domingo, 28 de junho de 2009

Incondicional

A chopperia estava cheia. Muita agitação, pessoas e mais pessoas curtiam uma música qualquer. Ela estava lá. Ele também.

Michele era uma morena encantadora. Sorriso simpático, extrovertido, que a tornava mais bonita. Não, ela não precisava de nada disso para ser uma linda mulher, mas o conjunto todo tornava a sua presença algo assim, surreal.

Ela dançava, e sorria para ele. Ele, um tanto quanto tímido, retribuía o sorriso com certa falta de jeito, sem graça. Jonatas era um moreno alto, magro, mas também dotado de seu charme próprio. Encantava Michele, o seu cavanhaque, no estilo cafajeste, e a combinação deste detalhe com sua timidez. A noite prometia.

Então ela chegou e eles começaram a conversar. Conversa de balada, aquele papo estranho, sem nexo, que os induzia a um único final: o beijo. E foi o que aconteceu, ali mesmo, no meio do bar. Um beijo nada demorado, porém muito intenso, com desejo dos dois, com calor dos dois.

O beijo aconteceu e logo estavam no quarto de Michele. Jonatas se sentia um pouco incomodado, não saiu preparado para acabar a noite ali, mas gostava e tentava fazer com que isso superasse a ansiedade e o nervosismo.

Depois de uma noite de transas intensas, dormiram. Modo de dizer é claro, afinal Jonatas não conseguiu dormir. Não pregou o olho, e enquanto ela respirava profundamente o sono cansado, ele pensava e pensava.

Após algumas semanas, eles continuaram a se encontrar. Porém Michele sentia que havia algo estranho, que o bloqueava, que não o deixava natural. Jonatas tinha um segredo.

- O que há, Jô? O que está acontecendo que você fica assim, tão calado?
- Nada, Mi, nada. Eu sou assim mesmo, sou na minha.
- Ah ta, me desculpe...só acho que já te vi mais falante, só isso.

Mas a situação não acabou por aí. Eles já transavam com certa intimidade, tinham uma grande sintonia na cama, invejável. Michele, que sabia de seu ciclo e de suas vontades, ofereceu para que eles parassem de usar camisinha. “Incomoda e não dá a mesma sensibilidade”, dizia. Péssimos planos, Jonatas ficou triste, cabisbaixo, e propôs uma conversa séria:

- Algum problema, meu bem?
- Eu não posso transar sem camisinha com você. Não posso, com ninguém. Eu tenho um problema sério.
- O que é Jonatas? Pode me dizer, eu estou do seu lado, você sabe que eu gosto muito de você.
- Eu tenho AIDS. – disse Jonatas, tomado por um nó em sua garganta.
- AIDS?
- É, Michele, HIV, soropositivo, chame como quiser. O que eu sei é que não posso satisfazer você, me desculpe se não posso atender sua vontade. E se quiser ir embora agora, pode ir, como todas já foram, nas outras vezes.
- Calma, eu estou do seu lado, ok? Não vou sair de perto de você, calma!

E o silêncio foi o que restou. Jonatas foi embora triste, envergonhado, e com aquele sentimento de perda que sempre teve com todas as amizades, namoradas, trabalhos e relações que perdeu ao confessar sua realidade. Sua realidade não era das melhores, pensava.

Michele ficou atordoada. Já estava envolvida, gostava demais dele e não podia acreditar que era verdade. Sentiu medo, sentiu dor, e sentiu aquele apertar na boca do estômago, de quem sabe que não sabe o que fazer.

O tempo foi passando e os dois resolveram tentar se equilibrar. Michele decidiu que iria ficar mesmo com Jonatas e que poderiam sim ser um romance lindo, sem obstáculos, sem medos. E foi assim que continuaram: felizes, superando os altos e baixos da vida, e vivendo sempre a olhar pra frente.

Depois de algum tempo, ambos vivendo já juntos, Michele chega em casa orgulhosa com a novidade: passou no vestibular. Passou, e agora vai estudar enfermagem, vai se tornar a melhor enfermeira de onde estiver, vai se dedicar ao máximo.

Jonatas nunca soube se ela gostava de ver sangue, ou coisas assim. Achou um tanto estranho, mas resolveu não questionar. Se essa era a opção dela, e se ela estava feliz, era o que importava, ele estaria feliz.

O que ele nunca soube é que Michele o amava muito. E o amava mais do que qualquer outra pessoa que esteve ao seu lado, sabendo ou não do seu problema. Michele possuía um amor incondicional, puro, e profundamente dedicado por seu namorado.

- Mas filha, por acaso você lá gosta de ver sangue, menina? – disse sua mãe, ao ouvir a novidade.
- Ah, mãe, não se preocupe. Estou fazendo o que o meu coração manda, vou estudar e me tornar uma enfermeira muito competente. Um dia, o Jô vai precisar de mim, vai ficar em um estado do problema em que precisará de mim. E eu estarei aqui, e serei capaz de cuidar dele.

Michele, com toda sua espontaneidade e simpatia, falou alto demais. Jonatas, do corredor, ouviu suas palavras. Ao ouvir, subiu direto para o quarto, sentou-se na cama, e pôs-se a chorar. E a chorar, e a chorar.

O amor real, é incondicional, e ultrapassa todos os limites. O amor vence. Sempre.

2 comentários:

Luana disse...

Estou a procura, sempre, de um amor assim!

Renato Menezes disse...

Estou perplexo com o texto, com o conteúdo, com as metáforas. Não sei muito bem o que dizer. Não penso no amor, nem na limitação, nem na perda...penso no caos.