quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Nós



Eu... sei que me disseram por aí
E foi pessoa séria quem falou
Você tava mais querendo era me ver passar por aí

Eu... sei que você disse por aí
Que não tava muito bem seu novo amor
Você tava mais querendo era me ver passar por aí

Pois é...
Esse samba é pra você, ó, meu amor
Esse samba é pra você
Que me fez sorrir, que me fez chorar
Que me fez sonhar, que me fez feliz
Que me fez amar

Eu... sei que me disseram por aí
E foi pessoa séria quem falou
Você tava mais querendo era me ouvir cantar por aí

Eu... sei que você disse por aí
Que não tava muito bem seu novo amor
Você tava mais querendo era me ver passar por ai

Pois, é...
Esse samba é pra você, ó meu amor
Esse samba é pra você
Que me fez sorrir, que me fez chorar
Que me fez sonhar, que me fez feliz
Que me fez amar

Pois é...
Esse samba é pra você, ó meu amor
Essa samba é pra você
Pra você sorrir, pra você chorar
Pra você sonhar, pra você feliz
Pra você amar!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Just one more time


Quando cheguei, logo o vi.
Sabia que havia algo errado. O que este cara está fazendo aqui? - pensei. Ele era mesmo muito perigoso para participar de uma festa dessas. Talvez convidado de alguém - que não deveria nem mesmo imaginar o quão terrível seria trazer este tremendo filho da puta (com o perdão do termo, não tem como ser diferente) para este lugar.
Segui com meus falsos sorrisos e minha politicagem aguçada. Há quem me chame de gentleman, há quem me chame de rato sujo. Depende da perspectiva, é claro.
Conversas e paladares em frente, fiz o que deveria ser feito. Quando de repente, em meio às comemorações dos embriagados executivos, o mais verme dos vermes chega e olha nos meus olhos. Respirei fundo e procurei manter a calma, até que ele disse:
 - E a Cristina, como está?
No mesmo momento, segurei firme em seu colarinho e com toda minha força o conduzi a deitar-se no chão, atingindo sua cabeça no pé de uma mesa.
O homem em minhas mãos agarrou uma garrafa que estava no chão e a acertou contra minha cabeça, que me fez mover para trás e levar minha mão contra a parte dolorida. Olhei para a ponta dos meus dedos: sangue.
Não resisti. Todas as pessoas já gritavam e isso fez com que meus instintos se esquentassem: levei as mãos para dentro do colete, retirei a pistola e apontei contra seu pescoço, encostando naquela pele imunda e pressionando. Com toda força nas mãos, a expressão de um demônio e o cão armado, gritei:
 - Abra mais uma vez a boca para falar de Cristina, só mais uma vez!
 - E a Cristina, como...
Atirei.
O cartucho foi arremessado.
Mais um metro quadrado sujo de sangue. Mais um ambiente limpo.
Fim.




 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Neverland

Preciso respirar.

Deixei a selva de lado, quase que fechei as portas daquele lugar por um longo tempo.

E agora, após um tornado que passou arrebentando com tudo e me levou junto com os destroços, caio no chão frente ao portal que me leva ao meu habitat natural.

Me apoio em meu machado, precisamente desenhado para minhas mãos finas, e logo estou em pé, um pouco curvado, ouvindo aquele som. De novo.

Olho para o portal e vejo a bagunça na selva: tudo ficou desordenado desde que parti.

Os pensamentos mais intensos se camuflaram, e só pude mesmo identificá-los pois eu os conheço bem. As loucuras então, estavam todas à solta procurando o seu Lenhador para se alojarem: sem sucesso. Os medos começaram a dominar o local com seus exércitos poderosos, devastando qualquer vestígio de lucidez que encontravam pela frente.

Quando parei, percebi que estava no meio: nem na selva, nem no mundo real. E então toda uma desordem começou e é esta que ainda não acabou, que me traz de volta aqui todo santo dia.

Ao ver que o portal se abriu, cipós de espontaneidade grudaram em meu corpo e começaram a limpar certa timidez que quase me cobriu. Junto deles, o manto da intelectualidade me cobriu, tapando minha visão por um tempo. E foi debaixo deste manto que pude ouvir calmamente aquela voz: "você de volta?"

De repente me soltaram, e dois soldados de luz me trouxeram a espada da liberdade e o escudo de acidez que me fez tanta falta durante este tempo: no escudo refletia o brilho dos meus olhos, quase que me reconheci.

Eis que olhei para trás e minha visão ficou turva, seria vertigem? Desequilibrei, e a ansiedade tomou conta do meu coração tão calmo, me causando dores de estômago e disritmia. Um vento de confusão vindo por trás ameaçou me derrubar, mas só pude me fazer mais forte, quando olhei ao lado do portal e vi aquela placa de madeira, onde foi talhado o nome do local que sempre me refugiou. Foi então que eu vi que estava de volta, e que deveria mesmo olhar pra frente.

Fiz o sinal da cruz, e recebi a máscara da solidão, que tampa o poder do meu olhar assim para qualquer pessoa.

Ouço: bem vindo de volta, Lenhador Machado.

Agradeço.

Agora só preciso mesmo é me convencer.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

União

 - "Toda classe é desunida, exceto a dos Advogados"
 - Essa frase é boa! É sabedoria popular?
 - É nada, inventei agora.

Toda a espontaneidade e criatividade de Cléber Violin.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010



Venta muito aqui esta noite. Adoro o vento, mas hoje está muito, e então não aguentei e fechei a vidraça.
Agora, pelos vãos dos vidros, ouço o vento cantar. A música que ele acompanha é "Moonlight Sonata", de Beethoven. Parecem entrar em sintonia assustadora de tom e ritmo, alucinando minha capacidade de raciocinar. Em lapsos, ela desaparece e aparece tão rapidamente quanto relâmpago.

Dor.

Hoje estou sentindo a dor mais forte, mais que nos outros dias. Este encontro comigo mesmo, de tão arrepiante que me faz bem, perfura minha vida até alcançar minha alma, rasga meu peito e invade até onde pode. Dilacera e faz que vai matar. E eu aceito. Eu preciso renascer.

Não imaginava que seria tão, tão forte. Conhecer a sensação não me livra do impacto, e me prova que o reconhecimento é sempre mais difícil que a descoberta. O medo de encontrar de novo é sempre maior que o medo do novo.
 
Descarrego a arma e deixo as balas no criado, enquanto a aponto com o cão armado para as portas do guarda-roupa. Click. Testo meu olho mestre, meu respirar e meu perceber. Ainda sim armo novamente, enfio a arma em minha boca e atiro. Clack. Será que eu teria coragem?

Não me sinto psicológicamente preparado para diversas coisas. Ouvir determinadas músicas pode desafiar minha tendência ao suicídio, bem como perder para o sono pode significar minha própria sentença. Assinada pelas minhas mãos que ainda são suaves.

Fecho os olhos e faço uma oração. Peço que Deus alivie minha angústia e me conduza a entender os sinais que me são mostrados pelo caminho. Peço a Deus a paz, a universal. Ele tenta, eu sei. Mas me diz que não depende só Dele e eu acredito. Não é com bazuca que se mata formiga.

Ao levantar a cabeça, tomo o último gole de uísque e sinto as dores dos pontos que me foram arrancados. Por mais contrastante que pareça, o vento agora sopra "Voyage Voyage", com a harmonização mais triste que pode ter.

Eu triste, eu só.

Eu mesmo.

Bem vindo de volta.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mud@nç@s @contecem

Recebi um vídeo com este conteúdo. Deve ser velho (nem tanto), não sei bem. Nem sei o autor. Mas o conteúdo é, sim, incrível.

