quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Viver a vida

Não sou, lá, muito chegado em novelas. Nunca fui.
Mas desta que está em evidência, alguns núcleos me trazem à mente divagações e reflexões quase que intermináveis. É, a dos gêmeos.
Quem bem me conhece, bem sabe o porquê.



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vaga vida.

Venta, vida
Vida vaga
Volta, vento
Vida vasta

Vaga volta
Veste, vaza
Veludada
Vida vaga

Vejo várias
Velhas varas
Velharias
Voltas, várias

Vai, vem, vira
Vira volta
Vão, vencidos
Velhos votos

Vento, vela
Vários vultos
Volta vida
Velho, vulgo

Vago vindo
Volto velho
Vago vício
Vulgo velcro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O grande encontro (Parte III)



Respirei.

- Tá certo. Vamos devagar, o que você quer de mim? - questionei com humildade.
- Quero te trazer de volta. Pois sei que você está sentindo falta disso, de tudo o que você sabe que é, de tudo o que já foi - em qualquer das épocas que tenha vivido - e não tem mais conseguido por causa de tanta poluição aí, nessa sua cabeça.

Respirei de novo. Acho que estava me acostumando com a idéia de estar em um papo "a sós comigo mesmo", comecei a ficar mais a vontade, embora ainda um pouco amedrontado. Respirei fundo e fixei meu olhar em cada um dos traços de seu (ou de meu, como quisesse) rosto: um rosto quadrado, de homem, com um desenho definido. Quase um personagem de gibi, o rosto de qualquer um destes super-heróis, sabe como é? E depois fui ainda mais fundo: sombrancelhas milimetricamente grossas, olhos baixos, como quem só focaliza, não abrange. Talvez eu seja mesmo um pouco assim. O nariz talvez grande olhando de perfil, mas não do ângulo que eu estava. E aqueles traços ao lado da boca seguindo até a maçã do rosto, de quem esboça sorrisos mas não muito os aprecia. Olhei para minha boca: gosto dela também, quando quero. Quando sorrio a vejo perdendo qualquer poder que um dia pudesse ter existido. Resta então o último traço, o contorno externo das bochechas alongando até o queixo, com uma fenda tão milimetricamente desenhada como as sombrancelhas. Nem lembrei de como sou detalhista.

- É, meus parabéns. Você está entendendo bem o que eu quero lhe dizer - afirmou com toda a firmeza e serenidade combinadas.
- Sim, talvez sim. Obrigado por ter vindo, nem eu achei que estivesse precisando tanto.
- Seu narcisista de merda! Eu não precisaria ter vindo para isso, você tem espelho para satisfazer seu ego. Deixa esse papo furado pra lá, e me responde de uma vez...

Assustei. Nem eu achei que tivesse tanto punho, tanta potência e persuasão. Eu me convenci, que sensação mais esquisita. Fixei seu rosto por completo, quando me perguntou com a mesma expressão séria e firme:

- Do que você tem medo?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Woman in Chains

O grande encontro (Parte II)




- Vou parar aqui
- É, acho que aqui está bom, sim. - ele disse, com aquele meu tom de metido que cada vez me fazia mais subir o sangue à cabeça.
- Vamos beber alguma coisa, quero saber o que você está fazendo aqui.
- É: você vai. Eu só vou falar, mesmo.

Entramos no bar, ou entrei no bar? Sei lá, ainda não estava entendendo muito bem o que acontecera comigo. Minha consciência aparecendo pra conversar comigo? Será que eu estou mesmo enlouquecendo, depois de já pensar - por tanto tempo - que eu tinha tendência pra isso?

