quarta-feira, 17 de junho de 2009

Projetar-se.

(Créditos da Imagem: Nada a Veer)

Passamos boa parte de nossa vida nos projetando na vida de outras pessoas. Eu diria que na maioria do tempo fazemos isso. Mas isso não faria sentido, afinal essas pessoas (nas quais projetamos nossa vida) teriam que estar projetando a vida delas na vida de outras pessoas. Pronto, já fez sentido.

Crescemos vivendo em sociedade. Analisamos comportamentos e, mesmo que inconscientemente, arquitetamos o que é melhor para o nosso “eu”. Observamos as pessoas mais populares e nos projetamos ali, começando a agir como idiotas, cometendo atitudes babacas para parecermos melhores. Os populares sorriem. Nós, não.

Continuamos a nos projetar. Pegamos um pouco do mais popular, um pouco do quietinho, um pouco do metido a sábio, um pouco do tocador de violão, um pouco do chato contador de mentiras, um pouco do mais namorador. Estamos procurando a nossa felicidade - mesmo que projetada, ainda.

Então nós somos agora os mais populares. Todo mundo quer andar com a gente, quer ser nosso amigo, quer falar dos mesmos assuntos. Besteira. Nós andamos por aí e todo mundo sabe onde vamos, com quem estamos, qual é o nosso nome e a última pessoa com quem saímos. E a penúltima, e a outra. As pessoas se projetam na gente porque nos vêem sorrindo.

Basta crescermos um pouco mais para vermos que não estamos muito longe do zero. Fizemos besteiras procurando ser iguais aos imbecis nos quais nos projetamos, falamos também imbecilidades para parecermos “da turma” e nos envolvemos com as pessoas que queriam que nos envolvêssemos. Não que a gente não quisesse, mas se pudéssemos escolher...

A gente não tem muita vontade de ser rico. Até que a gente começa a se envolver com gente rica, e aí projetamos aquilo para a gente, como se fosse nosso. Agora a gente não só quer ser rico como já é rico, burguês nojento, do tipo esnobe mesmo, o pior. A gente entende de vinho, de viagens e de cinema. A gente fala de sucesso, dos grandes bem-sucedidos-de-uma-só-expressão, e sabe onde está o dinheiro do mundo. Tudo porque nos projetamos ali.

Usamos de maneira suja o nosso dinheiro, o nosso corpo e a nossa dignidade. Desgastamos também a nossa imagem, o nosso respeito, o nosso emprego. E talvez a parte mais grave ferida nesta manipulação de sorrisos é que sujamos a única coisa que ficará depois de tudo isso: o nosso nome.

Temos mesmo é vontade de estar bem o tempo todo. Esquecemos que momentos tristes são tão importantes quanto os felizes, porque emoção é emoção, e se a sentimos intensamente, tanto faz a polaridade. Mas é essa vontade de sorrir à toa que nos faz agirmos como verdadeiras marionetes e nos projetarmos em vidas paralelas visivelmente ridículas.

Mas a pior parte, das piores mesmo, é que só percebemos tudo isso lá na frente. Bem depois.

2 comentários:

Renato Menezes disse...

"Os populares sorriem. Nós, não". Essa frase daria horas de reflexões. A coca-cola seria de dois litros.
Por que não sorrimos (nesse aspecto)? Não somos felizes? Somos. E também somos tristes.
É difícil tentar ser pensante. Estamos cada vez mais isolados. E a tendência disso é piorar.

Abraços.

Naakey disse...

"Nós andamos por aí e todo mundo sabe onde vamos, com quem estamos, qual é o nosso nome e a última pessoa com quem saímos. E a penúltima, e a outra."

É... e isso é um saco. Tanto por saber dos outros quanto por saberem da gente!

E como você disse, só percebemos isso lá na frente! Eu ainda não percebi hauahu...

xxx