a assinatura da grande cidade é a cena do sinal verde pedestre abrindo, e das pessoas se cruzando a pisotear a sinalização no asfalto.
Ninguém te nota. Seja você um diretor de uma multinacional ou um auxiliar de escritório de advocacia, seja você o juiz ou o réu em liberdade condicional: no meio da metrópole você não é ninguém. Ou seria, você, apenas mais um? A resposta é: tanto faz. As pessoas não vão sentir pena de você, ou raiva, ou alegria em te ver. Simplesmente não vão te ver, não vão ligar para você. E isso é horrível fantástico!
E falo com propriedade. Falo pois venho de uma cidade pequena, onde salvas exceções, as pessoas são nojentas. E são assim abomináveis exatamente pelo avesso do tema em que disserto: elas te notam. Te notam e sabem quem você é, com quem você anda e onde você vai. Sabem e, se não sabem, procuram saber. São olheiros que só não te vigiam 24h por dia pois o dia em uma cidade pequena não funciona em período integral.
Conversando com um amigo no último final de semana, ouvi dele o seguinte pesar: “(...) trabalhei anos aqui. E hoje, ao sair, vi que tudo o que comprei ou fiz nesta cidade não foi para mim, e sim para os outros. E ao me dar conta disso tudo, é que resolvi que o tempo de consertar era aquele. Mesmo adorando passar por aqui, é bom estar longe.”
Estar longe é prezar pela individualidade. É saber que cada um é cada um, que não nascemos presos a ninguém, nem a lugar algum. As pessoas são livres, e assim estão condenadas a serem. E tal individualidade vem da noção de se colocar no seu devido lugar, e na hora certa. E de saber como sair dali, no momento em que nos carecer.
Sejamos nós mesmos. É triste bom saber que se não nos importarmos conosco próprios, ninguém o fará. Mas é assim que funciona a dita individualidade: ou você cuida de si mesmo, ou ninguém cuidará. E é triste bom que se apresse, e que não perca tempo querendo cuidar do outro pois ele não precisa de ajuda. Você me acha egoísta? Então experimente precisar de ajuda, e veja quem se importará com você. Então lhe farei a mesma pergunta: você ainda me acha egoísta?
Não, eu não sou egoísta. Eu sou individual, bem como o mundo é.

sábado, 13 de junho de 2009

Ausência.

Andei ausente do blog pois estava fazendo uma viagem. Esta, foi muito boa, obrigado.
Estou em um momento de paz e isso tem sido fantástico, portanto, tenho aproveitado.
Aguardem pacientemente os textos, volto em breve!
Obrigado pelas visitas, e pelos que se preocuparam com a ausência.

terça-feira, 9 de junho de 2009

por Nelson Rodrigues (parte 2)

O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade.

Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.

O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.

Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.

Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...

A plateia só é respeitosa quando não está entendendo nada.

Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.

Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de ouro.

Todo amor é eterno. E se acaba, não era amor.

Amar é ser fiel a quem nos trai.

Toda unanimidade é burra.


E a última das minhas escolhas:


O rico e o pobre são duas pessoas.
O soldado protege os dois.
O operário trabalha pelos três.
O cidadão paga pelos quatro.
O vagabundo come pelos cinco.
O advogado rouba os seis.
O juiz condena os sete.
O médico mata os oito.
O coveiro enterra os nove.
O diabo leva os dez.
E a mulher engana os onze.


*Não preciso explicar o porquê de ter separado em duas partes, preciso?

por Nelson Rodrigues

D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.

Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.

Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea.

Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.

É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.

O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.


*extraídas da coletânea de Ruy Castro "As 1.000 melhores frases de Nelson Rodrigues" Companhia das Letras, 1997;

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Amar-te.

