quarta-feira, 31 de março de 2010

Constant Sorrow




Do filme: "O brother, where art thou?" (Ei Irmão, cadê você?) - 2000.


E em homenagem a meu grande amigo Sérgio Viana.

domingo, 28 de março de 2010

Porto final


Parei apenas para olhar. Para reparar, mas também simplesmente, correr meus olhos sobre os fatos que consumadamente por si só, são. Porque podemos controlar o que quisermos em nossa vida, mas tudo continuará assim: sendo. Existindo. E, é claro, acontecendo.

Desta forma fui deixando tudo correr. E vi o rapaz indo embora, levantou, despediu-se, e saiu andando. Era magro e branco dos cabelos longos, embora presos, e negros. Cumprimentou as meninas com beijos no rosto e os rapazes com apertos de mão, daqueles que os meninos inventam, e saiu com uma mochila nas costas. Vestia-se no estilo bicho grilo: chinelos, bermudão xadrez, camisa branca suja e rasgada. Barba por fazer, e se foi.

Imagino o resto da vida dele: andar, e andar, e andar mais até chegar em casa. No meio do caminho, encontrar alguns amigos tomando num bar. Parar, dar seu recado, e continuar seguindo pelas ruas.

Naturalmente comparo com meu ritmo e vejo como tudo se confirma: a vida segue. A qualquer momento iria levantar, cumprimentar as meninas com beijos no rosto e os rapazes com um abraço. Ir até meu carro, completar o ritual banco-retrovisor-cinto de segurança, dar partida e sair. Direto para casa, porém. Com a barba feita, vestindo calças claras, sapatos sport e uma camiseta vermelha.

Muda o meio de transporte, as roupas, trejeitos e talvez o sotaque. Muda todo o contexto mas a situação é a mesma e vai se repetir, inúmeras vezes. E a gente continua a tocar o barco, porque nada é mais remar do que escrever um parágrafo. E nada é mais atracar do que um ponto. Porto final.

Camuflagem



Permito-me viver camuflado.
Forjar, ludibriar, despistar.
Meu ritmo é bem mais simples do que parece
Mas quem realmente há de querer
Descobrir quem eu sou?
Há preguiça de pensar
Nos olhos até de quem se apaixona.
Há preguiça de querer ser,
e de querer,
e até,
de ser.

Permito-me viver camuflado.
E me entregar quando bem entender,
e pra quem eu quiser,
quando der.
Cansei de verdades e mentiras
Também de ter que separá-las.
Não quero mais peneirar,
nem ser daquela elite tão suja
Responsável pelos julgamentos.
Quero prazer, quero dor, quero emoção
tudo de uma só vez.

Permito-me viver camuflado.
E quero explodir em cima dos palcos
Pra depois cair em seus braços,
e dormir meu sono irresponsável.
Então gozar onde não é seguro
Pra transformar seu medo
Em um sorriso montado
Ali, na hora, sem ver
Sem precisar.
Não precisar disso tudo
É a melhor parte.

Permito-me viver camuflado.
Pra não ter que sentir saudade
Nunca dessa liberdade
Que eu aprendi a ter.
Meus voos são sempre altos
Nem curtos, nem longos,
Altos.
Velozes ou calmos,
Altos.
Pra eu saber que estou longe
E me enganar pensando
Que esqueci o caminho de volta.

Permito-me viver camuflado.
Forjar, ludibriar, despistar.
Meu ritmo é bem mais simples do que parece
Mas quem realmente há de querer
Descobrir quem eu sou?

sábado, 20 de março de 2010

Eu não existo sem você



Por Deus, minha semana foi linda: Pacífica, tranquila e embora movimentada, satisfatória. Livre.
Até me estranhei, realmente uma semana sem escrever nada possuiu um bom motivo, afinal, estar bem as vezes pode ser antônimo a qualquer inspiração.
De qualquer forma, ao parar para pensar no final de semana, me deparei com Tom Jobim. Em uma das peças de uma coleção dessas de um jornal qualquer, referente aos 50 anos da Bossa Nova, essa música me fez chorar e doer. Como, em um dia, poderá alguém amar uma mulher assim?


Eu não existo sem você (Tom Jobim)

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você






Preciso falar mais?


domingo, 14 de março de 2010

A guerra que terminou




Depois que a guerra acabou, só restaram pedaços de coisas pelo chão. Pedaços de paredes, pedaços de sonho e de gente. Pedaços.

A poeira que ficou no ar e parece que não quer abaixar, me faz lembrar de como as coisas já foram mais complicadas, e me faz pensar na possibilidade de que tudo pode voltar a ser, também. E assim como está hoje: silencioso e imune a qualquer expectativa de desagrados, pode ficar muito pior do que já foi.