Vejam:

Você sabia que os meios de comunicação, a informática e a Internet estão globalizando e mudando nosso mundo?
Quem disse que tamanho não importa?

Países grandes vêm se tornando cada vez mais importantes no cenário mundial.
A população mundial hoje ultrapassa 6,6 bilhões de pessoas.
20% destas pessoas estão na China
17% na Índia

Juntos, estes dois países têm mais de 1/3 da população mundial.
Se considerarmos apenas os 16% mais inteligentes da Índia, teremos mais pessoas do que toda a população do Brasil.
Da China precisaríamos apenas de 14%.
Ou seja: há mais pessoas inteligentes na China ou na Índia do que pessoas no Brasil.

Enquanto você lê essas informações:
30 bebês nasceram no Brasil

244 bebês nasceram na China

351 bebês nasceram na Ìndia

Em breve, a China será o país que mais fala inglês no mundo.
Adivinhe que país é este?:

- O mais rico do mundo
- Com o maior exército
- Centro mundial de negócios e finanças
- Com o melhor sistema de educação
- Líder em inovação e invenções
- O modelo mundial de valor
- Com o melhor padrão de vida
Inglaterra, em 1900.

Você sabia que nos Estados Unidos, mais da metade dos profissionais trabalha há menos de cinco anos na mesma empresa?
Somente 25% dos profissionais permanecem na mesma empresa por mais de um ano.
Segundo a ONU, os estudantes de hoje passarão por 10 à 14 empregos até os 38 anos de idade.
Você sabia que as dez profissões que serão indispensáveis em 2010 sequer existiam em 2004?
Ou seja: estamos preparando estudantes para profissões que ainda não existem, que usarão tecnologias que ainda não foram inventadas para resolver problemas que ainda nem sabemos que existem.
As pessoas estão indo cada vez mais para a Internet.
Você sabia que no ano passado, nos Estados Unidos, um em cada oito casais se conheceu pela Internet?
Que há mais de 300 milhões de usuários no Facebook?
Você sabia que 2,7 bilhões de perguntas são feitas ao Google a cada mês?

Para quem perguntávamos estas coisas A.G.? (antes do Google)?

Estamos vivendo tempos exponenciais!
Você sabia que o número de mensagens de texto transmitidas todos os dias excede a população do planeta?
Existem hoje cerca de 540.000 palavras na língua inglesa. Isso é cerca de 5 vezes mais do que havia na época de Shakespeare.
Mais de 3.000 novos livros são publicados diariamente.
Estima-se que a quantidade de nova informação gerada no mundo este ano é maior do que a acumulada nos últimos 5.000 anos.
A quantidade de informação técnica nova dobra a cada 2 anos.
Para os estudantes, isso significa que metade do que se aprende no primeiro ano da Faculdade estará ultrapassado no terceiro ano.
Estudos prevêem que em 2010 o conhecimento humano dobrará a cada 72 horas.

Isto significa que todo profissional precisa se atualizar sempre.

A informação está cada vez mais nos meios digitais.
Fibras óticas de terceira geração, recentemente testadas pela NEC e Alcatel, conduzem 10 trilhões de bits por segundo em um único fio.

Isso equivale a 1.900 CDs ou 150 milhões de ligações telefônicas simultâneas a cada segundo.

A cada 6 meses, este número triplica.
Já existem cabos e fibras suficientes. O que se faz hoje é apenas melhorar as conexões.E o custo dessas melhorias é praticamente zero.
Tudo isso indica que, muito em breve, o papel eletrônico estará mais barato que o papel real.

Você sabia que 47 milhões de laptops foram comercializados no mundo no ano passado?
Há previsões que em 2022 haverá um supercomputador que excederá a capacidade computacional do cérebro humano.
Enquanto é difícil fazer previsões tecnológicas para além dos próximos 15 anos, não é difícil prever que em 2050 um computador excederá a capacidade computacional da espécie humana.
O que tudo isso significa?
Mud@nç@as @contecem

Agora você sabe!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Por que as palavras?



 
Somente com as palavras é que consegui me dar bem.
Porque não há relação melhor entre você e você mesmo, que por meio de palavras. Os pensamentos vêm e vão rápido demais, o suficiente para não te dar chance de pegá-los. As imagens se perdem com o tempo, são subtituídas por outras, e a vida torna-se tão mais rápida a cada dia que passa que logo, logo, já foi embora.
Mas as palavras, não. Elas ficam.
Ficam quando se ouve, ficam quando se fala. Ficam quando se escreve, quando se lê, quando se guarda ou até quando se joga fora. Ficam, cravadas, apunhaladas.
Escolhi as palavras quando percebi a força que possuiam (e que possuem). É uma pena que poucos saibam de verdade sua potência, seu alcance e precisão. Escolhi as palavras porque podia usá-las tanto para o bem como para o mal. E nas próprias palavras podia escolher como ia ser: se ia acariciar, tocar, desejar, transar, amar ou; se ia atirar, flechar, agredir, humilhar, matar. Com palavras.
Resolvi arcar com as consequências: com as palavras, eu vi que também podia morrer. Podia morrer e morria, todos os dias, sem quase ninguém perceber. Nem sempre quem usa as palavras, sabe se optou mesmo por elas.
Por fim, escolhi as palavras porque delas pude criar estórias. Pude criar, e crio! Novos lugares, contextos, situações e emoções feitas de letras e rimas, de frases, sentenças, diálogos de travessão! E nas estórias, eu posso ser quem eu quiser, posso fazer o que quiser, e posso dar a mim as consequências das escolhas que eu mesmo fiz. Posso voar, posso morrer, e posso renascer de qualquer lugar.
Somente com as palavras é que consegui me dar bem.
Com as palavras, eu posso tudo.
Inclusive tornar tudo real.
Eu posso tudo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

No jogo sujo



 
" - Não é o que você sabe, filho. É o que pode provar.
 - Isso está errado, eu não atirei em ninguém!
 - Atirou, filho. Quatro oficiais viram você atirando com uma calibre 12 direto no peito dele.
 - Isto é mentira!
 - Ah é? E a corregedoria vai acreditar em quem? Em quatro oficiais experientes e renomados, ou em um novato que fumou maconha o dia inteiro?
 - Seu filho da puta, você planejou isso o dia todo!
 - Planejei a semana toda, filho. Não é o que você sabe, mas o que você pode provar."



Diálogo entre Alonzo Harris e Jake Hoyt, em Dia de Treinamento (Training Day, 2001)


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sina

Onde, se não, aqui?
Quando, se não, agora?
Com quem, se não, com você?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Corredeira

Aprendi até que cedo
Que não deveria ver
Que eles querem ensinar
Que eles querem que eu aprenda
E aprendi, além do mais
Que aquele que brinca muito
Que brinca com todo mundo
Tem problemas, meu rapaz
Tem problema, até, demais
E esconde por trás do riso
Que pensa que logo traz
Aprendi que quem ajuda
Se ajuda, ou o fará
Que não há constrangimento
Quando você afundar
Que conselho bom se vende
Que conselho bom, se nega
Se compra, troca, e se dá
Aprendi, pois, bem mais tarde
Do que deveria ter
Que precisa-se apanhar
E nem sempre, assim, bater
Aprendi que quem ensina
Nunca sabe pra valer
Vale o que quem aprende
É capaz de entender
Vale um prêmio, quem sabe
Quem minha mente invade
Pra que assim, eu aprenda
Que amar não é sofrer.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Apelo


 
Permito-me deixar que o amor exista. Se em verdade, desta vez, veio a surgir, pois que seja então este punhal a perfurar cada um dos poros do meu peito até penetrar meu coração e, veia e veia, dilacerar o que ainda resta desta estrutura que finge que é forte.

