terça-feira, 7 de julho de 2009

Irreversível.


Então nos encontramos. Pela primeira vez, após mais de milhões de segundos passando camuflados em meses. Depois de muitas balas de prata embutidas em palavras ríspidas, e de diversas trocas de espionagem da vida alheia, surgiu o primeiro aperto de mão. A espada formal a rasgar os raios que saíam dos olhares. Meu, e dele.

Nós dois estávamos fora da cidade. Não sei se ele voltou, mas eu voltei. Não sei o que ele faz aqui, e nem o que fazia ali, mas o que sei bem é medir a angústia e o desfalecimento do meu sorriso. Não deveria mesmo ter saído de casa.

Tão diferente de mim, tão estranho, com uma educação tão má usada e modos desprezíveis. Simpatia falsa, efusiva e desperdiçada. Cumprimentou as garçonetes e sentou na mesa para a qual eu estava de costas. Droga! Sentir-me de costas para ele foi terrível. O que me salvou foi a má limpeza do vidro em minha frente, que me permitia observá-lo em um reflexo perfeito.

Ao mesmo tempo em que me satisfazia seu incômodo notável, me trucidava o estômago a ansiedade. Imaginava garrafas voando, uma briga de galos ali no meio do café. Mil situações à minha cabeça, o desprezo equilibrado pela raiva, e o descontrole equilibrado pela minha proteção. Caso ele ousasse ser agressivo, eu tinha reforço. Mas não estou falando de reforço emocional, mas sim físico, e cá entre nós? É o que menos faria efeito.

Então me contaminei pelo ódio. O sentimento me subiu à cabeça e comecei a imaginar, montar em minha mente as imagens, situações, diálogos e até discussões, em formato tão real quanto o reflexo do vidro. Como pode? Como pôde? Comparações inevitáveis e a senhora insegurança a me tapear o rosto.

Ator que sou, não deixei transparecer. Continuei meu foco, sempre atento ao ameaçador reflexo, mas mantendo a postura.

Senti que causei mais incômodo do que deveria. Ele se afastou, e partiu. Na saída, virou a cabeça para trás e olhou através do vidro empoeirado, fitando-me os olhos e andando para o lado. Retribuí.

Sei que isso terá resultados, tal como o reflexo do vôo da borboleta do outro lado do mundo que nos presenteia com um tufão por aqui. Agora é só montar a minha fortaleza emocional e, claro, aguardar. Sentado.

Um comentário:

Luana disse...

È a gente sabe, quando não se deve perguntar, o porque de tanta angústia, e ressentimento. Mas se a minha curiosidade fosse maior, com certeza, eu perguntaria. E acredite, não vale a pena, por mais desprezível que alguém possa ser. Não vale a pena, sentir por essas pessoas, nem sequer o próprio ódio.