sexta-feira, 7 de maio de 2010

Trauma



Foi estranho, depois de sete anos, passar ali por aquela calçada. As manchas de sangue curiosamente ainda estavam lá, de assinatura. Enquanto a rua for o lugar mais sujo da minha vida, pra sempre lembrarei disso. Pois bem.

Era uma noite de terça-feira. Eu estava desaparecido do mundo, queria distância, mas insistiam em me procurar. Bloqueei meu telefone, não adiantou. Me encontram, mas que droga. Atendo...

- Alô?
- Preciso falar com você.
- Eu não, me perdoe.
- Me encontra em 10 minutos, você sabe onde.

Como ela sabia que era viável? Fui.

Chego e me deparo com aquele orgulho nos olhos brilhantes e a boca de quem tem muita besteira a dizer. "Diga lá, sou todo ouvidos", me armei (e não foi pouco). Terrível habilidade, desenvolvi, de possuir essas mil faces.

E após uma enxurrada de palavras, meu sorriso de canto. "Você é um louco, um doente", ouvi. Então, gargalhei. Eu sabia aonde dava pra chegar.

Foi então, oriundo desta provocação, que passei por um dos momentos mais assustadores da minha vida. Aquela expressão mudou e ficou agressiva, ameaçou me acertar com uma das mãos, e me afastei. E ao dar um ou dois passos para trás, não me lembro bem, foi que senti o golpe.

Quando vi já estava no chão, e sentindo uma dor terrível no meio das costas. Me acertaram, mas não vi bem quem foi, ou de onde veio. Levantei correndo e virei, quando vi que havia não só mais um, porém dois. Dois homens, que eu não sabia quem eram, e ela, que em meu momento de confusão, me acertou um golpe em cheio no rosto. Mais um. E eu, claro, ri.

Gargalhei mais uma vez, em bom som. "Bata-me, garota, que destes já levei tantos outros". Então um dos dois homens veio em minha direção, e o acertei. No meio do queixo, em cheio. O homem vestindo todo luto, tombou. E eu ri mais ainda.

Eis que, num golpe de azar, congelei. O outro homem à minha frente não me deu tempo para respirar, e pôs uma arma frente ao meu rosto. Mirou em minha testa, assim com a arma bem de pertinho, e a lua parou no céu.

Esbocei um sorriso...

- Atira, homem. Poe uma bala nessa minha cabeça que não para de rir, hahahah - e soltei uma gargalhada. Naturalmente, como se estivesse em paz. Estava é com medo.
- Atira nele, ele merece! - ela falou com aquela voz alta, e com toda a noção de justiça que sempre teve. E eu me senti um homem em apuros.
- Chega de papo! - gritou o homem armado.

Então ele deu um passo para trás, abaixou a arma, mirando não sei bem para onde, e atirou. Acertou, com toda a precisão, meu joelho esquerdo. E no mesmo momento caí no chão, enquanto tentava rasgar a própria camisa para apertar contra o buraco da bala, como nos filmes. Sem qualquer força, qualquer sucesso.

Percebi a movimentação, os três entraram naquele carro branco em que ela estava e foram embora, quase que silenciosamente.



Depois de tentar muito entender o que houve, acabei apagando.
Felizmente, ou não, não foi para sempre.

Um comentário:

Nana disse...

Tapas na cara e um buraco de bala... tem coisas ue dóem mais, né?
Beijos