Naqueles momentos de angústia, em meio às batalhas, minha única saída era rastejar pelo chão em busca de uma solução. Ouvindo aqueles barulhos de bombas e disparos, eu me escondia por detrás de alguns muros, que nós construíamos para nossa própria defesa e que eram firmes, indestrutíveis. E era encostado, naturalmente de costas para o inimigo, que eu rapidamente escrevia uma ou duas frases em um bloquinho de papel. Vomitava palavras.

Todos os soldados têm olhos atentos, expressões de ira e até de medo. Tudo isso escondido por debaixo de capacetes e óculos e escopetas. O inimigo tem forma única, deve ser eliminado, e será. Impiedosamente será baleado e irá sangrar até que sua vida se resuma a sua dor e seu grito mudo em meio ao cenário de tensão do qual o mesmo está partindo. Adeus.

Agora em cima deste caminhão que me levará de volta, tenho uma perspectiva bem menos agressiva e cega. Vejo que estas cinzas pelo chão são por demais sólidas, pesadas, visto que por muito tempo existirão como sendo o único vestígio do grande conflito. As marcas nas paredes são medalhas e estes arranhões que levo embora comigo, são troféus.

Então permito-me olhar pra estrada ficando pra trás. O caminhão indo embora, e nós os sobreviventes, durante a viagem ainda a observamos, com olhos cansados, mas de vitória. O campo de batalha agora, eu sei, será outro, e eu mal posso esperar para a nova guerra - que invariávelmente, acontecerá.

O que me cabe para o momento, é deixar seguir viagem e, entre um cochilo e outro, respirar.

sábado, 13 de março de 2010

Não


Não me desarme neste teu sorriso
Não brinque com fogo, comigo
Não vê quanto eu sou perigoso?
Não vê, cá em meu corpo, estes riscos?

Não farás em mim qualquer dano
Não sendo uma a mais em meus planos
Não percebes tamanho engano?
Não calculas este ato, humano?

Não pense ao abrir teus braços
Não julgue-me um dos seus trapos
Não sabes não ter capachos?
Não olhas pra quaisquer lados?

Não sei não ser tão errado
Não sei não fazer-te um filho
Não pensas ser arriscado?
Não quer se casar comigo?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Querido Diário



Nem deveria estar aqui, bem sei. Porém qual é a diferença entre as 4h e as 5h da manhã quando se voa por aí em busca de algo, que nem se sabe exatamente o que é?

Volto para casa em profunda tristeza. Pena, dor, e angústia. E é a soma de determinados fatores, que produz estes sentimentos (mesmo não sendo exatamente da soma que eu quero falar).

Deixei muito de mim se perder em um caminho escuro. Ficou lá atrás, junto com aquele tempo em que eu possuía alguns momentos de ócio, tão produtivos.

Hoje um velho amigo me chamou seriamente para conversar. Fiquei preocupado, passei a noite pensando nisso, visto que marcamos nosso papo para bem mais tarde. Quando cheguei lá, percebi que ele não me chamou para falar de algo dele, mas sim, de mim, e de nós, e de tudo. E foi neste momento em que me decepcionei, quando ele me lançou: "Me fala como você está. Você anda bem?"

Talvez fosse isso o que realmente estava faltando. Este meu ritmo solitário, me faz ter cada vez menos pessoas ao meu redor. Aprecio a solidão, mas existe um ponto de que não havia nem notado: há tempos não paro para olhar para mim, ver como eu estou de verdade.

De uns tempos pra cá eu vim vivendo. Correndo, pensando, calculando, relaxando, me divertindo, gozando, lendo, dormindo, morrendo. Sendo ou não nesta ordem. E foi nesse vir vivendo, no ponto morto, que me apaguei.

Tanto faz se eu vou dormir duas horas nesta noite, se eu acordei sem voz ou com dor no peito dessa solidão. Vivo uma incerteza se aquela garota pensa em mim, se estou seguindo em frente ou - quase que imperceptivelmente - parado, se sou mesmo tudo aquilo ou se sou é quase nada. Tanto faz.

E se hoje não há metáforas, é porque não há poesia. Se hoje eu não tive voz para cantar no chuveiro, tive o amigo de longas datas para ser muito mais importante do que ele mesmo imagina. Tive também o sorriso da menina quando eu - em um passe de mágica - fiz surgir aquele bombom, e a entreguei.

E tudo há de continuar. Um pouco de sol, um pouco de frio. E esse viver desencontrado.