Em cada cômodo há um pouco do que é dela, e em cada canto do meu corpo resta ainda mais um pouco dela inteira. Faço que me engano, finjo que já foi, e logo me lembro do que não sai de mim, nem sairá. Lembro que eu não vou deixar, nunca mais, de queimar naquele fogo a cada manhã.

Não venço a guerra. Não tento, apelo, abro os braços e caio de joelhos frente à porta - que dei uma volta a menos na chave, na esperança te ver ali do outro lado a me chamar. Sinto que é em vão quando só o vento pelos corredores me responde um não em sua cantoria.

Em teus braços que não encontro, termino por adormecer após horas de luta. No meio da noite meu coração falha, o ar me falta, e eu acordo. Aqui, bem ao seu lado. Onde você deixou o seu amor. Onde você não está.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cheers


 
Tenho um gosto seu, em meu corpo
Tenho uma metade sua em mim
Metade, assim
De mim

Faço gosto de sentir seu cheiro
Cheiro de boca, quando respiras
Permito-me sentir-te
Em mim

Dorme em meu peito, teu lugar
E sente o perfume em minha nuca
Que a paz, hoje minha, vem
De ti

E resgato em meu lago a sorte
De ensinar-te os passos
Estrago e te curo, entro
Em ti

Que se acabe o sentir, da morte
E o mundo ecoará sonhos
Absorvamos vida, um brinde
A nós.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

No meio de tudo, você



Por um longo tempo eu vivi na sujeira. No meio dos rombos, dos restos e dos rastros, eu me alojei. Me mantive infiltrado em meio a toda aquela maldade analisando cada pedaço de gesto. E aprendendo.
Havia muitas pessoas querendo comer umas as outras. Canibalismo e sociedade andando juntos? A resposta é sim, claro, ou não haveria o primeiro. São dedos fracos em gatilhos descontrolados, gritos (e quase que cheguei, por vezes, a ouvir o ranger de dentes) cheios de hostilidade e agressão física, brutalidade crua.
E por que, isso?
A resposta também é simples: interesses.
Uma das mulheres mais cruéis que eu já conheci, certa vez, me disse: "Você considera uma pessoa legal? Dê dinheiro e poder a ela, e depois disso, conversamos", e referenciou "O poeta" como autor. Eu, um menino (que realmente era), ouvi e acreditei. Estava lá muito mais para ouvir, mesmo, do que para falar. Não tinha nada a ensinar, evidentemente.
A vida foi seguindo e a habilidade de arquitetar pensamentos, manipular idéias, mover pensamentos e atitudes em massa continou. Da mesma forma que não tenho o menor orgulho, não tenho vergonha de falar. É a verdade, e é só ela que realmente vale.
Matei, morri, todos os dias. Sem a menor pena.


Até que você apareceu.


E foi a coisa mais bonita e doce que pôde acontecer por todos estes anos. Te ver ali tão bela com teu sorriso, e esta habilidade incrível de me encantar e me cegar os olhos com teus olhos, tão, tão sinceros.
A reciprocidade do nosso olhar me desarmou. Joguei as armas no chão e chutei-as pra frente: deixei de lado todas as más intenções. Sensação de entrega mútua, de transparência, de cumplicidade.
Conforme os momentos entre nós foram ficando cada vez mais intensos, percebi que você era mesmo um coquetel delicioso de tudo aquilo que eu precisava para mim. Melhor: era mais do que isso, porque as sensações que passei a sentir, jamais pensei que existissem.


Tudo virou de cabeça para baixo. Minha vida ganhou uma paz sem tamanho, e eu caminho pelas ruas sentindo a brisa e sorrindo tranquilidade por dentro. Eu tenho você.
Entretanto, infelizmente, aquela sujeira me contaminou e corre em meu sangue sem titubear. E em alguns momentos, no meio da paz, minha cabeça se confunde e começa a criar novas realidades, distorcer os fatos, ofuscar o brilho do amor.

E é aí que eu preciso olhar nos seus olhos, assim, bem de perto. E ouvir tua voz.



"(...) você, me salva da selva, me salva da selva."
(Engenheiros do Hawaii)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A boca e a palavra

 - Meu cabelo está embaraçado...
 - Como?
 - Meu cabelo...
 - O que tem?
 - Está embaraçado.
 - Está o que?
 - Embaraçado!
 - Fala de novo?
 - Por que?
 - Que delícia ver sua boca falando essa palavra: Embaraçado, embaraçado, embaraçado...
 - Ai, para!
 - É verdade! Duvida?
 - Bobo...eu te amo!
 - Eu te amo!
 - E digo mais...
 - Ahn?
 - Meu cabelo...
 - O que tem?
 - Está embaraçado, embaraçado, embaraçado...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bandidos

Atirei.

E sei que não foi por defesa, ah, como sei. Só eu sei.

Mas fiz como se tivesse sido e deu certo, até porque, estou aqui agora. Sétimo andar, frente a outros sétimos andares, acima de todos, e abaixo de um só.

Eu, e ele: meu uísque. O negro dos caminhantes. O meu preferido.

Eu andava sozinho, indo pra casa, naquela noite. Caminhava tranquilamente, embora ja fosse tarde, eu sabia que estaria tudo bem.

Foi quando percebi que errei o cálculo: a rua que eu tinha que descer não era esta, era aquela ali de trás. Até dava pra voltar, mas sabe como é, meus métodos não me deixaram andar pra trás. Sempre fui contra, sempre.

Eis que desci: Rua das Orquídeas, só eu sei como vou me lembrar bem deste nome. Nunca escolho esta rua exatamente pelo motivo mais óbvio: é escura, tem árvores, e na ponte - uma baixada perto de um rio, destes - fica ainda mais escuro e estranho o ambiente. Sempre preferi evitar.

Senti aquele vento frio vindo do rio como ja era de se esperar. Meu terno me protege do vento, mas não me tampa o rosto. E continuei a caminhar até que enxerguei um grupo de pessoas que estavam sentadas logo após a ponte. O que fazem algumas pessoas, tarde da noite, perto do vento frio que vem do rio? Justo ali?

Havia alguma coisa errada.

Continuei a caminhar e, desta vez, fiz o sinal da cruz. Sabia que precisaria dele.

Quando fui chegando perto da ponte percebi que as pessoas se levantaram e começaram a caminhar em minha direção, também entrando na ponte. E a ponte é um lugar perfeito para qualquer abordagem: não tem saída. Não estamos em um filme, não vou pular no rio, nem eles.

Então, pude ver com mais detalhes: eram três homens e duas mulheres. Tive menos dúvida ainda quando um deles gritou: Ei, você aí, solte a maleta!

Não obedeci, e continuei caminhando na direção do grupo. Ainda não estava perto.
 - Solte a maleta ou nós vamos até aí pegar! E não adianta correr, não!

De alguma maneira não senti medo. Eu não tenho medo da morte, e a morte seria o pior que poderia me acontecer ali. Apenas diminui o ritmo, até que parei: Estático e ereto. A maleta, que estava na mão direita, deixei lentamente no chão, e cruzei os braços. Ousei gritar:

 - Deixem-me ir. Estou em paz.

Pensei em ser mais hostil, mas não sabia o que me aguardava. Melhor não arriscar.

 - A gente só quer a maleta, e dinheiro! Passa tudo, vai, vai, vai! - outro deles, gritou.

