segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Cura



- Não tem cura, disse o médico.

E foi então que, neste momento, todas as coisas se transformaram. E enquanto o doutor descrevia seguramente como funcionava tudo aquilo, eu sentia queimar, dentro de mim, todas aquelas particulas venenosas que correm agora pelo meu sangue sem a menor previsão de que irão sair. Não vão.

Saí daquela sala transtornado. Nas mãos, papéis impressos em computador com a força de uma bomba nuclear, os quais amassei com toda a força que tomava meus pulsos: eu ainda a tenho.

Sentei no banco do carro e olhei no espelho. No fundo dos meus olhos, pude visualizar uma mistura de sentimentos que quase me fizeram bater com a cabeça no volante, assim, beirando a insanidade. Respirei fundo, o coração naquela disritmia crítica que sempre me arrebenta nos momentos de tensão, me fez fechar os olhos e deixar lágrimas caírem. Olhei no espelho de novo e suspirei: "a culpa é sua".

Desci do carro, resolvi ir à pé. Naturalmente, as pessoas seguiam seus caminhos sem nem mesmo olhar para o lado. Em meio à multidão, me senti apenas mais um, e isso foi me trazendo de volta o controle dos nervos. Avistei um banco, destes de praça, onde havia uma mulher. Sentei.

Ela pareceu nem notar minha presença, e continuou ali, focando seus olhos - congelados - na calçada. Sem nem me questionar o que ela estaria olhando, fiz o mesmo e novamente suspirei: "a culpa é sua". Então, a mulher me olhou. Estava olhando para a calçada mas percebi que ela virara o rosto e sua respiração pode até mesmo chegar em mim. Foi então, que ela disse:

- A cura está aqui. - E me entregou um pequeno papel branco, dobrado e amassado como um bilhete.

Mal tirei os olhos do bilhete e olhei de volta para procurar por seus olhos, e ela havia desaparecido. Misteriosamente a multidão a levou para qualquer lugar desta metrópole.

- Droga! - Gritei enquanto, em pé, a procurava com os olhos lá na frente. Em vão.

Sem nem mesmo sentar, voltei ao bilhete e o abri, como uma criança recebendo o presente.

Quando abri, era um papel em branco. Mas o papel era ligeiramente fino, quase que transparente, de forma que eu podia ver cada linha da palma da minha mão.

Quem será que era aquela mulher?


3 comentários:

Raiana Reis disse...

E aí costumam estar nossas curas, quando (não facilmente) conseguimos ver que há em mãos outras escolhas, e Deus nos mostra que sangramos só pra mudar de pele...

Um beijo no coração...

Fernanda Hauptmann disse...

Muito bem escrito, parabéns :)

Sérgio Viana disse...

Viajei. Cara, curti muito. Muito bom.
Abraço.