sexta-feira, 30 de abril de 2010

No ritmo


O menino vinha caminhando pela calçada, porém, não parecia estar tão atento ao resto do mundo. Seu olhar era de tranquilidade, e sua expressão - inclusive - transmitia essa mensagem: paz.

Era apenas um menino, mas só de olhar para seus olhos brilhantes, sabia-se que existia mesmo um grande coração naquele jovemzinho. E assim ele caminhava: camiseta branca, uma calça jeans clara e um sapato, tudo assim, do seu tamanho. Um belo garoto.

Passou uma esquina e chegou ao ponto de ônibus. Olhou para aqueles assentos em formato de pequenas cadeiras, viu uma moça sentada, e sentou-se ao lado. Havia outros lugares livres, mas curiosamente resolveu que iria sentar ali mesmo. Ela também achou estranho, e de canto de boca, esboçou um sorriso.

Eis que o menino se sentou e começou a batucar, com as mãos em seus joelhos. Batia repetidamente, porém com ritmo. A moça olhou disfarçadamente no relógio, apenas para poder ver se o menino estava ouvindo alguma música. Não estava.

E o menino parecia realmente empolgado com seus movimentos, batia, batia, trocava as mãos. E ela só observava, com os olhos assim de canto. Moça que além de tímida, não queria tirar a concentração do garoto, ali ao lado.

Então, curiosamente, o menino parou de bater suas mãos. Juntou-as uma contra a outra, assim entrelaçando os dedos, e parou. Logo em seguida, ouviu:

- Não, não pare!
- Como, moça? - Disse o menino, com uma expressão de susto, até.
- Continue com o ritmo. Sempre, sempre, saiba que parar a música é deixar tudo em silêncio, e o silêncio é o esconderijo dos loucos, e o palco dos chatos. Mantenha este bater ritmado, nem mais rapido, nem mais lento, mas que nunca pare a ponto de se perceber que pode ficar sem os sons das batidas, mesmo que nos próprios joelhos. Mais cedo ou mais tarde você vai saber que, não importa o que aconteça, a música continua e precisamos segui-la. E mais, muito melhor você estará, se tocá-la no ritmo certo, sem cair o andamento, sem desandar. Toque, menino, toque.

O menino silenciou, e soltou a respiração, que estava até parada. Sorriu a ela, e botou as mãos sobre os joelhos.
Então, no mesmo ritmo de antes, o menino batucou. Sorriu de novo, e batucou.

Cantiga para não morrer.


por Ferreira Gullar


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Moça de sonho e de neve,
me leve no esquecimento,
me leve.

sábado, 24 de abril de 2010

Quase poema


Querida,
Que queres?
Questiono, quieto.
Quão quisto que qualificado
Quebro, quadruplico
Queimo qualquer quebrante.
Quando queixo,
Quase que quotizo
Quito.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mandar flores ao delegado


Chego, paro o carro quase que de frente para o portão.
É uma recreação, muita gente pra lá e pra cá, crianças e seus pais saem com seus rostos pintados ali de dentro. Rio, ingenuamente.
Eis que tu chegas. Olho você vindo, lembro do sonho, da distância velha, e do velho medo. Abro a porta.
Com um beijo tocando o lado esquerdo do meu rosto com sua mão, arrepio. Deixo você perceber. Gosto mesmo disso.
No caminho, antes que eu possa tirar meus olhos da rua enquanto dirijo, sinto seus beijos em meu pescoço, quase que na nuca, enquanto vira para deixar tuas coisinhas no banco de trás. Arrepio, de novo. Gosto, muito.
Paro o carro, te olho, me olhas. Te quero, me tocas, e te beijo com ardor, com carinho. Te beijo com beijo, com sotaque.
Centímetros entre minha boca e a sua, meu rosto colado no seu, sussurro: "quero ficar sempre ao seu lado", e abraço.

Abraças.

Sonhamos.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A luz do dia



O dia bagunça a cama. Corta o sono, arde os olhos, venta frio e joga longe. Gela o chão, os pés, e o corpo todo. O dia, este ente de transparência inexorável, faz tudo ser como é.