- Tá certo, agora me fala, o que você fazia ali no banco de trás do meu carro, me esperando?
- Estou aqui não é de hoje, mas senti que você anda precisando de ajuda - aliás - você sentiu, e é por isso que eu estou aqui na sua frente.
- Hum, prossiga
- Ouvi sua última conversa consigo mesmo, lá, deitado na cama de olho pro teto. Você quer melhorar, queria as vezes ser menos isso, mais aquilo, e aquele blá blá blá todo. Essa, por enquanto, não é a parte mais importante. Eu quero saber o seguinte: O que você faz aqui?
- Como assim o que EU faço aqui? Eu estou aqui tentando ficar bêbado e ver se você desaparece!
- Não brinca com isso vai? Só me diz, por que você acha que está aqui, estivesse você neste bar ou em casa de frente para o Denzel Washington.
- É o seguinte: a vida é mesmo este conjunto de possibilidades, é um grande aglomerado de coincidências, contra as quais lutamos para evitarmos grandes consequências.
- Você já ouviu isso antes, não me diga que é seu.
- Não, não é. Mas é marcante, fala aí?
- Aposto que sim - afirmou e bocejou, me provocando instintivamente. Mas me fale mais, me fale por que está aqui, você ainda foi muito superficial para o meu questionar!
- Ah, tá certo. Estou aqui porque escolhi. Porque as atitudes que tomei, com as pessoas que conheci e de frente para as situações que tive que passar, me trouxeram até este exato momento. E ah, porque eu sou um tremendo egoísta também.
- Não me diga por enquanto quem você é. Eu já sei disso, esqueceu? Que eu sou você?
- Humpf, mea culpa.
- E nosso latim é desprezível, não ouse abusar dele.
- Nosso?!?! Como assim, nosso?? Que papo é esse? Que nosso, o que?! Eu não sei quem é você, não sei o que você faz aqui, não sei nem se devo mesmo falar tudo isso só porque você tem a mesma aparência física da imagem do meu espelho!

Naquela hora fiquei completamente irritado. Não sei bem por que, tudo estava muito estranho, nao entendi bem por que estava fazendo tudo isso, mas de alguma forma sabia que deveria fazer seguir, que não deveria fugir. Embora confuso, resolvi continuar, podia ser muito interessante.

Mais ainda...


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O grande encontro (Parte I)



Entro no carro e me tranqulizo: ai que frio que está lá fora. Coloco a chave na ignição, óbviamente mecânico, e com a outra mão já puxo o cinto de segurança pra cá. Olho no retrovisor:
- Ai meu Deus!
- Chamando aos céus a essa hora? - ele diz, com tom de quem tem segurança.
- Qu-Quem é..você?!
- Eu? Não está me reconhecendo, rapaz? Eu sou você! Ou não percebe a semelhança?

E era. Por todos os espelhos retrovisores da face da terra: era eu! Eu ali, no banco de trás, ai-meu-Deus - repeti em pensamento.

- Eu estou vendo que você sou eu, ou eu é que sou eu, ah, sei lá!
- Hahahahaha...
- Seja lá quem você for, ou quem eu seja, o que você está fazendo aí atrás? Tenho cara de taxista? Passa aqui pra frente logo!
- Ta tudo bem, vou pra frente porque seu ego é mesmo uma merda.

Abriu a porta e saiu do carro. Apertou o pino da trava e bateu a porta, abriu a da frente, com a minha mão, o meu jeito de abrir, de olhar a borrachinha da porta escapando, tudo! Entrou no banco do passageiro...

