quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Se tudo correr

Corre o tempo atrás de mim
feito um leão esfomeado
Corro eu atrás do tempo
Corro, feito o tal coelho
"Eu estou atrasado"

Faço da hora corrente
Mil minutos perdidos
E por aí, pela frente
Ao perigo veemente
Pesares escondidos

Se permaneço deitado
Logo me vejo aflito
Do mundo, então afastado
E por rancor, exilado
Pelo provável delito

Porém ao sair de casa
Sinal da cruz, amém
Nem vou olhar pros lados
Só serei abençoado
Se tudo correr bem

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ouro

Gosto de aparecer assim, quando tudo parece perdido. Me vejo as vezes isolado, quase que indeciso se vou ou se fico, e mais uma série de diferenças entre tantos e tantos maiores que eu. Alguns olhares despertam atenção para minha aparência, alguns pedem minha aparição assim, logo de cara, como se ninguém ainda estivesse ali, e eu chegasse chegando. Gosto de surpreender, de despertar misteriosos desejos, de instigar o poder até daqueles mais fracos, que se vêem fortes em qualquer momento de sorte. Sou, muitas vezes, o mais tímido. Faço do inimigo minha principal arma, aqueles mais fortes entre os menos potentes. Mas quando chega alguém assim, de preto e que se faz presente, logo abro o jogo e digo: Não posso! Sou fraco demais para isso.

Mas quando fico para as últimas, aí sim é que provoco tentações. Sou tão singelo que causo risos, pois ninguém consegue me segurar. Morro, mas não empato. Capivara no barranco: sou dos fortes, o mais fraco.

Não ouse blefar, porque eu perco. Não confie em mim! E se eu saio em qualquer rodada e alguém ousa: Truco! Corta esse pica fumo e pronto, estou morto. Morro, mas não empato.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Coisas da vida




"Eu não tenho nada pra dizer
Por isso digo
Que eu não tenho muito o que perder
Por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer
Por isso sonho"

