quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Informal



No meio da conversa, a moça virou e me disse: Eu quero me apaixonar.

E então, todo o desfecho daquela noite foi completamente modificado. Aquele grito vindo do fundo do peito, como quem diz "dê valor a meus valores", me fez traçar todo um futuro com aquela mulher incrível: uma casa boa na região nova de qualquer cidade, nossa, é claro. Quadros, dois ou três, dos pequenos. Sofá confortável, cozinha pequena - não iria haver muitos malabarismos, mesmo.

Duas ou, quem sabe, três crianças ali correndo, pra lá e pra cá, me fazendo sentir o pai mais orgulhoso do mundo. Crianças lindas, e completamente agitadas: verdadeiros furacões atravessando os cômodos.

Então pude ver, apesar da baixa luminosidade da mesa do restaurante, estes mesmos olhos e sorriso que me encantavam, me encantando após anos, e anos. Agora mulher, encostada de lado no vão da porta, com cara de brava para as crianças, e depois me olhando sorrindo e dando aquela piscadela, com todo o charme. É, o charme é pra sempre, logo concluí.

Toda essa projeção em fração de segundos, e logo já estava de volta para o presente.

 - Entendeu o que eu disse?
 - Ahn? - Respondi, totalmente perdido.
 - Bobo, nem prestou a atenção... - ela disse, e sorriu, completando o gesto com um leve beliscão em meu braço. "Você é lindo, sabia?", completou, e me pôs novamente no ar.


Voar é bom.


Eu também quero.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Linha Verde



Aqui eu ando entre as imagens dos postais
E vejo gente, muita gente, muita gente
Esquisitisses entre ruas e calçadas
Ainda pessoas tratadas como animais

Eu tomo a chuva que alguns cantam por aí
Fechando os olhos, eu arrisco, a cada esquina
Se são três horas, quinze horas, meia noite
Ninguém se importa, continuam a seguir

Quem era aquele, com aquele chapéu branco?
Era um artista, musicista ou coisa assim?
Entrou no carro, fez barulho, ja está longe
Se camuflou entre o pecador e o santo

Tomo cuidado para não ser percebido
Forasteiros não são bem vindos por aqui
Eu ando armado para o risco de um duelo
E meu disfarce deixa o rosto escondido

Vou pensativo, acho que quero ficar
Se eu for embora, é que não cresço nunca mais
Posso estar longe e, ainda sim, estou aqui dentro
Deus, quanto tempo, levarei para chegar? (irei chegar?)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ezequiel 25:17


Há uma passagem que eu memorizei, me parece apropriada para esta situação: Ezequiel 25:17. "O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado seja aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: chamo-me o Senhor quando minha vingança cair sobre você".




Ahhhhhhhhhh Pulp Fiction!

domingo, 26 de setembro de 2010

Disritmia



Eu quero
Me esconder debaixo
Dessa sua saia
Prá fugir do mundo
Pretendo
Também me embrenhar
No emaranhado
Desses seus cabelos
Preciso transfundir
Seu sangue
Pro meu coração
Que é tão vagabundo...

Me deixa
Te trazer num dengo
Prá num cafuné
Fazer os meus apelos...(2x)

Eu quero
Ser exorcizado
Pela água benta
Desse olhar infindo
Que bom
É ser fotografado
Mas pelas retinas
Desses olhos lindos
Me deixe hipnotizado
Prá acabar de vez
Com essa disritmia...

Vem logo
Vem curar seu nego
Que chegou de porre
Lá da boemia...(2x)
 


Deixo este samba, de Martinho da Vila, no clima de uma tarde chuvosa de domingo. É bom abraçar o violão, desenrolar os acordes, e se sentir em paz.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cerca

(Créditos da Imagem: Marlio Forte )


São mil canções de amor, me levando a lugar algum. Emoção jogada pro alto, levada pelo vento, semeando terras dessas, por aí.

Engulo em seco aquilo que não tenho a quem dizer, trago para o estômago a dor de amar e apenas deixo-a de reserva. Vai que, um dia...

