quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O grande encontro (Parte III)



Respirei.

- Tá certo. Vamos devagar, o que você quer de mim? - questionei com humildade.
- Quero te trazer de volta. Pois sei que você está sentindo falta disso, de tudo o que você sabe que é, de tudo o que já foi - em qualquer das épocas que tenha vivido - e não tem mais conseguido por causa de tanta poluição aí, nessa sua cabeça.

Respirei de novo. Acho que estava me acostumando com a idéia de estar em um papo "a sós comigo mesmo", comecei a ficar mais a vontade, embora ainda um pouco amedrontado. Respirei fundo e fixei meu olhar em cada um dos traços de seu (ou de meu, como quisesse) rosto: um rosto quadrado, de homem, com um desenho definido. Quase um personagem de gibi, o rosto de qualquer um destes super-heróis, sabe como é? E depois fui ainda mais fundo: sombrancelhas milimetricamente grossas, olhos baixos, como quem só focaliza, não abrange. Talvez eu seja mesmo um pouco assim. O nariz talvez grande olhando de perfil, mas não do ângulo que eu estava. E aqueles traços ao lado da boca seguindo até a maçã do rosto, de quem esboça sorrisos mas não muito os aprecia. Olhei para minha boca: gosto dela também, quando quero. Quando sorrio a vejo perdendo qualquer poder que um dia pudesse ter existido. Resta então o último traço, o contorno externo das bochechas alongando até o queixo, com uma fenda tão milimetricamente desenhada como as sombrancelhas. Nem lembrei de como sou detalhista.

- É, meus parabéns. Você está entendendo bem o que eu quero lhe dizer - afirmou com toda a firmeza e serenidade combinadas.
- Sim, talvez sim. Obrigado por ter vindo, nem eu achei que estivesse precisando tanto.
- Seu narcisista de merda! Eu não precisaria ter vindo para isso, você tem espelho para satisfazer seu ego. Deixa esse papo furado pra lá, e me responde de uma vez...

Assustei. Nem eu achei que tivesse tanto punho, tanta potência e persuasão. Eu me convenci, que sensação mais esquisita. Fixei seu rosto por completo, quando me perguntou com a mesma expressão séria e firme:

- Do que você tem medo?

Um comentário:

Gabriel Bedin Slevinski disse...

Interessante e criativa trama..
Parabéns..