sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Beba a vontade.


Senti a necessidade de escrever. De escrever de novo, de fazer o lápis gritar com o papel, os dedos chorarem palavras e as mãos conduzirem as dores. Olho ao meu redor e ninguém percebe, saio e mais tarde volto, dou voltas, faço contas, olho novamente. Ninguém percebe. E nem deveria, de fato, pois não chamo a atenção. Me cubro, me espalho e logo recolho, me molho e me seco, canto e me desespero, me escondo e me mostro. Eu sou teu amante, teu resto de voz preso na garganta, teu pedido em súplica que diz: volta. Por demais que seja o amor, o ego é sempre maior. Me vejo em um beco, me solto e me mexo, me faço até duro: me morda, que eu deixo. Me lamba, que eu gosto. Me aperta, que eu faço o que você quiser. Mas não me jogue pra baixo, que você não consegue descer pra me pegar de volta. Não me deixe neste lugar onde você não alcança, é alto demais aí em cima do seu nariz. Então me procuro: no velho ali fora que está no portão, ou até dentro da casa. No terno e gravata debaixo do sol, ou mesmo dentro da mata. Na selva que é essa cidade, tão cinza, no peso das costas que vejo em você, mas vejo que você me pisa. Não consigo me encontrar, não acho. E lembro o quanto gosto de seguir, de olhar pra frente, de fazer o certo. Eu gosto da rotina menos que do espontâneo, mas o ocasional só existe se o primeiro lhe der base. Quem haverá de quebrar a rotina se não estiver dentro dela? Que violoncelista você conhece daquele grupo de pagode? E trago mais de dentro dessa jarra: lembro do dia em que percebi a força da luta. A luta é muito mais do que essa preguiça boa, esse cochilo de tarde, essa mórbida calma. Acho que levar um tiro no peito na esquina da Brasil é mais interessante que aquele infarto aos 80. Com ou sem você.

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