quinta-feira, 16 de julho de 2009

O monstro.

Eu estava ali sentado quando ele passou. Não retirei meus olhos da apresentação dos alunos da escola de música, apenas percebi a sombra. Foi então que o cenário mudou.

Me dei conta de todo o ambiente depois que ele passou. Sua sombra continuou a passar, e a passar. Eu nunca havia visto algo parecido na minha vida!

Era um homem alto. Mas muito, muito alto. E magro. Era um homem alto e magro com pernas longas e finas, seguidos de um tronco ereto e braços também enormes. O cara era grande. Mesmo.

Então sentou-se um pouco à esquerda, na fileira da frente. Sentou-se na cadeira e não se acomodava, não encontrava posição confortável. Percebi sua agonia e me contaminei com tal incômodo, haja vista minha impotência também para qualquer ação. Eu e essa minha habilidade de absorver coisas externas. Péssimo hábito.

Resolvi concentrar-me na apresentação. Música boa, músicos iniciantes. Estava tudo bem, até uma pequena guria chegar até perto do homem. Ela dançava a música quando "aterrisou" perto da cadeira onde ele estava sentado, e pude perceber o olhar curioso e instigado daquela criança: "O que é você?". Ele esticou a mão como cumprimento e ela correu. Ah, e como correu, pros braços da mãe que estava ali, fileiras à frente. A mão voltou para onde devia estar, ou seja, no queixo acompanhando a outra para apoiar sua cabeça. E a criança a aliviar seu medo daquele, até então, extraterrestre.

Eis que então ele virou a cabeça para trás. Sim, para o meu lado! Ele captou de alguma forma essa troca de magnetismo e resolveu retribuir: sorriu. Um sorriso ogro, pálido e apático. Entretanto, como não via um desses há muito tempo - vindo de um desconhecido: um sorriso sincero. Hesitei, voltei meus olhos para o palco, e com a visão secundária (aquela que só percebe o que está acontecendo à nossa frente, sem focar) percebi que, desta vez, não houve decepção em sua expressão. Ele entendeu o recado.

Conforme olhava para o palco sua expressão mudava, parecia interessado, inspirado e cheio de emoção. Me contaminei também por esse amor, por essa entrega e doação de sentimento para com a música. O enorme sentimento do magro gigante.

Após essa carga toda de energia, resolvi que era hora de partir. Levantei e virei para a direita em direção à saída sem pensar duas vezes, mas de alguma forma sabia que ele me olhava andar ali, naquela direção. Enquanto eu partia, ele me mandava sinais de boa viagem. Para onde quer que você vá ao sair por aquela porta, não se esqueça, do olhar puro e verdadeiro que este monstro lhe permite carregar.

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