- Mas pai, quando saber se ele realmente me ama? - Pergunta a menina com sombrancelhas de curiosidade.
- Não é tão difícil dizer.
Experimente sentir frio. É isso mesmo! Não precisa franzir a testa assim, não. Filha, um homem quando ama, não deixa a mulher sentir frio, esteja ele já sem blusa ou sem camisa. Não, não é escravidão, é uma dedicação imensa. O amor é uma dedicação imensa. É um casaco a proteger do frio, um abraço a proteger do vento, um travesseiro feito de camisa ou um café quente em noite de inverno.
Experimente, finja que está dormindo! E ele te vigiará para que tudo fique bem, e alisará teus cabelos até que seus sonhos te façam levitar. A vontade dele mesmo é de dançar com você no seu sonho, mas ele se contentará em te ver dormir. Claro, e em alisar os teus cabelos.
E se ouvires um barulho, lá estará ele para ver o que está acontecendo, afinal o gato no telhado não é tão perigoso assim. E o amor é uma dedicação imensa.
Experimente, gostar de flores. Sejam rosas brancas, vermelhas ou botões. E você as terá, ali belas e cheirosas flores, a enfeitar teu quarto, teus cabelos, teus momentos. Uma flor nunca será obrigação, mas ele há de correr, enfrentar o trânsito, a vaga apertada, e todos os outros perigos e obstáculos e dragões de duas cabeças que surgirem: até que ele consiga a sua flor.
Experimente fazer um mimo. É, um mimo. Vocês mulheres são tão boas nisso, oras! Não há cousa mais bela que os teus mimos, para o homem que amar-te, te trazer o outro lado da lua. Mas não peça! Deixe-o inventar, porque o homem quando ama é criativo, é corajoso, é invencível. E além de tudo, dedicado. Imensamente dedicado.

(silêncio)

- ...Pai, você é assim? - Pergunta a menina com carinha de boba.
- Bom, pergunte à sua mãe.
- Mãe, mãe! - E saiu a correr pela casa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Paixão

(Créditos da Imagem: Blog Acordes)

Amo tua voz e tua cor
E teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete
Suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar
Ser feliz é tudo que se quer
Ah! Esse maldito fecho eclair
De repente a gente rasga a roupa
E uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém

Não quero ficar na tua vida
Como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme
E se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso
Deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso
E o corpo mais preciso
Que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita
E a boca mais bonita
Que a minha já tocou

*É sim para você, porque você aprendeu a gostar dela.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O homem na chuva


(Créditos da Imagem: G1)

Parei o carro numa travessa e desci. Apenas bati a porta, nem trava, nem nada. O bater de portas é sempre poderoso, não?
E andei. A pé pela calçada eu dobrei e segui pela avenida, chuvosa e iluminada bandeirantes. Andava na mesma direção, olhar fixo para o nada, e na cabeça idem: nada. Estranho, não? Não pensava em nada, a não ser quando via um degrau surgia o impulso “subir” ou algum objeto para o impulso “desviar”.
Foi como um punhal. Sim, eu já fui perfurado com um punhal. Era uma dor seca e fria, no corpo quente por dentro e molhado das gotas por fora. A dor que me esvazia a mente, que me tirou o foco da visão e fez distorcer todo som dos carros e pessoas. A dor de vê-la longe.
Pela calçada ninguém, noite de domingo vazia, chuvosa e fria na capital. Carros não me davam trégua. Eram brancos e pretos e pratas e tantos outros, porém não me importava, pois eu só via mesmo os vultos dos faróis. Faróis que corriam e se borravam em meus olhos bloqueados ora pelas lágrimas, ora pelas gotas da chuva interminável. Ah, como eu odeio chuva no rosto.
Então os pensamentos me voltam: onde estou? Avenida dos Bandeirantes, chuva forte e semáforos a piscar. Abro os braços, olho para os céus, e sou o novo desiludido na rua a chorar. Grito: “Onde ela está? Pare de me mandar essa água, pare! Pare!”. Choro, agora de soluçar. Meus soluços se interrompem pelo trovão, que me cala e é uma resposta não para o meu pedido aos céus.
Agora eu caminho arrastado, sou levado pela chuva como um pedaço de qualquer coisa. Meus passos seguem como houvessem bolas de ferro acorrentadas, e os braços estão para baixo, decadentes. Vou, e a cada esquina um novo gosto amargo a corroer meus sonhos. A cada atravessar de rua, a sensação do confuso a dominar meu corpo. E a cada poste que vejo há uma pessoa imaginária ali rindo do homem metido a poeta.
Tremo de frio, choro de dor, me ajoelho de medo. Ponho minhas mãos molhadas no chão também já molhado e é assim que me sinto: rendido, de quatro para a vida.

Porque agora a chuva me vem em forma de chicotadas e me corta a roupa até chegar na pele. Espancado pelo que me cerca sou poeta fraco a me jogar no chão em busca de socorro. Não, não há socorro humano que me faça ver o melhor nas pessoas. Sou tolo desbravador do que ainda me resta de boa memória; e poeta amador que ama onde a recíproca não lhe é verdade. Não quero a vida de volta, só quero sair assim despercebido. Porque é sim inenarrável meu buscar instável já desconhecido.