Ladrões. Tenho raiva de ladrões. Não sou policial, mas não gosto de bandidos.

 - Deixem-me ir, agora! Não vou entregar nada! - eu sabia que era hora da ousadia.

Ao terminar de falar, percebi um sinal de um dos rapazes para as moças, e elas tiraram algo brilhante dos bolsos. Percebi no reflexo que os objetos tinham com a luz da lua e dos postes distantes. Facas, pensei. Pensei, e não pensei duas vezes:

 - Chega!

Meus braços descruzaram já com as duas pistolas que levo por dentro do terno. Atirei três, quatro, cinco vezes. Acertei as duas moças com as facas e um dos rapazes, enquanto os outros corriam. Todos gritavam. Abaixei a arma para meu coração se acalmar, e após uma nova respirada, retomei a mira e atirei mais quatro vezes. Dois doces para cada um ir para o inferno.

O cheiro de fumaça tomou minha mente, que se aliviou na hora. Se não havia dor, eu não levei nenhum tiro.

Fiz o sinal da cruz, peguei de volta a mala, e caminhei pela rua novamente. Corpos no chão, ali ficaram, não sou da polícia, repito.

Mas não gosto de bandidos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bilhetes


Minha vida, e rotina
Estão sancionadas
aos velhos bilhetes
Bilhetes que mando,
bilhetes que escrevo
Mas, bem mais que eles,
Os, tais, que recebo

Nem bem amanhece, e na padaria
Sou o vinte e sete, e espero na fila
Entrego pra moça, e faço meu pedido
Me entrego à sequência,
Ja sou atendido.

E é claro, eu preciso resolver problemas
Daqueles que a gente bem sabe que tem
Se eu ligo me informam, com vozes amenas
O seu protocolo é o dois mil e cem.

Já fui vinte e sete, e pulei pro dois mil
Crescer fácil, fácil, é o que a gente tenta
Mas são só algarismos, que ordenam a vida
Que será de mim? Três, nove? Quarenta?

Eu ouço os jornais, nas ruas, nos bares
Milhões de pessoas cruzam a cidade
E eu lá no meio, sobre o mesmo chão
Sou só uma vez
Que o tal, contador
Apertou um botão

E temo que um dia, os tais bilhetinhos
Que tanto enviei, bic em guardanapos
Sejam resumidos a míseros números
Pra contar pessoas
Marcar caipirinhas
E só resumir os amores aos trapos

Quem é o próximo?

domingo, 14 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Então

Esta estória está esfriando
e este enigma, esquentando.
Enquanto eu espero e encanto
E ela engana-me, escutando.

Eu ecoo em esperança
E, eclético, extasio
Economizando estâncias
Eu elevo e, enfim, ensino

Este eclair, excitação
Entre encontros e explosões
Eu expiro emoção
E então
Entrego-te estações

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Devil in Disguise

Para ouvir, cantar, e fazer o movimento com os bracinhos pra cima: dois pra lá, dois pra cá!



Devil in Disguise
by Elvis Presley

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

You fooled me with your kisses
You cheated and you schemed
Heaven knows how you lied to me
You're not the way you seemed

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

I thought that I was in heaven
But I was sure surprised
Heaven help me, I didn't see
The devil in your eyes

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Away, away



Era de manhã, no comecinho do final de semana. A família saiu em peso de casa, sentido interior: precisavam de férias, e sabiam disso. Resolveram arriscar uma viagem destas de feriado, mesmo que buscando aquele relaxar momentâneo, afinal, a vida é ou não feita de uma sequência de momentos, todos coladinhos assim, um atrás do outro?

Então pegaram a estrada. O dia se lançava com um sol gostoso, e o vento que entrava pelo vidro quase chegava a incomodar as crianças no banco de trás, porém nada tão frio assim. Se sentiam bem, todos eles, por fugirem um pouco daquela loucura que é o dia-a-dia.

Em uma destas cidades do interior que entraram, visualizaram um hotel. Era um bairro estilo americano: calçadas bem definidas com seus jardins, e o hotel quase que no meio do quarteirão, com uma espécie de passarela até chegar no mesmo. Um prédio amarelo com detalhes em marrom, parecia ser novo, e bonito.

O filho resolveu entrar enquanto a família esperava no carro. Entrou no hotel e a sala da recepção era diferente: tinha um teto baixo, que até o fez se sentir incomodado. Chegou até o balcão da recepção e foi abordado por um destes atendentes bem uniformizados:

 - Você não pode ficar, com licença
 - Como assim? - indagou o rapaz - Você não pode me dar uma informação?
 - Por ali, senhor.

E indicou um outro balcão, onde estava um outro rapaz de uniforme. Ao chegar mais perto do balcão, visualizou um tipo meio estranho ao lado direito. Um homem com um chapéu marrom e pequeno, vestindo bege e uma calça jeans, tinha um olhar diferente, desconfiado. Ao olhar para a outra porta à extrema esquerda, entraram mais dois homens feios e vestidos mais ou menos da mesma forma.

Após um rápido instante, o homem à direita do balcão sacou da cintura uma arma, e sem pestanejar levantou a mão direita, armada, e atirou! Uma, duas vezes. E o primeiro pensamento que veio em sua cabeça foi sua família, que estava lá no carro, sem nem imaginar o que poderia estar ocorrendo.

Saiu correndo pela porta dos fundos e teve de dar a volta no prédio, o que levaria tempo, logo presumiu. Pensou em sacar o celular e ligar para alguém do carro, mas quando avistou a cena era tarde demais: dois homens saíram pela porta da frente e atiraram continuamente em direção ao carro.

Quando viram que o rapaz se aproximava correndo, viraram em sua direção e atiraram também nele, que pulou no chão atrás de uma lixeira. O coração começou a bater mais forte, e mais forte ainda.

Profundamente, respirou.

Acordei.

domingo, 31 de outubro de 2010

Fragmento


Naquela noite, quase deu tudo errado. Quase. Ainda bem.
Após todos os contra-tempos já estávamos lá, confortáveis, no sofá que servia de oásis para nossos sonhos. Foi quando depois de alguns beijos apaixonados, ela adormeceu em meu colo, e como um anjo respirava com tranquilidade e se ajeitava até encontrar uma posição que passaria a noite toda.
Antes que isso acontecesse, a peguei no colo e levei até a cama. E foi só o tempo de deixá-la ali na cama, para que ela já reconhecesse o nosso cheiro. Levei o edredon dos pés da cama até a linha de seus ombros, para protegê-la da noite fria, e dei um beijo em seu rosto. Dormindo, ela sorriu, e entendi a resposta: "Boa noite".
Por alguns minutos ainda mantive os olhos naquela que seria, fosse o fato de eu não conhecer meu futuro, a mulher da minha vida. E quando o sono chegou pude deitar-me com cuidado ao seu lado, e sem deixar que acordasse, sussurei em seu ouvido:
 - "Você é especial".
E um fragmento deste surge, a cada noite.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

It Worths


(...)

Então ela saiu do banho e andou até a sala, onde eu estava ali sentado, pensando na vida. Ao vê-la chegar pelo corredor, senti seu perfume gostoso de banho tomado, misturado com o cheiro de shampoo do vapor quente espalhado pelo ar que acariciava seus cabelos negros, bem bem pretinhos, cada um dos longos fios. 
Com aquele sorriso que só Deus sabe porque fez estar ali, em minha frente, ela sentou-se ao meu lado, acalmou seu vestidinho curto e disse:
 - Demorei?

