domingo, 14 de março de 2010

A guerra que terminou




Depois que a guerra acabou, só restaram pedaços de coisas pelo chão. Pedaços de paredes, pedaços de sonho e de gente. Pedaços.

A poeira que ficou no ar e parece que não quer abaixar, me faz lembrar de como as coisas já foram mais complicadas, e me faz pensar na possibilidade de que tudo pode voltar a ser, também. E assim como está hoje: silencioso e imune a qualquer expectativa de desagrados, pode ficar muito pior do que já foi.

Naqueles momentos de angústia, em meio às batalhas, minha única saída era rastejar pelo chão em busca de uma solução. Ouvindo aqueles barulhos de bombas e disparos, eu me escondia por detrás de alguns muros, que nós construíamos para nossa própria defesa e que eram firmes, indestrutíveis. E era encostado, naturalmente de costas para o inimigo, que eu rapidamente escrevia uma ou duas frases em um bloquinho de papel. Vomitava palavras.

Todos os soldados têm olhos atentos, expressões de ira e até de medo. Tudo isso escondido por debaixo de capacetes e óculos e escopetas. O inimigo tem forma única, deve ser eliminado, e será. Impiedosamente será baleado e irá sangrar até que sua vida se resuma a sua dor e seu grito mudo em meio ao cenário de tensão do qual o mesmo está partindo. Adeus.

Agora em cima deste caminhão que me levará de volta, tenho uma perspectiva bem menos agressiva e cega. Vejo que estas cinzas pelo chão são por demais sólidas, pesadas, visto que por muito tempo existirão como sendo o único vestígio do grande conflito. As marcas nas paredes são medalhas e estes arranhões que levo embora comigo, são troféus.

Então permito-me olhar pra estrada ficando pra trás. O caminhão indo embora, e nós os sobreviventes, durante a viagem ainda a observamos, com olhos cansados, mas de vitória. O campo de batalha agora, eu sei, será outro, e eu mal posso esperar para a nova guerra - que invariávelmente, acontecerá.

O que me cabe para o momento, é deixar seguir viagem e, entre um cochilo e outro, respirar.

4 comentários:

Pipa. A que sonha. disse...

O que mais me entristece, é saber que essas guerras emocionais, de santa, não tem nada.

E nunca há vencedores.

Um abraço.

H. Machado disse...

Será que não somos nós os vencedores, quando mesmo machucados, conseguimos sobreviver?

Pipa. A que sonhava. disse...

Me mataram ainda jovem Lenhador. Nem deu tempo de eu pegar as armas químicas de destruição em massa.


Encerrei meu blog.
E com ele, meus sonhos de Pipa criança.



Obrigada pelos comentários espetaculares tecidos em meu céu.

De deixo essa flor amarela de pós-guerra com um bilhete fincado no espinho.

Não-te-esqueças-de-mim.

Renato Menezes disse...

Já dizia a letra:
"Se queres paz, te prepara para guerra. Se não queres nada, descanse em paz".

E Fernando Pessoa disse que "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".

E eu me pergunto todos os dias: "Será?"