segunda-feira, 1 de março de 2010

Platônico


Aquela garota possuía uma forma única. Belíssima, tanto quanto ímpar. Única.

Quando a vi a primeira vez, lembro-me de ter perdido os sentidos. Passional que sou, congelei fixando a imagem daquela menina de cabelos longos e negros, uma boca desenhada e olhos sedutores, delicadamente realçados com uma maquiagem que não era dela. Era ela.

Esboçava uma mulher perigosa, mas não era mais que uma menina. Ensaiava uma postura charmosa, mas expunha sem medo suas fraquezas ao desviar seu olhar, involuntariamente, de qualquer ameaça. Nem todo mundo está preparado para o amor, e ela parecia gritar que concordava comigo. Não estava.

E assim que o espetáculo acabou, deixei que tudo ficasse lá. Faço assim mesmo com minhas paixões, guardo-as em lugares, músicas, poemas. Lembro apenas dos cheiros, gostos e toques. Do calor.

Sabia que não deveria ir adiante, e assim deixei a moça morena dos lábios vermelhos ficar no teatro apagado, bem como seu nome ficar ali gravado naquele folheto ou coisa parecida.

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Hoje, ao te ver tão perto, nem mesmo sei se deveria ter acreditado. Talvez não, mas você foi incrivelmente doce e sutil. Ali eu estava por cima e o espetáculo era meu, e ao ver-te admirada com esse seu brilho nos olhos, como haveria de resistir?

Entrego-me então a estes seus beijos calorosos como de quem não conhecia a paixão, e a seguro firme em meus braços para que cavalgue em nossa imaginação. Você é intensa, menina bonita, enquanto voa por aí.

Então não conto a ninguém o quanto anseio te encontrar de novo. Nem mesmo a você, que em meio a tantos olhares famintos, esquecerás de mim.

Torno-me a apagar as luzes, pois o espetáculo tem o seu tempo certo. Assim como os aplausos.

3 comentários:

N. Ferreira disse...

Fantástico!
Às vezes o platônico pode ser tão bom por jamais nos colocar em contatom com a dura realidade!

Pipa. A que sonha. disse...

Que no espetáculo do coração, o amor seja sempre a atração principal.

Doído o post. Mas com a beleza divinal do querer


Um abraço de quem ainda sonha.

Pipa.

Érika disse...

Será que é bom ter, ou ser um amor platônico? Nessa desilusão que ando, nem ao menos o "real" me agrada.
Beijos, adorei o comentário :-)