Olhei bem em seus olhos. Pretos, como os cabelos, com aquele tom de castanho por dentro, feito os meus. E após um suspiro, respondi:
 - Qualquer espera, por você, vale a pena.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Guilty as Charged

(Imagem: Columbia Pictures)

por Dewey Cox

Good Morning, your honor
May I Approach the bench?

I don't give a damn what anyone thinks
I stay up all night and I smoke and I drink
I'm a wanted man and I'm blowin town
Don't waste your time tryin' to hunt me down
The cops are sayin I belong behind bars
And I'm Guilty
I'm Guilty as Charged

I ain't ever lost a fight in my life
I'll send you home crying to your fat and ugly wife
If you don't believe me when I tell you this
Well let me introduce you to my rock hard fist
If you're accusing me of living too hard
Then I'm Guilty
I'm Guilty as Charged

I ain't asking God to forgive my sins
Take a Good Look and you'll know where I've been
I'm dancing with the devil every night and everyday
People pay attention to the things that I say

I don't need anybody's help to rise above it
If you don't like the way I'm livin
Buddy why don't you shove it?
When you feel the ground shaking underneath your feet
Then that's yours truly walkin down the street

Come a little closer, girl, I'll show you my scars
Cause I'm Guilty
I'm Guilty as Charged
If you're saying that my lovin's too large
Then I'm Guilty
I'm Guilty as Charged

Oh I'm Guilty
I'm Guilty as Charged
You Got Me
I'm Guilty as Charged

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Razão


"Com ela deitada em meu colo, olhei nos seus olhos e disse:
 - Sabe, minha vida, é muito solitária...e nem sempre as pessoas entendem essa solidão. É, pra falar a verdade, quase nunca, viu...
Então ela sorriu, boba e cheia de charme. E respirando sinceridade, quase que em um desabafo, respondeu:
 - A minha também!"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Só contigo

Viaja comigo, sonha,
chama meu nome.
Chora e também, risonha, ria.
Brinca de fazer ciumes e rola comigo de amores
só assim é que fazes surgir
só assim é que aumentas em mim
a vontade de viver,
e de, só contigo, viver.
Só contigo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Monday's Nights - part II


Chegou no restaurante por volta das oito e meia. A noite gostosa, de calor e brisa fresca, a disse: "Aquele vestido", e ela obedeceu.

Tinha os cabelos longos e castanhos, sutilmente ondulados, de maneira a desenhar a forma perfeita de seu rosto. Uma beleza de cinema: pele bem branquinha e olhos castanhos - feito os cabelos - brilhando, sorriso perfeito em sintonia com a expressão angelical. Disse ao homem na porta: "Boa noite, mesa para 2", sorriu, e entrou.

Estava sentado duas mesas à frente da que ela sentou. Pude acompanhar sua entrada, que trouxe energia boa fez com que a brisa passasse naquele momento pelo meu pescoço. De propósito, aposto que foi ela. Conseguiu me arrepiar.

Eis que usava um vestido azul, nem longo e nem curto, que apenas amansou para sentar-se em uma cadeira bem de frente para a minha, embora as mesas entre o campo visual. Cruzou as pernas e, curiosamente, esperou.

Esperou e ali ficou, com uma expressão de quem estava segura. Olhei para seus olhos por alguns instantes, enquanto bebia meu uísque da noite. Entretanto ela deixou bem claro que não estava para brincadeiras: não fixou seu olhar no meu em nenhum momento. Entendi o recado.

Havia em uma das mesas ao redor, uma família com uma pequena criança: uma loirinha de aproximadamente 6 ou 7 anos, de vestidinho branco e um cabelinho de anjo. "Feita para este momento", pensei em voz alta. Tomei mais um gole.

Então pude reparar que a menina, cheia de sorrisos, se aproximou daquela bela mulher. Com toda a ingenuidade e coragem de uma criança, perguntou:

 - Como você se chama?
 - Michele, e você, menina bonita?
 - Carlinha. Tenho 7 anos.
 - Menina bonita, com um nome bonito!
 - Ta esperando alguém? Seu namorado?
 - Estou esperando alguém, sim.
 - Então ta! Tchau
 - Tcha-au.

Tcha-au. Assim, pausadamente. Quase me derreti por aqui (Sou altamente vulnerável à espontaneidade, definitivamente).

O tempo passou: Nove, Nove e meia, Dez. Dez e quinze levantei para pagar a conta, e ao levantar, me deparei com uma expressão de preocupação, misturada com um toque até de tristeza, de decepção. A testa ligeiramente franzida, e os olhos já tinham água. Toda aquela beleza foi prejudicada, é claro. A beleza é muito mais bela, quando exala tranquilidade. É mais sincera.

Paguei a conta logo após o pai daquela família. Saímos praticamente juntos entre as mesas, eu, e os três em minha frente. Eis que percebo aquela delicadeza de menina, com uns olhinhos miúdos agora - talvez seja o sono, pensei - virar em direção à Michele e dizer:

 - Acho que ele não vem.

Michele, já com os olhos escorrendo lágrimas, inclinou sua cabeça e olhou para as próprias pernas, e para as marcas das gotas em seu vestido. Em seu íntimo, absorveu o que a pequena Carlinha lhe disse.


"É, acho que não."

sábado, 23 de outubro de 2010

La vida secreta de las palabras

(Imagem: Angeles Mora)


Eu queria ser cantor. Sabe, até canto alguma coisa, bem de leve assim, eu levo bem.

Mas não é disso que eu estou falando. Queria ser cantor de verdade, como este cara que eu estou vendo agora aqui, no restaurante Mexicano. Ele leva desde "Amor, meu grande amor" até "People are Strange", passando por "Stay" e fechando com chave de ouro em "You got it". Precisa dizer mais?

Não é inveja, penso. É vontade, mesmo, e até um certo conformismo de que aquilo não é da minha natureza. Cantar não é, e nunca foi, algo que veio de dentro de mim. Mas sim, algo que aprendi a fazer.

Para o cantor, o que vale é cantar. Não só o que vale, mas o que ele precisa, tem sede, e uma necessidade espontânea inacreditável. E pode o bar estar completamente vazio que ele estará lá: afinadíssimo, firme, com sua voz potente e seu violão preenchendo cada espaço vazio em cada mesa.

A mim, resta contar a história. Isto, sim, é da minha natureza!

Então secretamente faço um acordo com a vida: O cantor vai cantar, e seu espetáculo será fabuloso. E se não estiver ninguém assistindo eu estarei ali com toda certeza. E depois eu vou parar, refletir e contar com toda a delicadeza e riqueza de detalhes necessária para tornar esta noite a mais incrível da minha vida!

Toda noite sempre é.

Parafraseio o poeta: "Não existem boas histórias. Mas sim, bons contadores de histórias". E acredito nele: um simples anoitecer pode virar um grande fenômeno, reagindo em toda a multidão, no coração dos apaixonados, na lucidez dos que estão na escuridão ou na santidade equivocada de alguns monges. Depende apenas, nas palavras de quem, é que este anoitecer está.

Sem um bom contador de histórias, a vida seria apenas uma sequência de fatos. Secretos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Boa prova



Na sala de aula, pode-se olhar atentamente para cada uma dessas cabecinhas abaixadas, fazendo a grande prova.

Cada um que está aqui sentado, concentrado, olhando para as questões (seja com expressão de medo, de segurança, de ansiedade ou de tranquilidade) representa um universo diferente. Uma gama de experiências e situações que o trouxeram até aqui: tristezas, alegrias, derrotas e vitórias fizeram com que, além de tantas outras vantagens, cada um destes alunos se tornasse quem realmente é.