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Família



Existem certas coisas que me deixam emocionado. Por ser assim, um tanto quanto emocional dentro do cartesiano, não consigo me conter. E assim aconteceu ao encontrá-los.
Sempre tive um grande carinho por essas duas irmãs. Belíssimas as duas, jovens, e de sorriso espontâneo, quase que puro. Sincero. Minhas duas “primas distantes”, como nós mesmos costumávamos brincar, são pessoas queridas das quais sempre senti uma saudade imensa. Quase que inexplicável, tal imensurável sentimento. Quando descobri que realmente poderia vê-las, isso me pareceu quase um susto. Taquicardia, disritmia, e todas essas outras falhas deste pobre coração sofrido. Até que enfim eu estava ali.
A demora na rodoviária foi quase que um martírio, todas as ações ocorrendo no tempo certo. Eu cheguei naquela terra e lá estava a esperar. E ela chegou: Linda, loira e sempre, sempre charmosa. Minha prima distante, agora ali tão próxima, na minha frente. Ela, e só ela. Que emoção, que coisa boa, que presente para uma fase tão difícil!
Havia tanta coisa pra falar que o melhor a se fazer, na hora, foi calar. Calar e deixar chegar, havia tempo, e até ânsia! Recíproca e intensa ânsia de saber como o outro estava. Saber o que aconteceu desde o dia da partida. Dela.
Saímos dali, ela conduzindo. E ao chegar naquele belo lugar, foi que encontrei: A irmã, a mais nova e não menos importante, e seu futuro marido. O abraço foi longo e intenso, puro, emotivo. Me segurei para não me desfazer, para não chorar, ali em sua frente. Estava estonteantemente bonita, com aquele olhar de sempre. Aquele de quem se pode confiar, que acolhe e conforta em qualquer circunstância.
Feliz também ao conhecê-lo, o futuro marido. Aquele a quem entrego uma das jóias mais raras da vida, preciosa e cheia de brilho. Seu brilho, único.
Após tal grande encontro, coisas maravilhosas. Dias infelizmente curtíssimos porém de intensidade inigualável. Por Deus, e ainda nem falei do irmão mais novo!
Quando elas foram embora, tinham um irmão mais novo. Baixinho e gordinho, uma criança, é claro. Agora ao encontrá-las, o tempo ajudou para todos: meu priminho cresceu e estava alto, da minha altura, veja só? E bonito, tal qual as irmãs, bem criado. Uma pessoa tão boa – claro, vindo da mesma fonte – que me emocionou de verdade. Cresceu.
Meus queridos, esta é apenas uma simples forma de dizer-lhes, o quanto eu amo vocês e como me fizeram bem ao me receberem. Esta hospitalidade, este carinho e este amor com o qual sou abençoado de ter vindo dessa família maravilhosa, não se pode encontrar em qualquer lugar. Parabéns por essa simplicidade que move vocês, sem dúvida alguma, para qualquer lugar que desejarem. A mesma que os levou até aí, acreditem. Se hoje vocês estão tão bem, é por esforço próprio e por toda essa vontade e crença naquilo que há de mais belo que é o amor.
Obrigado pelo imenso carinho, e por essa existência que me fez chorar – mesmo que ali, escondido – ao ir embora daí. Desculpem se não pude ficar o tempo que desejavam, se não pude conversar o tanto que eu gostaria de tê-lo feito, e se não pude dar a atenção equilibrada a cada um de vocês. Desculpem pela bagunça, mas embora dentro dessa seriedade toda, eu sou assim mesmo.
Gostaria que todos vocês lessem este texto, pois veio do que há de melhor em mim, para dar a vocês como forma de retribuição. Mesmo que não seja necessária qualquer troca, nada do que eu faça vai ser suficiente para dizer, no mais alto dos volumes, o quanto fiquei feliz por tudo o que fazem, e por tudo o que são, para este primo distante.
Metida, parabéns pelo seu aniversário. O aniversário foi seu, mas quem ganhou presente fui eu. Que você possa ser mais e mais feliz com este belo sorriso e usando o mesmo bom perfume a cada dia, deste novo ano de vida.
Bonita, parabéns pelo bom partido. É um bom homem e só me deixou mais feliz por poder confiar a alguém assim o carinho que tenho por você, que será sim, mais que suficiente.
Rapaz, não há nada que eu possa dizer que não envolva a palavra: sucesso! És um menino fantástico, com um ar de artista e com a simplicidade do mais humilde tocador. Que continue a trilhar belos caminhos, orientado por essas duas peças raríssimas que estão ao seu lado.
“Tios”, que mesmo não sendo: Obrigado. Primeiramente obrigado por tudo o que foram para mim, e por tudo o que ainda serão. No colo de vocês, me senti menino, me senti homem, me senti primo e me senti filho. Obrigado por me proporcionarem momentos tão felizes. E em segundo lugar, porém não menos importante: Meus sinceros parabéns. Porque sendo assim, tão bons, é que fazem estas crianças dignas de tudo o que há de melhor na vida. Se os três são assim, tão belos, a culpa é toda de vocês!

Um forte abraço, com muita tristeza por essa ausência.

Do seu primo distante, que até joga baralho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Valsa magra

Tudo vai se esvaecendo assim de um jeito tão estranho.
Gestos, falas e gracejos, dias que não vão chegar.
Tudo passa, já está longe, e assim, nós, pra onde vamos?
Se o pouco que nos resta é o tempo da não-paz.
Há um mundo inteiro solto, de verdades ou conselhos.
Há um sonho que ficou pra trás, trancado porta a fora.
Deixa o que não presta ali, tomando chuva, no alpendre.
Deixa o que presta lá, junto, pois eles não se separam.
Lembra do que era tão ruim, esquece o que lhe agradava.
Lembra não-mais de nada pois o que mesmo te importa?
Se o que queres é vida e o que buscas flutua.
Se o que não buscas é isso e isso é o que te rodeia.
E dentro da valsa magra cabem vinte cigarros,
já dentro do roque gordo o que resta é o teu desprezo.
Pra que essa marca intangível do pretérito imperfeito,
enfim um dia apareça, como meu, então, defeito.

domingo, 4 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Maldição Eterna

“Alô?”

