segunda-feira, 1 de junho de 2009

O homem na chuva


(Créditos da Imagem: G1)

Parei o carro numa travessa e desci. Apenas bati a porta, nem trava, nem nada. O bater de portas é sempre poderoso, não?
E andei. A pé pela calçada eu dobrei e segui pela avenida, chuvosa e iluminada bandeirantes. Andava na mesma direção, olhar fixo para o nada, e na cabeça idem: nada. Estranho, não? Não pensava em nada, a não ser quando via um degrau surgia o impulso “subir” ou algum objeto para o impulso “desviar”.
Foi como um punhal. Sim, eu já fui perfurado com um punhal. Era uma dor seca e fria, no corpo quente por dentro e molhado das gotas por fora. A dor que me esvazia a mente, que me tirou o foco da visão e fez distorcer todo som dos carros e pessoas. A dor de vê-la longe.
Pela calçada ninguém, noite de domingo vazia, chuvosa e fria na capital. Carros não me davam trégua. Eram brancos e pretos e pratas e tantos outros, porém não me importava, pois eu só via mesmo os vultos dos faróis. Faróis que corriam e se borravam em meus olhos bloqueados ora pelas lágrimas, ora pelas gotas da chuva interminável. Ah, como eu odeio chuva no rosto.
Então os pensamentos me voltam: onde estou? Avenida dos Bandeirantes, chuva forte e semáforos a piscar. Abro os braços, olho para os céus, e sou o novo desiludido na rua a chorar. Grito: “Onde ela está? Pare de me mandar essa água, pare! Pare!”. Choro, agora de soluçar. Meus soluços se interrompem pelo trovão, que me cala e é uma resposta não para o meu pedido aos céus.
Agora eu caminho arrastado, sou levado pela chuva como um pedaço de qualquer coisa. Meus passos seguem como houvessem bolas de ferro acorrentadas, e os braços estão para baixo, decadentes. Vou, e a cada esquina um novo gosto amargo a corroer meus sonhos. A cada atravessar de rua, a sensação do confuso a dominar meu corpo. E a cada poste que vejo há uma pessoa imaginária ali rindo do homem metido a poeta.
Tremo de frio, choro de dor, me ajoelho de medo. Ponho minhas mãos molhadas no chão também já molhado e é assim que me sinto: rendido, de quatro para a vida.

Porque agora a chuva me vem em forma de chicotadas e me corta a roupa até chegar na pele. Espancado pelo que me cerca sou poeta fraco a me jogar no chão em busca de socorro. Não, não há socorro humano que me faça ver o melhor nas pessoas. Sou tolo desbravador do que ainda me resta de boa memória; e poeta amador que ama onde a recíproca não lhe é verdade. Não quero a vida de volta, só quero sair assim despercebido. Porque é sim inenarrável meu buscar instável já desconhecido.


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