A transmissão de conhecimento é uma responsabilidade que tem a força de um punhal: não é tão potente, nem lá tão grande. Não provoca medo, nem tanto um susto. Todavia o impacto que pode trazer é incrivelmente relevante.

É assim que se torna educador! O principal é saber que quando todos estamos aqui, mesas frente a mesa, o que está ocorrendo é a união de todos estes universos: os deles, e o daquele que está lá na frente. Este contato das palavras que saem da boca e invadem bruscamente os ouvidos destes jovens, os gestos a rasgar retinas e se ocuparem de um espaço em suas mentes, gerando pensamentos, estimulando a criatividade, e vomitando conhecimento adquirido, é nada mais que fazer com que o seu universo - mestre - faça parte do deles. E a recíproca, obviamente é verdadeira.

E talvez por isso abandoná-los seja tão significativo, para este momento. Toda essa troca de energias, de vibrações, de sorrisos e sonhos compartilhados terá de ser feita com um novo ser, pois este, parte para a vida em busca de objetivos, de mais vitórias. Parte para a vida, em busca de mais vida. (E adora recursividade)

Mesmo sabendo que após estes, virão outros e outros por aí, não dá pra não pensar. Ficarei triste todas as vezes, eu sei. Mas esses aqui, bom...estes são os primeiros.




Uma homenagem aos meus pupilos, hoje estagiários, amanhã líderes de grandes multinacionais. Construindo seu próprio destino.
Ou não.

Minha intenção nunca foi somente ensinar conceitos de negócio, regras, situações problema e suas devidas soluções. Mas sim, poder mostrar que a vida já começou e que ela começa todos os dias, de novo e de novo. Quem precisa esperar até amanhã?

Faça agora.

sábado, 16 de outubro de 2010

Walk Hard

Imagem: Columbia Pictures


You know when I was a boy
Folks used to say to me
"Slow down Dewey, don't walk so hard"
And I used to tell them
Life's a race, and I'm in it to win it
And I'll walk as damn hard as I please
How do I walk boys?




 That's the way I think about this race, about my life. And that's what I'm doing: Walking hard. As hard as I think that I can, 'till I feel that it could be better.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cenas de amor



Estou desarmado para escrever uma estória de amor. Isso não é, vá lá, uma coisa boa.

Sinto falta delas. Paixões avassaladoras, sexo nas esquinas, nos quartos de hotel. Rosas caindo em mãos erradas, violência e tiros distribuídos feito doces.

Ou a família que se perdeu no caminho, entre os outros caminhos. Sujeira fazendo seu trabalho e poluindo lares, enquanto a filha que sempre se encontrou tanto nos olhos do pai, resolve defendê-lo e se aproximar ainda mais, unindo-os.

No meio de uma confusão, no centro da cidade, o menino carrega um outro pelo braço sem nem mesmo conhecê-lo, para que algo pior não venha a acontecer. Surge uma amizade incrível, capaz de fazer sorrir aquele jovem que não via há tempos tanto gosto na vida cinza da capital.

Cenas de amor. Sinto falta delas.

sábado, 9 de outubro de 2010

Fatia do Problema


 
A criança nasceu. Nasceu e cresceu, serelepe, feliz. A criança cresceu e aprontou.

Aprontando, claro, apanhou. E não foi pouco. Apanhou de mangueira, de vara verde, de chinelo havaianas branco com as tirinhas azuis clarinhas. Ficava a marca as mãos da mãe e da cinta do pai nas pernas, a criança lembra.

Depois a criança foi crescendo, desenvolvendo, ficando bonita. Ficou jovem.

Quando este jovem já estava grandinho, se espelhava muito na família. Pai e mãe estáveis, família constituída, irmãos, irmãs, casa própria. Casa simples, costumes do interior, daqueles de brincar na rua e comer porcaria, tirar a tampa do dedão, chorar e logo em seguida já estar brincando de esconder, terrenos de terra acima e abaixo.

O jovem se tornou adulto. E já que desde criança aprendeu que tem que trabalhar pra se dar bem na vida, o adulto se tornou um diretor, que corre pra lá e pra cá, viaja, não pára.

O adulto conheceu uma adulta. E essa adulta, vejam só!, era tão parecida com ele: bem criada, bem educada, crescida moderna com cabeça simples. Gente, mesmo. Aliás, como não poderia ser diferente, ela era tão bem sucedida, quanto ele.

Após anos de uma relação difícil (afinal, com a distância, as viagens, reuniões e happy hours, almoços com clientes, não há relação que não se torne difícil), resolveram se casar. Casaram-se, os adultos, na capital, com direito a lua de mel na Europa. Não é para qualquer um.

Eis que alguns meses após o retorno da viagem, é dada a notícia: aí vem uma criança.


A criança nasceu. Nasceu, e cresceu. Dentro de um apartamento, criada por uma babá. A criança cresceu e aprontou, pra chamar a atenção, porque não tinha nunca seus queridos pais por perto. Aprontou, e não apanhou. Aprontou de novo, e apanhou! Da babá, que foi pra rua.

A criança foi crescendo e viu na TV que se apanhasse, seria violência infantil e os pais poderiam ser presos, quando em flagrante. A criança, ainda criança, e já aprendeu o que significa flagrante, quando a diretora da escola particular a vê guardando um pacote de drogas na bolsa.

Após discussões intermináveis sobre o que fazer com a criança, os adultos, resolvem se separar. De forma traumática, porém burocráticamente simples: em dois meses está tudo pronto. Separam-se e agora sim, está tudo perdido: a criança apronta, mas não vai apanhar: nem do adulto, nem da adulta. Primeiro porque é crime, segundo porque se ele bater, a guarda vai pra ela, e se ela bater, a guarda vai pra ele. Ninguém quer perder, mas ninguém pode cuidar.


Ninguém vai.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pequeno atraso.



 
Cidade velha, década de 50, 8h p.m.

 
Chego e encosto o carro frente à porta. Jaguar XK 120, “Não é para muitos” – penso rapidamente, enquanto alinho o terno frente ao vidro da porta que, em sua limpeza impecável, reflete minha imagem: Barba bem feita e um paletó preto, gravata com windsor, camisa branca e sapatos misteriosamente brilhando, dando ainda mais destreza a esta noite, que se inicia aqui, quando coloco meu chapéu: é hora de entrar.

Me recepcionam com meu sobrenome. Tiro do bolso meu relógio, e exibo sutilmente sua corrente de ouro. Guardo-o novamente, e após um sorriso, o aperto de mão: “Boa noite, Senhor”.


Por dentro do terno, guardo uma 44. Ok, tem uma na perna também. Não vim para matar ninguém, mas é preferível ter uma arma e não utilizar, do que precisar de uma e não ter ali, na hora.

O salão está bem iluminado e apenas com alguns passos, já posso sentir a mistura de perfumes femininos que tenta me hipnotizar. Vou direto à sacada, que tem uma bela vista, e me permito sacar o hip flask e tomar um pouco do meu Uísque. Como todo bom apreciador da vida, eu não deixo o cigarro de lado, acendendo-o com o bom e velho Zippo.



No bar, há um pianista preciso que minuciosamente desliza “Unforgettable”, dando a cama para a voz de uma linda jovem, que parece aproveitar da harmonia para transpirar toda sua sedução. Esqueço da vulgaridade, deixo para pensar em agarrar com firmeza aqueles cabelos longos mais tarde, e opto por olhar apenas seu belo sorriso.