- Ah, o passageiro, como gosto deste nome! - exclamou com o mesmo ar de superior
- Não achava que este meu tom de arrogância era tão irritante
- Talvez dizer aos outros o quanto você é chato pode ser até engraçadinho, mas chegou a hora de você realmente ver o quanto é. E ah, por gentileza, dirija. É perigoso aqui, você sabe né?
- É. - Concordei, dei partida no carro e saí calmamente, olhando nos espelhos e no marcador do consumo.
- Ou será que você esqueceu o quanto é sistemático?
- Hey! - exclamei - Você quer fazer o favor de parar com isso? Veio fazer o que aqui, me jogar na cara meus defeitos? Ou alguém no mundo se lembrou que ando precisando de companhia? Quem diabos é você, afinal?
- Calma lá, calma lá! Enumera as perguntas pra você entender melhor as respostas, e quem fala muito "diabo" um dia o vê, esqueceu?
- Humpf...
- Eu sou você, seu ego, seu orgulho, sua consciência e seu respeito por si próprio. Sou seu amor pela vida, sua poesia e seu sistematismo. Sou teu cansaço de fim de tarde, sua necessidade de ser exclusivo, seu charme e sensualismo, sua inteligência mal explorada, seu humor e sua bipolaridade hipócrita.
- Nossa! Que prazer em te ver...
- Tá vendo o que falei do humor?
- A gente vai parar ou eu vou ficar gastando meu combustível aqui a madrugada toda, posso saber?
- Ah, esqueci, eu sou o escorpião criado dentro do seu bolso, também.
- Ha-ha-ha, e é piadista ainda...

Estava confuso, não sabia direito o que significava aquilo. Era eu, eu! Como assim eu ter me olhado no espelho hoje e agora encontrar com quem estava do outro lado? Como assim eu encontrando comigo? Minha consciência? Por Deus, eu ando bebendo café demais...



continua...

sábado, 19 de setembro de 2009

Por tudo


"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo."

em Lixo e Purpurina, de Caio Fernando Abreu



*Honestamente copiado do Blog da Dri.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Beba a vontade.


Senti a necessidade de escrever. De escrever de novo, de fazer o lápis gritar com o papel, os dedos chorarem palavras e as mãos conduzirem as dores. Olho ao meu redor e ninguém percebe, saio e mais tarde volto, dou voltas, faço contas, olho novamente. Ninguém percebe. E nem deveria, de fato, pois não chamo a atenção. Me cubro, me espalho e logo recolho, me molho e me seco, canto e me desespero, me escondo e me mostro. Eu sou teu amante, teu resto de voz preso na garganta, teu pedido em súplica que diz: volta. Por demais que seja o amor, o ego é sempre maior. Me vejo em um beco, me solto e me mexo, me faço até duro: me morda, que eu deixo. Me lamba, que eu gosto. Me aperta, que eu faço o que você quiser. Mas não me jogue pra baixo, que você não consegue descer pra me pegar de volta. Não me deixe neste lugar onde você não alcança, é alto demais aí em cima do seu nariz. Então me procuro: no velho ali fora que está no portão, ou até dentro da casa. No terno e gravata debaixo do sol, ou mesmo dentro da mata. Na selva que é essa cidade, tão cinza, no peso das costas que vejo em você, mas vejo que você me pisa. Não consigo me encontrar, não acho. E lembro o quanto gosto de seguir, de olhar pra frente, de fazer o certo. Eu gosto da rotina menos que do espontâneo, mas o ocasional só existe se o primeiro lhe der base. Quem haverá de quebrar a rotina se não estiver dentro dela? Que violoncelista você conhece daquele grupo de pagode? E trago mais de dentro dessa jarra: lembro do dia em que percebi a força da luta. A luta é muito mais do que essa preguiça boa, esse cochilo de tarde, essa mórbida calma. Acho que levar um tiro no peito na esquina da Brasil é mais interessante que aquele infarto aos 80. Com ou sem você.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A pergunta veio à mente


O que que eu tô fazendo aqui?

Hein? Ao lado dessas pessoas chatas, a me encher o saco.
Parem com isso, céus! Não precisa perguntar se tá tudo bem, não, se eu to enxergando tudo certinho ou se eu to precisando de alguma coisa.
Sabe qual é? Cheguei até aqui sozinho, com minhas próprias pernas! E eu tenho certeza que é assim que eu vou embora daqui. Por mim.
E pode mesmo me olhar com cara feia, pra essa minha cara fechada de quem comeu e não gostou. Não gostei, mesmo! Não engulo essa babaquice, essa futilidade, esse apego ao que não presta. De não prestar já basta eu, e ainda tenho que aguentar vocês?
Deixem de me atormentar e fiquem longe de mim! Não precisa me ligar pra saber se eu to chegando, se eu venho, se eu fui. A quem mais preciso notificar os meus movimentos? Acreditem, a quem eu achar que devo, o faço sem pestanejar. Mas não movam uma palha que venha a invadir o meu espaço.
Agora se não estiver percebendo que não está agradando, tá bacana, fique a vontade. Porque a hora que eu agir, pode acreditar que é uma vez só.
E tenho dito.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Social.