“Oi. Sou eu.”

Só pessoas que têm ou recentemente tiveram uma relação especial com a gente podem se apresentar dessa forma. Sem dizer o nome. Demora um bom tempo até que a gente esqueça o som de determinadas vozes. Por isso, declinar o nome, pelo menos por um período, é perda de tempo.

“Oi, Nadja. Tudo bem?”

Era ela. Nadja, meu amor perdido. Eu sempre quis falar coisas inteligentes para Nadja, bem diferentes de um simples “tudo bem?”. Sempre quis impressioná-la com falas cinematográficas. Hoje vejo como isso foi ruim para o nosso romance. Eu deveria ter acreditado que ela pudesse gostar de mim como eu sou mesmo, com minhas frases banais e gramaticalmente manquitolas. Uma relação em que você se sinta na obrigação de parecer melhor do que é não pode ter um futuro muito brilhante.

“Fabio, eu queria escrever um texto sobre a minha verdade. A minha versão sobre o fim do nosso romance. Você já apresentou, nos seus textos, a sua verdade. Não acho muito justo. Aliás, não acho nada justo.” (Ela frisou o “nada” esticando deliciosamente a primeira sílaba. É uma das pequenas coisas que mais me trazem saudade. Me ocorre o seguinte pensamento: a saudade das pequenas coisas dói ainda mais que a saudade das grandes coisas.)

“O que você está querendo é inusual, Nadja. Posso adiantar que…”

“Não me adiante nada, Fabio.”

Nadja jamais tivera muita paciência com embromações. Daí o corte abrupto de minha frase. Num momento isso me encantou. Depois confesso que senti falta, em Nadja, de uma dose um pouco maior de paciência. Pelo menos comigo. É curioso, nas relações, como muitas coisas que vemos no começo como virtudes no outro ou na outra se transformam depois, aos nossos olhos, em defeitos. O tempo é cruel como um velho cossaco russo.

“Eu quero expor o meu lado. Fabio, você sempre foi imaturo. Extremamente imaturo. Você gosta do amor impossível. Você gosta da fantasia, não da realidade. Você não deu certo comigo por mais que eu amasse você. Você não deu certo com a Constância por mais que ela amasse você. Será que você percebe que não dá certo com ninguém? Quando será que você vai crescer, Fabio? É isso que eu quero escrever no artigo. Você é um embuste, Fabio. Alô, você está aí?”

Ela queria uma prova de que seu golpes verbais estavam doendo. E eu dei, talvez por uma espécie de gentileza póstuma.

“Sim. Pode ir em frente, Nadja.” (Recentemente li numa revista americana que a melhor coisa que você pode fazer quando se vê numa conversa destruidora com sua namorada é encerrar essa conversa enquanto os danos não são tão grandes assim. Infelizmente, em relação a Nadja, só li depois de um número considerável de conversas pesadas.)

“Você me atirou para fora de sua vida com esse comportamento infantil, Fabio. E me atirou para os braços de outro homem. Bem melhor, aliás, que você, Fabio. Principalmente naquilo.”

Naquilo? Um dos maiores temores de um homem é que seu sucessor seja melhor que ele naquilo. O ideal seria que nossos sucessores fizessem tudo – cantar, escrever poesias, ganhar dinheiro, eventualmente até dar uns beijos -, menos aquilo.

“Fabio. Eu… eu…”

Passou pela minha cabeça a possibilidade de que ela completasse a frase assim: “… amo você”.

“… eu odeio você. Quero que você se ferre.”

Nadja me odeia e eu aceito que seja assim. O grande amor só é grande amor se terminar em maldição eterna.