segunda-feira, 12 de abril de 2010

O dom de morrer


Todas as coisas têm a incrível habilidade de não ser. Tão óbvio como o fato de serem, simplesmente podem deixá-lo. Talvez para sempre, ou por qualquer período de tempo, não importa. As coisas morrem.

E a maneira mais difícil de constatar isso, claro, é sentindo na pele. A morte de um amor, de uma profissão, de uma época. Oh, céus, como é triste a morte do tempo, quando com o nascer do novo, morre e assim fica para trás. Já passou!, dizem, embora não resolva. Morre e nunca passa.
Vejo agora em quadros, todas as coisas que escaparam pelos vãos entre meus dedos. Se foram, e deixaram suas imagens, cheiros, gostos, vinculados a cada momento único. Existiram, e ouso parafrasear o poeta, "(...) em qualquer conjugação do verbo existir".

O que posso então, fazer, senão deixar as coisas morrerem? Por mais desesperadora que possa ser essa vontade de ser, tudo de novo, o que já se foi: aquele amor, a velha saudade, o velho sorrir descompromissado. Permito-me enterrar tudo onde, na prática, já está. Faltava mesmo era formalizar, triste ritual.

Cada coisa que morre em mim, me lembra o quanto faz diferença hoje aquela atitude tomada lá atrás. Me mostra o quanto sou desatencioso com as atitudes pequenas, atualmente. Droga, continuo. Então, embora todo o curso tenha sido alterado há qualquer tempo no passado, querer retomá-lo agora, redefiní-lo, é inútil. E a máxima continua válida: sempre.

Não, eu não quero vestir de novo aquela pele da qual já me despi. Não quero voltar a ser aquilo, mesmo que hoje eu seja pior ou melhor, não consigo comparar! São dois pesos, duas medidas, duas pessoas. O eu, que já morreu, e que não incomoda mais. E o eu que está vivo, e que precisa de muita coisa lá de trás para poder viver bem. Preciso juntar tudo de bom e me montar de novo, porque num desses morre-e-vive, me quebrei inteiro.

Preciso fazer com que determinadas coisas morram de verdade. Não, não irão aparecer novas delas. Virão outras, diferentes, em peso e medida. Outro amor, outra profissão, outra época. Que um dia, cá entre nós, também partirão dessa para melhor.

5 comentários:

Velhosantiago disse...

Pelo final da vida de minha avó, ela insistia em falar de morte. Nunca neguei assunto, falamos. E ela disse que tava cansada, que morte era pra se descansar. Não me mostrou medo, talvez um pouco de pressa: "já vivi muito", me disse. E depois da morte me veio ela diferente, me deixou viva uma consciencia, sua presença e sua mente aberta. E mais uma vez foi, para mim, um recomeço.

Elias disse...

Marisa canta:
"Coisas vão se transformar, para desaparecer"

é verdade, a vida tende sumir. Bom sentir o gosto do que foi e não é mais.

Licença, sigo-te.

Pipa. A que sonhava. disse...

O pelotão de fuzilamento está louco atrás de mim. Querem abrir fogo. Já colocaram os sentimentos mais limpos irreconhecíveis. Tem caixão não, porque o estado deles já era líquido. Emoções hemorrágicas. Um rio se forma. Um rio de sangue. Lembro de mim antes de tudo ter se passado. Tento reviver-me. Mas a faca me recorda.


Pipa.A que.

N. Ferreira disse...

Ai, menino... seus textos estão caindo como luvas nos meus sentimentos... como é difícil viver o luto pelas coisas, e conseguir guardar delas apenas o que há de essencial, sem pego.
É difícil aceitar as perdas, mas se reinventar se torna cada dia mais trabalhoso...

Raiana Reis disse...

Aos dias - não tão rápidos nesse processo - cabe nos ensinar que a morte é processo de reconstrução... Para tudo há o seu processo de passagem, e quando finda, na verdade se transforma, não há promessa de anestésicos, mas é o cal dos tijolinhos que vamos formando, construídos com tudo que já vivemos. Seremos castelos formados por todas as perdas e ganhos que vamos conquistando ao longo do caminho. A delícia é abrir os olhos para o que está nascendo, constantemente.

Beijos menino, te aprendo e te admiro em cada linha ou cada riso trocado em diálogo.