Avisto, do outro lado da porta, um belo vestido longo realçando as formas delicadas de uma bela mulher. Ela me avista e, apenas com o lado direito da boca, sorri. Eu, com uma mão apoiando o queixo e a outra segurando o copo de uísque, o balanço o copo como quem oferece um brinde.




Não me restam dúvidas, que alguém lá de cima, me mandou aqui pra baixo bem atrasado.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Durma bem.


 
Em alguns momentos, até entendo porque é proibido tomar cerveja e dirigir. Eis o episódio: 

Saio do trabalho aborrecido. Plena terça-feira, e em meio a toda a parte boa, péssimas notícias contribuem para o meu natural mau-humor, inevitável. 

O barulho da ignição do carro carrega consigo um alívio, sinal de paz. Ao virar a chave, é como se ouvisse as turbinas do avião: é hora de partir.

Desço entre as ruas calmamente, e conforme tomo distância do que me apresenta perigo, começo a retomar a consciência. “Cerveja, cerveja, cerveja” digo a mim mesmo, quase como um mantra. 

Ao parar em uma destas lojas de conveniência, compro 4 garrafas daquela minha preferida: hoje estou inspirado. Volto pra casa com pressa, quero apenas fazer o que pretendo, e sentir a deliciosa sensação de quando se está exatamente onde se queria estar, como se nada precisasse ser mudado naquele momento.

E quando me vejo, estou ali na varanda – ainda trajando social – bebendo calmamente e sentindo gelar a garganta e a alma, a cada gole, direto na garrafa. Vem um vento bom, sinto bem no rosto: agora sim, eu posso respirar.

Depois de mais alguns goles, na quarta garrafa, eu já me esqueci de tudo o que é ruim. Aliás, já estou sorrindo e cantando “You don’t have to say you love me” do Elvis, olhando pra garrafa quase como declaração de amor, e, claro, não dando a mínima para os vizinhos congelados e sem graça nenhuma.



Entendi, em uma breve reflexão, onde mora o grande perigo. Imagina se eu, numa destas, assisto “Natural born killers”, e saio por aí de carro?


Melhor, mesmo, fazer o que fiz.


Melhor ir dormir.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Tim



"O Brasil é o único país em que puta goza, cafetão tem ciúme, e além de traficante ser viciado, pobre é de direita".

Ta aí, pequenos clichês, resumindo nossas "Grandes" histórias.




Obs.: O Google me disse que é do Tim Maia essa frase, mas desconfio. Sei não.


Obs. 2: Em breve estarei de volta.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Informal



No meio da conversa, a moça virou e me disse: Eu quero me apaixonar.

E então, todo o desfecho daquela noite foi completamente modificado. Aquele grito vindo do fundo do peito, como quem diz "dê valor a meus valores", me fez traçar todo um futuro com aquela mulher incrível: uma casa boa na região nova de qualquer cidade, nossa, é claro. Quadros, dois ou três, dos pequenos. Sofá confortável, cozinha pequena - não iria haver muitos malabarismos, mesmo.

Duas ou, quem sabe, três crianças ali correndo, pra lá e pra cá, me fazendo sentir o pai mais orgulhoso do mundo. Crianças lindas, e completamente agitadas: verdadeiros furacões atravessando os cômodos.

Então pude ver, apesar da baixa luminosidade da mesa do restaurante, estes mesmos olhos e sorriso que me encantavam, me encantando após anos, e anos. Agora mulher, encostada de lado no vão da porta, com cara de brava para as crianças, e depois me olhando sorrindo e dando aquela piscadela, com todo o charme. É, o charme é pra sempre, logo concluí.

Toda essa projeção em fração de segundos, e logo já estava de volta para o presente.

 - Entendeu o que eu disse?
 - Ahn? - Respondi, totalmente perdido.
 - Bobo, nem prestou a atenção... - ela disse, e sorriu, completando o gesto com um leve beliscão em meu braço. "Você é lindo, sabia?", completou, e me pôs novamente no ar.


Voar é bom.


Eu também quero.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Linha Verde



Aqui eu ando entre as imagens dos postais
E vejo gente, muita gente, muita gente
Esquisitisses entre ruas e calçadas
Ainda pessoas tratadas como animais

Eu tomo a chuva que alguns cantam por aí
Fechando os olhos, eu arrisco, a cada esquina
Se são três horas, quinze horas, meia noite
Ninguém se importa, continuam a seguir

Quem era aquele, com aquele chapéu branco?
Era um artista, musicista ou coisa assim?
Entrou no carro, fez barulho, ja está longe
Se camuflou entre o pecador e o santo

Tomo cuidado para não ser percebido
Forasteiros não são bem vindos por aqui
Eu ando armado para o risco de um duelo
E meu disfarce deixa o rosto escondido

Vou pensativo, acho que quero ficar
Se eu for embora, é que não cresço nunca mais
Posso estar longe e, ainda sim, estou aqui dentro
Deus, quanto tempo, levarei para chegar? (irei chegar?)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ezequiel 25:17


Há uma passagem que eu memorizei, me parece apropriada para esta situação: Ezequiel 25:17. "O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado seja aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: chamo-me o Senhor quando minha vingança cair sobre você".




Ahhhhhhhhhh Pulp Fiction!

domingo, 26 de setembro de 2010

Disritmia



Eu quero
Me esconder debaixo
Dessa sua saia
Prá fugir do mundo
Pretendo
Também me embrenhar
No emaranhado
Desses seus cabelos
Preciso transfundir
Seu sangue
Pro meu coração
Que é tão vagabundo...

Me deixa
Te trazer num dengo
Prá num cafuné
Fazer os meus apelos...(2x)

Eu quero
Ser exorcizado
Pela água benta
Desse olhar infindo
Que bom
É ser fotografado
Mas pelas retinas
Desses olhos lindos
Me deixe hipnotizado
Prá acabar de vez
Com essa disritmia...

Vem logo
Vem curar seu nego
Que chegou de porre
Lá da boemia...(2x)
 


Deixo este samba, de Martinho da Vila, no clima de uma tarde chuvosa de domingo. É bom abraçar o violão, desenrolar os acordes, e se sentir em paz.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cerca

(Créditos da Imagem: Marlio Forte )


São mil canções de amor, me levando a lugar algum. Emoção jogada pro alto, levada pelo vento, semeando terras dessas, por aí.

Engulo em seco aquilo que não tenho a quem dizer, trago para o estômago a dor de amar e apenas deixo-a de reserva. Vai que, um dia...

Se amar é um precipício, o não-amar é uma cerca de arame farpado. Ali intacta, não ouse pular ou pode se arranhar, se machucar, e ainda nem conseguir passar para o outro lado.

E nem tente acompanhá-la pelo terreno. O caminho é longo e cansativo, além de ter muitos obstáculos. Chegará, então, na água-corrente da paixão. E após banhar-se de prazer, voltará encharcado morro acima. Tudo de novo.

Digo porque conheço o caminho. E de tanto me cansar, estou aqui sentado num pequeno barranco frente à cerca. Olhando para o outro lado, um campo que termina no horizonte, e umas montanhas por detrás de uma névoa clarinha. O que haverá após os nós pontiagudos dos arames?

Vou por aqui ficar até encontrar um jeito de atravessar. Sei que posso sair machucado, mas pago o preço. Pode ser que eu tenha de voltar também, temporariamente ou - quem sabe, por que não? - para sempre.

Venta a brisa, e quando não há sombra, raios de sol queimam meu rosto até arder. Arde a pele e o coração, que se encolhe todo.

Fecho os olhos e só sinto, sem pressa. Tenho tempo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Monday's nights



Não peço a ninguém, que entenda meu ritmo de vida. Isso não é necessário, nem a mim, nem a todos os outros.

