domingo, 9 de agosto de 2009

O grande encontro


Dizem que uma grande união, quando se entitulada, jamais pode ser desfeita. Não importa quaisquer contra-tempos que venham a acontecer: será sempre iluminada, sempre bela, sempre forte essa junção.
Assim era a amizade de Gabriel e Luana. Se conheciam desde, já, bem pequenos. No primário, para poder ser mais exato. E eram assim, então, carinhosos um com o outro, que nem sequer sabiam a importância que esse amor de amigo carregava. Era único.
Gabriel, aquele menino de sorriso bonito e cabelo lisinho, foi crescendo. E Luana, a magrinha e clara morena, correu seguindo, e entretanto, amadurecendo também. Meninos são sempre mais bobões. Pelo menos ela pensava assim.
Enfim, com um tapa do tempo nas folhas do calendário na parede, os dois já eram adolescentes. Foram separados de sala há alguns anos, mas nada que os fizesse sentir piores. Suas mães, inclusive adoravam:

- Seu filho ainda vai se casar com a minha pequena!
- É, eu acho que esse amor todo, só pode dar casamento!

E era assim. Cresciam e se gostavam, sempre mais, sempre bem.
Fora as crises que na adolescência apareceram. Com a nova voz de Gabriel e as mudanças no corpo de Luana, veio também o ciúme. Ele era popular, tinha as menininhas bobas ao seu redor e isso deixava a impaciência de Luana a flor da pele. Bem como Gabriel ficava tentando despistar os olhares famintos de puberdade daqueles idiotas que ficavam ali, em cima dela, a ponto de segui-la por quarteirões apenas na esperança de um beijo. Pobre esperança.
Assim que terminaram o colégio, os dois tiveram que enfim se separar. E o mais estranho é que não sentiram, lá, tanta dor. Eram ambos confiantes, e mesmo com namorados diferentes, sabiam do carinho e da confiança que possuíam um para com o outro. Isso jamais morreria. Jamais.

Luana e Gabriel perderam o contato. Tudo porque ele deixou a cidade e foi atrás do seu sonho de ser engenheiro. E como gostou da vida de estudante, nunca mais apareceu. Já Luana, permaneceu ali naquela vida, na mesma cidade, com diferentes companhias. Deixou a vida seguir sem muito rumo ou direção, como costumava dizer, deixou "as coisas acontecerem".

Até que, depois de muito tempo, Gabriel apareceu. De passagem, sim, mas estava de volta naquela cidade, no mesmo bairro, em que costumava viver. Não gostava da idéia da casa de seus pais, mas estava ali como hóspede, e resolveu aproveitar.
Com o convite de vários amigos, não deixou de recusar um deles, para uma festa na chácara Alguma Coisa. Não se lembrava o nome, mas não era lá tão importante assim. Vamos pra festa!
Chegando lá, era aquilo que já estava acostumado, mas em doses menores. Muita música, muita diversão, com direito a pessoas bebendo, se drogando, e, assim, se divertindo.
Gabriel saiu do meio do pessoal para buscar uma cerveja. Embora tímido, pois não conhecia ninguém, parecia animado, feliz. Estava em casa, afinal.

Até que, no meio de toda a bagunça, ele viu. Sua cabeça ficou um pouco desnorteada, confusa, que até parou para olhar de verdade. Era uma turma estranha, ali a fumar e a rir feito idiotas - coisa que ele não apreciava muito era qualquer tipo de droga - e a quebrar garrafas e fazer bagunça.
Mas o que mais o intrigou não foi exatamente as atitudes, mas não conseguia acreditar que ela estava ali no meio. Não pôde, sequer, confundir: era Luana, em feição, gestos e jeito.
Ficou olhando fixamente, paralizado na mesma posição, até que ela percebesse. Não sabia, mesmo, se ela tinha lucidez para isso, mas sentiu um nojo que tomou seu instinto. Perdeu a vontade de pegar a cerveja, de estar ali, de ter deixado a cidade, ou até de ter voltado para ela.
Luana, no meio de todo aquele movimento, percebeu aqueles olhos fixos e não quis acreditar. Esforçou-se para levantar ali do meio, e um tanto quanto confusa, saiu da fumaça para ir até a direção dele, que já tinha os olhos razos d'água. Depois de tantos anos, se encontraram, então.

Aí é que Luana se desmontou. Aquela jovem entorpecida, fazendo gestos e conversando qualquer assunto idiota, rindo de qualquer coisa e, assim, se fazendo de superior: desabou. Desabou ao olhar Gabriel, seu velho amigo, ali parado. E, ao contrário dela, estava lúcido, bem vestido e, melhor, bem comportado. Não precisava de nada daquela sujeira para se sentir bem, o que a levou pra uma tristeza súbita.

- Oi? - disse Gabriel com toda aquela ironia que jamais perdeu ao longo do tempo.
- Me perdoe por te fazer sentir isso...
- E..e..eu...não posso acreditar. Luana, não posso. Não vou admitir ver a minha Luana deste jeito, nem me perdoar por ter te deixado assim. Linda, o que foi que você se tornou?
- Eu não sei mais quem eu sou, meu amor. Não sei mais o que é se divertir se não com meus peguinhas, com minhas festas cheias dessas coisas. Estou envergonhada de você me ver neste estado, pois eu esperava não te encontrar nunca mais. Esperava te ver um dia, depois de muito tempo, quando tudo já tivesse se acertado.
- Vem comigo, vamos embora?

Luana pensou. Mas não seria essa ida embora da festa de loucuras que ia tirá-la do meio de tudo isso, então resolveu negar o convite, e ficar por ali, mesmo.
Já Gabriel, fez exatamente o que deveria ter feito: foi embora. Foi-se embora e a cada marcha sentia mais dor de tê-la perdido para este mundo sujo e cheio de contras.
Ela, ali naquele barulho todo, só sentia nos ombros o peso de ter deixado para trás aqueles sorrisos espontâneos (já que agora eram produzidos por qualquer substância), o amor de sua mãe - que agora a tratava como um bixo, um ser estranho - e também o carinho de pessoas como Gabriel, que realmente acreditavam nela.

Tudo na vida pode ser consertado. Tudo pode mudar. Porém, não assim. Não agora. Não tão já.

Um comentário:

Yasmin F. disse...

Tudo precisa de tempo! E temos que aguarda-lo passar! ;D
=*