terça-feira, 10 de agosto de 2010

As feras e as bestas



Sentado nesta pedra, observo com calma as coisas acontecerem. Parece que o mundo acabou de se livrar de um grande mau, porque a paz tem reinado. Posso respirá-la.

Meu anseio por momentos como este partiu de quando percebi toda a bagunça. O perigo à solta pelas ruas, esquinas, vielas, e o temor no rosto das pessoas. Discretamente eu andava pelas calçadas, enquanto por detrás de um olhar misterioso e vazio, podia olhar atrás dos olhos daquelas mesmas pessoas e até mesmo entender, com um pouco de paciência, o que as fazia ser tão, digamos, distantes de si mesmas.

Foi melhor, mesmo, parar com a brincadeira.

Abri os portões e deixei as feras escaparem, para que assim brigassem com as bestas que andaram provocando os pesadelos. Elas venceram, veja só. E agora passeiam aqui, selva adentro, enquanto se recuperam da briga. Respiro fundo, e escrevo parágrafos soltos...

"...no dia do sacrifício, as feras foram libertadas. Seus corpos eram uma mistura de um homem e um felino dos grandes, com pele de coloração toda branca. Tinham uma força tremenda, e com velocidade avançaram sobre as bestas, que quase se intimidaram, antes de resolverem também atacar.
A batalha foi dura. Enquanto as bestas lançavam pesadelos sobre as pessoas, as feras mordiam seus pescoços e agarravam com força suas cabeças, atirando-as contra os muros da cidade.
Um homem observava tudo, em pé e parado ao lado de uma casa abandonada, frente ao portão de grades, todo enferrujado. Sob o céu escuro, vestia um casaco cinzento, destes pesados, e um chapéu que escondia o rosto. Era ele quem comandava as feras..."


Vejo uma delas aqui por perto, de sentinela, a me defender. Só eu sei o quanto preciso disso, hoje.


Mas, ninguém mais sabe.


Ninguém mais.

Um comentário:

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Eu ia dizer alguma coisa, mas depois que li seu texto, ele me roubou até as palavras.