É bem frustrante essa questão de sociedade. E, baseado nessa frustração, é que me tornei esse alguém tão sozinho. Não, não entenda como lamento!, apenas como constatação, e como parte integrante daquela crise existencialista.

Na minha cidade natal, uma cidade qualquer no interior de um estado qualquer, fui à um restaurante. Um lugar cujo qual sempre odiei devido às pessoas que o frequentam e ao status que é aplicado a quem ali aparece. Prefiro não entrar em detalhes, entretanto o foco é que, estourou meu potencial anti-social. É, ali mesmo, aquela habilidade de esquecer de todas as pessoas e de não olhar para ninguém, apenas para o prato. Coisa chata, confesso.

Não sou lá o melhor "parceiro", daqueles de encontrar, abraçar batendo forte nas costas, perguntar da irmã e etc., mas tenho direito de gostar de me comunicar com quem me apetece e, principalmente, da maneira que eu considerar correto.

Aí depois de toda a análise, vem a parte cabeça dura de todo o contexto: não estou, lá, tão interessado em ser "social". O que acontece com a individualidade, que por mais que me incomode em determinados aspectos - realçando: quando à dois - agora fica tão desejada?

Não sei se gosto desta minha característica. Na verdade, é a primeira vez que paro para pensar a respeito dela (exceto nos momentos de criação de identidade e talicoisa), e não me surpreendo ao rever conceitos que já passaram por aqui.

Passei a preferir a metrópole quando comecei a lidar com a frieza e com a solidão, assim, bem de perto. Foram tantas noites aguardando por nada, mas pensando em tudo, divagando e vivendo comigo próprio. Sâo, aliás, tantos anos que fico assim, que me faz diferença ir a um lugar onde me incomodo. O desprezo e a indiferença têm seu ar de benefício, quando te deixam se virar sozinho. Legal, isso: o mesmo que te fere, te cura. Fantástico!

Prefiro ser, então, este solitário passageiro. O lenhador em busca de toda selva, com a habilidade de se excluir da festa - metafóricamente falando - se transformando em uma câmera, só analisando comportamentos e vivendo em um constante laboratório. Prefiro dirigir por vários quarteirões apenas pensando naquela poça d'água em que pisei ao abrir a porta do carro, dividindo minhas preocupações entre o meu jantar e a luz do óleo, que acabara de acender. Lutando para ter condições de, um dia, traçar uma meta. Não há meta a se traçar quando não se consegue imaginar o que se quer ser, concretamente idealizado, daqui a cinco anos.

Por enquanto, estou pintando este quadro. Sozinho.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Crash!

Discuto
Saio bravo
Entro no carro
Dou partida
Manobro
Saio
Faço a rotatória
Ainda muito bravo
Sigo
Radar 40, desacelero
Desvio dos carros
Olho o marcador, 1/4
Sigo
Tento me acalmar
Consigo
Respiro
Acelero
Vejo a frente de um carro
Veio da travessa, cortou a avenida
Ouço a freiada
Crash!
Ouço cair o parachoque dele
Ouço cair meu paralamas
Ouço estourar o pneu
Perco o controle
Bato no canteiro
Paro
Desço
Brigo
Brigo
Brigo
Telefono
Espero o guincho
Espero o guincho
Espero o guincho
Rio com o motorista
Rio cansado
Deixo o carro na oficina
Vou para casa
Chego
Conto tudo
Como
Tomo banho.
Morro.

Ah, e me lembro de como somos evoluídos quando comparados aos primatas.