Por isso não se tem tanta afeição. A claridade esconde tudo aquilo que se quer ver, traz todos os sons ao silêncio que ainda procura-se em qualquer canto, polui. O dia polui.

E é só abrir a janela e sair na sacada pra ver que o dia não chegou só pra si. Olhares inchados batem portas e sussurram bom dia, viram a esquina, se esbarram e seguem. Os carros se trombam, as motos buzinam, e os ônibus fazem fumaça. Mais fumaça. Mais que os primeiros. E a gente, claro, a gente corre.

Depois o dia dá fome. E toca comer qualquer coisa, debaixo do sol que nos ferve a alma. Passa o carro de som, joga nos ouvidos aquela promoção absurda de roupas infantis. Automaticamente apagada da memória, um segundo depois. Então retorna-se e vem o dia querendo brigar. O dia bate forte, e bate no estômago, sem chance de defesa.

Ameaça ir embora quando o céu fica laranja. O dia luta pra viver por mais aqueles minutos, e o que vemos são só os reflexos de luz que tentam sobreviver. O dia se despede em tom de desespero, e deixa de herança os olhares cansados e os suspiros de ataque de nervos.


E eis que ela vem, sedutora e com ar de mistério: a noite.





Mas essa, já é outra conversa. Deixa pra escrever de dia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Always on My Mind




Maybe I didn't treat you,
Quite as good as I should have.
Maybe I didn't love you,
Quite as often as I could have.

Little things I should have said and done,
I just never took the time.
You were always on my mind.
You were always on my mind.

Maybe I didn't hold you,
All those lonely, lonely times.
And I guess I never told you,
I'm so happy that you're mine.

If I made you feel second best,
Girl I'm sorry, I was blind.
You were always on my mind.
You were always on my mind.

Tell me.
Tell me that your sweet love hasn't died.
Give me.
Give me one more chance to keep you satisfied.
Satisfied.

You were always on my mind.



*A decepção de nunca ter cantado isso a ninguém, é minha expressão de desamor. Sigo, e canto sozinho.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O dom de morrer


Todas as coisas têm a incrível habilidade de não ser. Tão óbvio como o fato de serem, simplesmente podem deixá-lo. Talvez para sempre, ou por qualquer período de tempo, não importa. As coisas morrem.

E a maneira mais difícil de constatar isso, claro, é sentindo na pele. A morte de um amor, de uma profissão, de uma época. Oh, céus, como é triste a morte do tempo, quando com o nascer do novo, morre e assim fica para trás. Já passou!, dizem, embora não resolva. Morre e nunca passa.
Vejo agora em quadros, todas as coisas que escaparam pelos vãos entre meus dedos. Se foram, e deixaram suas imagens, cheiros, gostos, vinculados a cada momento único. Existiram, e ouso parafrasear o poeta, "(...) em qualquer conjugação do verbo existir".

O que posso então, fazer, senão deixar as coisas morrerem? Por mais desesperadora que possa ser essa vontade de ser, tudo de novo, o que já se foi: aquele amor, a velha saudade, o velho sorrir descompromissado. Permito-me enterrar tudo onde, na prática, já está. Faltava mesmo era formalizar, triste ritual.

Cada coisa que morre em mim, me lembra o quanto faz diferença hoje aquela atitude tomada lá atrás. Me mostra o quanto sou desatencioso com as atitudes pequenas, atualmente. Droga, continuo. Então, embora todo o curso tenha sido alterado há qualquer tempo no passado, querer retomá-lo agora, redefiní-lo, é inútil. E a máxima continua válida: sempre.

Não, eu não quero vestir de novo aquela pele da qual já me despi. Não quero voltar a ser aquilo, mesmo que hoje eu seja pior ou melhor, não consigo comparar! São dois pesos, duas medidas, duas pessoas. O eu, que já morreu, e que não incomoda mais. E o eu que está vivo, e que precisa de muita coisa lá de trás para poder viver bem. Preciso juntar tudo de bom e me montar de novo, porque num desses morre-e-vive, me quebrei inteiro.