Se amar é um precipício, o não-amar é uma cerca de arame farpado. Ali intacta, não ouse pular ou pode se arranhar, se machucar, e ainda nem conseguir passar para o outro lado.

E nem tente acompanhá-la pelo terreno. O caminho é longo e cansativo, além de ter muitos obstáculos. Chegará, então, na água-corrente da paixão. E após banhar-se de prazer, voltará encharcado morro acima. Tudo de novo.

Digo porque conheço o caminho. E de tanto me cansar, estou aqui sentado num pequeno barranco frente à cerca. Olhando para o outro lado, um campo que termina no horizonte, e umas montanhas por detrás de uma névoa clarinha. O que haverá após os nós pontiagudos dos arames?

Vou por aqui ficar até encontrar um jeito de atravessar. Sei que posso sair machucado, mas pago o preço. Pode ser que eu tenha de voltar também, temporariamente ou - quem sabe, por que não? - para sempre.

Venta a brisa, e quando não há sombra, raios de sol queimam meu rosto até arder. Arde a pele e o coração, que se encolhe todo.

Fecho os olhos e só sinto, sem pressa. Tenho tempo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Monday's nights



Não peço a ninguém, que entenda meu ritmo de vida. Isso não é necessário, nem a mim, nem a todos os outros.

Eu vejo que tem gente que tenta, e até admiro o pouco de vontade. Quando digo pouco, é porque logo no começo, já consigo prever quando vai acabar. É impossível - ou pelo menos, até hoje, ninguém conseguiu - entender estas minhas maneiras durante muito tempo.

Tenho emoções transbordando a todo momento. São tristezas e alegrias, surgindo e disparando meu coração quase que instantaneamente! Posso virar a toda velocidade, te segurar com força o braço, e olhando no fundo dos teus olhos, acredite: irei passar a mão direta por detrás da sua orelha, entre os cabelos, e dali tirar uma flor. É sua.

Os medos surgirão e, independente de onde, ou de quando, será necessário ter cuidado com eles. Posso tremer e suar frio, apenas de ler aquela palavra. Dias atrás descobri que ela ainda me incomoda, e nem acreditei. É, fará parte de mim, durante a vida inteira. E eu precisarei mesmo de um colo para me acolher, quase como ar.

Paro pra pensar o quanto tenho vivido sem ar. Sobrevivido.

E é neste ponto que passo a me confundir. Quando esqueço do mínimo detalhe: o que eu sou, inconscientemente interajo com todos à minha volta e por certas vezes, exijo compreensão, ajuda, força. Em vão, percebo a não reciprocidade para os sinais que mando, e padeço. Hora de voltar à realidade.

Saio na segunda-feira a noite porque sei que este dia tem uma magia incrível! Saio e não tem hora, lugar ou pessoa, que me faça voltar. São aventuras, com intervalo de tranquilidade e café, ou explosões de prazer e sonhos de valsa, que podem se intercalar durante a noite toda. Segunda-feira, segunda-feira a noite.

E com certeza vou terminar ali, naquela mesa amarela, de plástico, a número 12. Me abastecendo para o próximo dia, e me enchendo de esperanças de um dia ter como compartilhar tudo isso.
Qualquer segunda-feira destas dá certo, eu sei que dá.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Socorro



Após a colaboração da minha querida Raiana, deixo esta letra do Arnaldo Antunes, que eu não conhecia, mas que cabe exatamente em minha situação.

Socorro - Arnaldo Antunes

Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...

Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...

domingo, 19 de setembro de 2010

Immortal Beloved



"Os que me acham hostil, obstinado, misantrópico. Como podem ser tão injustos comigo? Não sabem como é, não poder dizer: 'Fale mais alto, grite! Não estou ouvindo!', o que fariam se soubessem que perdi o sentimento, que deveria ter mais em mim do que em todos os outros?"