Eu vejo que tem gente que tenta, e até admiro o pouco de vontade. Quando digo pouco, é porque logo no começo, já consigo prever quando vai acabar. É impossível - ou pelo menos, até hoje, ninguém conseguiu - entender estas minhas maneiras durante muito tempo.

Tenho emoções transbordando a todo momento. São tristezas e alegrias, surgindo e disparando meu coração quase que instantaneamente! Posso virar a toda velocidade, te segurar com força o braço, e olhando no fundo dos teus olhos, acredite: irei passar a mão direta por detrás da sua orelha, entre os cabelos, e dali tirar uma flor. É sua.

Os medos surgirão e, independente de onde, ou de quando, será necessário ter cuidado com eles. Posso tremer e suar frio, apenas de ler aquela palavra. Dias atrás descobri que ela ainda me incomoda, e nem acreditei. É, fará parte de mim, durante a vida inteira. E eu precisarei mesmo de um colo para me acolher, quase como ar.

Paro pra pensar o quanto tenho vivido sem ar. Sobrevivido.

E é neste ponto que passo a me confundir. Quando esqueço do mínimo detalhe: o que eu sou, inconscientemente interajo com todos à minha volta e por certas vezes, exijo compreensão, ajuda, força. Em vão, percebo a não reciprocidade para os sinais que mando, e padeço. Hora de voltar à realidade.

Saio na segunda-feira a noite porque sei que este dia tem uma magia incrível! Saio e não tem hora, lugar ou pessoa, que me faça voltar. São aventuras, com intervalo de tranquilidade e café, ou explosões de prazer e sonhos de valsa, que podem se intercalar durante a noite toda. Segunda-feira, segunda-feira a noite.

E com certeza vou terminar ali, naquela mesa amarela, de plástico, a número 12. Me abastecendo para o próximo dia, e me enchendo de esperanças de um dia ter como compartilhar tudo isso.
Qualquer segunda-feira destas dá certo, eu sei que dá.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Socorro



Após a colaboração da minha querida Raiana, deixo esta letra do Arnaldo Antunes, que eu não conhecia, mas que cabe exatamente em minha situação.

Socorro - Arnaldo Antunes

Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...

Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...

domingo, 19 de setembro de 2010

Immortal Beloved



"Os que me acham hostil, obstinado, misantrópico. Como podem ser tão injustos comigo? Não sabem como é, não poder dizer: 'Fale mais alto, grite! Não estou ouvindo!', o que fariam se soubessem que perdi o sentimento, que deveria ter mais em mim do que em todos os outros?"




Beethoven, em "Minha amada Imortal"

sábado, 18 de setembro de 2010

Duo

Quem sabe, milhares
de francos olhares
Diretos nas lentes
talvez de repente!
Ou mesmo ensaiados
se, não, descartados
Trarão pensamentos
ou, logo, momentos
pra levar pra si
Ou jogar ali
bem no meio-fio
Ou margem de um rio
Pra água levar
pra longe, levar
que é pra ela, viver
e logo, saber
Que o óculos faz
E o medo que traz
a quem, ali, olha
e ousa, desfolha.
Mas saiba, ela esquece
E desaparece.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Detrás



Há várias coisas erradas,
no meio do todo certo.
Quem há de prever os fatos,
e distinguir o que é limpo?

Eu vejo nos pensamentos,
por onde se abrem retinas,
que há um errado escondido.
Para nao ser descoberto,
se joga por entre os carros,
se faz de desentendido,
mas sabe que está errado.
Teme, sim, ser seguido.

E é nessas, e também n'outras,
que aconselho meus filhos:
melhor que os perdoem,
além de por ter nascido,
mas também porque há algo,
sempre algo detrás dos fatos,
que muda todo o sentido.

Olhe pra aquela moça,
veja que belos passos,
meça seus olhos grandes.
Agora olhe mais fundo,
pergunte a seus segredos,
quais os planos pra esta noite?

E o que ronda aquele homem,
que se faz de palhaço,
brinca com todo mundo!
Qual será seu problema?
Mil possibilidades.

Deixa que eu cuido disso,
respeitando os errados
[é que - pois]
aprendi a ler seus mitos.
E a desvendar seus nomes,
também reais motivos,
pra encarar qualquer fome,
quaisquer dos dias frios.

Porém, se eu nao descubro,
fico mais e espio.
Quero obter mais pistas,
pra dizer o que digo,
que quando há algo em troca,
ou algo atrás das portas,
eles se mantêm vivos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Proposta



Posto esta canção, apenas para demonstrar meu profundo desejo de cantá-la de verdade, assim no ouvido, da mulher amada.
Brega, que sou, corro facilmente o risco de isto nunca vir a acontecer.
Pago o preço.


Eu te proponho
Nós nos amarmos
Nos entregarmos
Neste momento
Tudo lá fora
Deixar ficar...

Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz...

Eu te proponho
Na madrugada
Você cansada
Te dar meu braço
No meu abraço
Fazer você dormir...

Eu te proponho
Não dizer nada
Seguirmos juntos
A mesma estrada
Que continua
Depois do amor
No amanhecer




Obrigado, Rei.

domingo, 12 de setembro de 2010

Timeline



Minha vida, muitas vezes, se resume a poucos momentos. São fragmentos de vida, ordenados da forma que eu escolho, para aquele dia.

No outro dia, uso dos mesmos fragmentos, de maneira diferente. Ou até da mesma forma, quem sabe?

Esta rotina de alternar posições para os atos acaba, nestas mesmas muitas vezes, determinando o que será de mim, ou – quem sabe, indo até mais longe – o que efetivamente eu sou.

Sair por aí respirar o ar puro da cidade fria não me enjoa, e não enxergo que isto um dia acontecerá. A falta de companhia já me deixou tão à vontade em ver o banco do passageiro vazio, que até me deu mais intimidade – talvez, quem sabe – comigo mesmo. Conversar consigo mesmo é se conhecer melhor. Em voz alta, ou não.

E então, entre as luzes da avenida, a parada pra um café. Curto, forte e quente, bem quente, “do jeito que você gosta”, ela me diz – a moça. Nessas paradas rotineiras, independente de horário, é que passo a conhecê-las, estas – as mocinhas de uniforme – grandes responsáveis pelas minhas noites acordado. E aposto, como elas nem mesmo sabem disso! Sabem, apenas, o jeito que eu gosto dele. O café.

Voltando pro meu caminho, talvez possa cruzar com alguns conhecidos, e acenar. “Olha lá o Machado”, pensarão. Ou apenas irão acenar e continuar o assunto, o pensamento, o caminho. Enquanto eu continuo o meu, rua acima, rua abaixo.

Então posso fazer dos meus dias, só meus. E em cada intervalo, tem uma oração, pra Aquele que está comigo sempre. Se eu passo por perto de uma igreja, que ainda não conheço, eu posso parar e entrar! “Entre que a casa é tua”, venho a ouvir. E, é claro, aceito o convite. Sair dali renovado por si só, já é o grande feito.

Se eu estou inspirado, não há noite que não me convite para uma dose mais forte. O pub tem luz baixa, detalhes em azul, e uma decoração rústica. Propícia.

Encosto no balcão, sento naquele banquinho nada confortável, e sei que é o que existe ali para mim, só para mim.
- Fala, Machado, duas pedras?
- E meia! (rimos) Esta metade é que faz a diferença, bixo.
Saber do gelo do meu uísque pode ser para poucos. Apenas preciso que estes estejam ali.

No mais, sei mesmo que não irei dormir. Somente acordar. Amanhã.