*Hoje o blog faz um ano. E, curiosamente, estou em um clima muito parecido como o de um ano atrás. A vida é mesmo um eterno recomeço.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Parceria



De Fagner para Zeca Baleiro, no DVD "Raimundo Fagner e Zeca Baleiro - Ao vivo":

- Você sabe por que nossa parceria tem tudo para dar certo?
E o outro:
- Não! Por que?

- Porque não tem sexo!

...


Palavras


Palavras: levantam um doente, e matam um saudável.
(Autor desconhecido)

sábado, 6 de março de 2010

O amor e todas as outras coisas



Me perguntam se eu preciso amar para falar de amor e então respondo: mas é claro. Preciso amar e falo tanto de amor porque o nosso viver está todo dentro dele: do gozar e do penar de cada abraço.

O amar em cada abraço é mesmo uma dádiva. Não é preciso me declarar e nem contar para ninguém: sigo a amar sozinho, quem eu amar. Amar sozinho num quarto ou ocupando uma só poltrona no teatro lotado.

Nem venha me dizer que é um amar medroso, porque quem és tu visto que está fora do meu coração? Só o amor cabe nele e o último alguém que aqui esteve, foi-se embora. Foi, e deixou a porta aberta. Deve ser por isso que venta tanto.

É este amor que me faz olhar o tempo todo para o céu em poesia. Quando amo não vejo mar, não vejo sol ou as calçadas. Vejo palavras e versos bonitos, mostro meus sonhos e colho suas rimas. E até talvez entenda porque nem sempre querem ficar aqui por perto. Nem sempre se quer amar.

Aquele mergulho em tudo o que tiver gosto mais doce é a forma menos enigmática de se ter pureza. Não é preciso mostrar ao mundo, e sim apenas, deixar-se ser amado. Por tudo o que se ama. Por tudo o que se quer amar.

Guantanamera

Hoje, estou neste clima:



"Sí, sí, como no?"

quinta-feira, 4 de março de 2010

Samba da Volta

Composição: Toquinho e Vinicius de Moraes

Você voltou, meu amor,
alegria que me deu
Quando a porta abriu
você me olhou, você sorriu,
ah, você se derreteu
e se atirou, me envolveu, me brincou,
conferiu o que era seu
É verdade, eu reconheço,
eu tantas fiz,
mas agora tanto faz
O perdão pediu seu preço,
meu amor
Eu te amo
e Deus é mais
e se atirou, me envolveu, me brincou,
conferiu o que era seu
É verdade, eu reconheço,
eu tantas fiz,
mas agora tanto faz
O perdão pediu seu preço,
meu amor
Eu te amo
e Deus é mais

*Bossa Nova, e essa, para você.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Platônico


Aquela garota possuía uma forma única. Belíssima, tanto quanto ímpar. Única.

Quando a vi a primeira vez, lembro-me de ter perdido os sentidos. Passional que sou, congelei fixando a imagem daquela menina de cabelos longos e negros, uma boca desenhada e olhos sedutores, delicadamente realçados com uma maquiagem que não era dela. Era ela.

Esboçava uma mulher perigosa, mas não era mais que uma menina. Ensaiava uma postura charmosa, mas expunha sem medo suas fraquezas ao desviar seu olhar, involuntariamente, de qualquer ameaça. Nem todo mundo está preparado para o amor, e ela parecia gritar que concordava comigo. Não estava.

E assim que o espetáculo acabou, deixei que tudo ficasse lá. Faço assim mesmo com minhas paixões, guardo-as em lugares, músicas, poemas. Lembro apenas dos cheiros, gostos e toques. Do calor.

Sabia que não deveria ir adiante, e assim deixei a moça morena dos lábios vermelhos ficar no teatro apagado, bem como seu nome ficar ali gravado naquele folheto ou coisa parecida.

--

Hoje, ao te ver tão perto, nem mesmo sei se deveria ter acreditado. Talvez não, mas você foi incrivelmente doce e sutil. Ali eu estava por cima e o espetáculo era meu, e ao ver-te admirada com esse seu brilho nos olhos, como haveria de resistir?

Entrego-me então a estes seus beijos calorosos como de quem não conhecia a paixão, e a seguro firme em meus braços para que cavalgue em nossa imaginação. Você é intensa, menina bonita, enquanto voa por aí.

Então não conto a ninguém o quanto anseio te encontrar de novo. Nem mesmo a você, que em meio a tantos olhares famintos, esquecerás de mim.

Torno-me a apagar as luzes, pois o espetáculo tem o seu tempo certo. Assim como os aplausos.