Beethoven, em "Minha amada Imortal"

sábado, 18 de setembro de 2010

Duo

Quem sabe, milhares
de francos olhares
Diretos nas lentes
talvez de repente!
Ou mesmo ensaiados
se, não, descartados
Trarão pensamentos
ou, logo, momentos
pra levar pra si
Ou jogar ali
bem no meio-fio
Ou margem de um rio
Pra água levar
pra longe, levar
que é pra ela, viver
e logo, saber
Que o óculos faz
E o medo que traz
a quem, ali, olha
e ousa, desfolha.
Mas saiba, ela esquece
E desaparece.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Detrás



Há várias coisas erradas,
no meio do todo certo.
Quem há de prever os fatos,
e distinguir o que é limpo?

Eu vejo nos pensamentos,
por onde se abrem retinas,
que há um errado escondido.
Para nao ser descoberto,
se joga por entre os carros,
se faz de desentendido,
mas sabe que está errado.
Teme, sim, ser seguido.

E é nessas, e também n'outras,
que aconselho meus filhos:
melhor que os perdoem,
além de por ter nascido,
mas também porque há algo,
sempre algo detrás dos fatos,
que muda todo o sentido.

Olhe pra aquela moça,
veja que belos passos,
meça seus olhos grandes.
Agora olhe mais fundo,
pergunte a seus segredos,
quais os planos pra esta noite?

E o que ronda aquele homem,
que se faz de palhaço,
brinca com todo mundo!
Qual será seu problema?
Mil possibilidades.

Deixa que eu cuido disso,
respeitando os errados
[é que - pois]
aprendi a ler seus mitos.
E a desvendar seus nomes,
também reais motivos,
pra encarar qualquer fome,
quaisquer dos dias frios.

Porém, se eu nao descubro,
fico mais e espio.
Quero obter mais pistas,
pra dizer o que digo,
que quando há algo em troca,
ou algo atrás das portas,
eles se mantêm vivos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Proposta



Posto esta canção, apenas para demonstrar meu profundo desejo de cantá-la de verdade, assim no ouvido, da mulher amada.
Brega, que sou, corro facilmente o risco de isto nunca vir a acontecer.
Pago o preço.


Eu te proponho
Nós nos amarmos
Nos entregarmos
Neste momento
Tudo lá fora
Deixar ficar...

Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz...

Eu te proponho
Na madrugada
Você cansada
Te dar meu braço
No meu abraço
Fazer você dormir...

Eu te proponho
Não dizer nada
Seguirmos juntos
A mesma estrada
Que continua
Depois do amor
No amanhecer




Obrigado, Rei.

domingo, 12 de setembro de 2010

Timeline



Minha vida, muitas vezes, se resume a poucos momentos. São fragmentos de vida, ordenados da forma que eu escolho, para aquele dia.

No outro dia, uso dos mesmos fragmentos, de maneira diferente. Ou até da mesma forma, quem sabe?

Esta rotina de alternar posições para os atos acaba, nestas mesmas muitas vezes, determinando o que será de mim, ou – quem sabe, indo até mais longe – o que efetivamente eu sou.

Sair por aí respirar o ar puro da cidade fria não me enjoa, e não enxergo que isto um dia acontecerá. A falta de companhia já me deixou tão à vontade em ver o banco do passageiro vazio, que até me deu mais intimidade – talvez, quem sabe – comigo mesmo. Conversar consigo mesmo é se conhecer melhor. Em voz alta, ou não.

E então, entre as luzes da avenida, a parada pra um café. Curto, forte e quente, bem quente, “do jeito que você gosta”, ela me diz – a moça. Nessas paradas rotineiras, independente de horário, é que passo a conhecê-las, estas – as mocinhas de uniforme – grandes responsáveis pelas minhas noites acordado. E aposto, como elas nem mesmo sabem disso! Sabem, apenas, o jeito que eu gosto dele. O café.

Voltando pro meu caminho, talvez possa cruzar com alguns conhecidos, e acenar. “Olha lá o Machado”, pensarão. Ou apenas irão acenar e continuar o assunto, o pensamento, o caminho. Enquanto eu continuo o meu, rua acima, rua abaixo.