Preciso fazer com que determinadas coisas morram de verdade. Não, não irão aparecer novas delas. Virão outras, diferentes, em peso e medida. Outro amor, outra profissão, outra época. Que um dia, cá entre nós, também partirão dessa para melhor.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Impasse



Merda!
Estou super ansioso, pois amanhã será um dia difícil. E este momento, o agora, é sim um dos mais estranhos que eu já vivi.
Estou aflito e triste, e com idéias borbulhando. Inspiração a flor da pele.
Mas tenho sono.
Tenho novidades a contar, desamores a transformar em poesia e a arte pra me salvar do mundo.
E tenho sono.
Então deixo tudo pra amanhã, como faço todos os dias. E o curioso é que este amanhã nunca chega, porque o outro dia sempre é um outro dia, e eu corro, corro demais. Então eu fico cansado.
Com sono.
Deixa eu parar de falar besteira. Deixa eu dormir.
Até amanhã.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pensamento XV



No fundo todo mundo sabe realmente o que quer. O que deseja, e principalmente, o que vai fazer. O que acontece é que nos enganamos, dizendo que não sabemos, para dar voltas no problema. O final, ja se sabe, será o mesmo.

domingo, 4 de abril de 2010

Amor de personagem



"- Por que esse tal amor que personagem finge que sente, amor dessa qualidade que tem paciência até pra esperar passar entre um anúncio e outro, para somente no “voltamos a apresentar” concluir o que tinha fingido que tinha começado, esse tal amor é somente de ficção, e é muito diferente desse negócio aqui que eu sinto, esse negócio de doido que eu não encontro nome nem em todas as palavras existentes e que não tem som e nem letra escrita que explique como ele é exagerado!

- Onde foi que tu leu isso?

- Eu nem li, nem decorei, e nem sei repetir de novo, porque sentimento sentido de verdade não carece de ser documentado em papel ou romance e nem filme de cinema, pois não é da conta de ninguém a não ser da pessoa que sente além da outra responsável pelo afeto causado. A conversa aqui é somente entre tu e eu, eu e tu, Karina. Finge somente uma vez que tu é tu que é pra ver se tu descobre o que tu sente, porque esse beijo que eu vou te dar agora, esse vai ser meu de verdade."



De Antônio, para Karina, em "A Máquina - O Amor é o Combustível (2006)"

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Poeminha sentimental


O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


Dele, o Mário Quintana.

Lá de dentro



Há uma chama que tremula e não se apaga. Sete velas, que mantêm-se acesas. "Não, minha senhora, não precisa colocar a mão em volta. Existe algo que não as deixará que se apaguem".

...

Farsa. Há tempos, diversos acontecimentos fizeram de minha realidade uma outra. E segui este caminho, sob a proteção de mim mesmo e daquela minha força irredutível. Uma parede alta e rija, um dique, e toda a poluição envolvida, sustentada pelo temor da aflição e da fraqueza de ser comum. Sabia que não devia confiar em mim. Pagava o preço.

...

Símbolos e seus significados. Percebo que o melhor é respeitá-los. Deixar ser, invadir minhas entranhas e me arranhar por dentro até arrancar as lágrimas. Contorcem-se os meus músculos e me colocam no chão, enfraquecido. Coloco os braços em volta de meu estômago que ameaça corroer todo o meu corpo, faço força até ranger os dentes para manter essas vísceras que ainda aguentam firmes.

...

Calmaria. Curiosamente não fui abandonado, penso. Sinto uma sensação de paz e conforto, pois há mãos que seguram uma das minhas, e que me envolvem dando segurança. De joelhos, digo ao pé-do-ouvido de meus pensamentos: não sei quem é você. Permito-me emocionar e cair no choro, sem medo. Deixo que toda a força me invada até que eu possa, novamente, sorrir. Talvez era isso o que estava faltando, e eu nem desconfiava. Humildemente, reconheço...