sexta-feira, 16 de abril de 2010

A luz do dia



O dia bagunça a cama. Corta o sono, arde os olhos, venta frio e joga longe. Gela o chão, os pés, e o corpo todo. O dia, este ente de transparência inexorável, faz tudo ser como é.

Por isso não se tem tanta afeição. A claridade esconde tudo aquilo que se quer ver, traz todos os sons ao silêncio que ainda procura-se em qualquer canto, polui. O dia polui.

E é só abrir a janela e sair na sacada pra ver que o dia não chegou só pra si. Olhares inchados batem portas e sussurram bom dia, viram a esquina, se esbarram e seguem. Os carros se trombam, as motos buzinam, e os ônibus fazem fumaça. Mais fumaça. Mais que os primeiros. E a gente, claro, a gente corre.

Depois o dia dá fome. E toca comer qualquer coisa, debaixo do sol que nos ferve a alma. Passa o carro de som, joga nos ouvidos aquela promoção absurda de roupas infantis. Automaticamente apagada da memória, um segundo depois. Então retorna-se e vem o dia querendo brigar. O dia bate forte, e bate no estômago, sem chance de defesa.

Ameaça ir embora quando o céu fica laranja. O dia luta pra viver por mais aqueles minutos, e o que vemos são só os reflexos de luz que tentam sobreviver. O dia se despede em tom de desespero, e deixa de herança os olhares cansados e os suspiros de ataque de nervos.


E eis que ela vem, sedutora e com ar de mistério: a noite.





Mas essa, já é outra conversa. Deixa pra escrever de dia.

Um comentário:

Renato Menezes disse...

Um texto que me trouxe prazer imenso. Gosto quando o céu fica laranja.