Então posso fazer dos meus dias, só meus. E em cada intervalo, tem uma oração, pra Aquele que está comigo sempre. Se eu passo por perto de uma igreja, que ainda não conheço, eu posso parar e entrar! “Entre que a casa é tua”, venho a ouvir. E, é claro, aceito o convite. Sair dali renovado por si só, já é o grande feito.

Se eu estou inspirado, não há noite que não me convite para uma dose mais forte. O pub tem luz baixa, detalhes em azul, e uma decoração rústica. Propícia.

Encosto no balcão, sento naquele banquinho nada confortável, e sei que é o que existe ali para mim, só para mim.
- Fala, Machado, duas pedras?
- E meia! (rimos) Esta metade é que faz a diferença, bixo.
Saber do gelo do meu uísque pode ser para poucos. Apenas preciso que estes estejam ali.

No mais, sei mesmo que não irei dormir. Somente acordar. Amanhã.

sábado, 11 de setembro de 2010

Toda a vida


"É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música."

(Honoré de Balzac)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quando não se ama



Posso facilmente notar: algo está errado. Mas o quê, exatamente, me incomoda?

Não importa o que eu faça, existe alguma coisa me bloqueando. Alguma força estranha está agindo, eu sei, e fazendo uma verdadeira reviravolta em meus sentidos. Explico.

Há tempos não tinha momentos como estes: de pura reflexão, de causar aquela sensação de "fechado para balanço". Como venho vindo e justificando a mim mesmo: não tenho mais tempo para isso.

E foi no decorrer de um destes momentos que pude me lembrar da minha velha loucura, o velho Lenhador, ainda está vivo. Graças a Deus, não queria tê-lo perdido jamais! Parece mais insano ainda, mas suar frio durante uma noite calorosa, tremer e não conseguir dormir, não me fez tão mal assim.

Sabe, não estou apaixonado.

Ao encontrar o que verdadeiramente me ocorre é que tudo se justifica. Esta não-paixão tem me influenciado direta e freqüentemente, fazendo com que eu me sinta assim, neutro.

Tal neutralidade tem melhorado diversos aspectos, como o profissional, por exemplo. Coisas incríveis acontecem, e minha carreira se desenvolve por si só. Exijo de mim uma dedicação que me consome, e me dou. Pronto, vêm as novas realizações.

Entretanto, a passionalidade nula me tirou o gosto de cada um dos sentidos.

Pego a estrada, verdadeiro tesão que tenho em explorar horizontes, porém nada sinto.

Ouço as músicas, mesmo as que mais me tocam, porém nada acontece. Nem um arrepiozinho pra contar a estória.

Vejo o mar, ah, por Deus, o mar. Sento, relaxo, desligo-me do mundo frente a esta brisa maravilhosa que chega do litoral. Porém, eu sinto: não é a mesma coisa.

Sei, esta sensação pode não durar muito tempo, ou pode durar a vida inteira. Deixo a vida me mostrar, com cada passo que eu der, o que me aguarda ali na frente.

De qualquer forma, quando não se ama, não há o que impressione. Apenas se vive, e se deixa viver.

E só.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pensamentos de Areia



Foi necessário esperar que toda a tempestade passasse, para poder postar este texto. O tempo abriu, e agora com céu azul, dias ensolarados e brisas trazendo paz, publico o que foi herdado do inferno, de dentro pra fora. Será que foi amor?
De fato, não saí ileso desta.
Segue.

...

Opostos.
Equilíbrio.
Vida.
Mar e areia.
Reclamações e desprendimento.
Delicadeza e espontaneidade.
Isso é uma grande lição de casa.

Elas passam, leves.
São suaves, voam.
E por esse segundo os segredos evaporam.
Sim, eles existem.

Que haverá por trás das balas de resolver enquanto eu dirijo?
Deveria, talvez, ter parado o carro.
Foi só um sonho ruim, e por isso pareceu até que eu não queria.
Será?

Enquanto isso o sol envolve seu corpo, toca, desliza.
Suga seu calor e lambe seu suor.
O charme continua o mesmo, os olhares também.
Meu ciume, é..., Não sei.

Outra grande lição: Não sairei ileso desta.
É possível prever o futuro, e desta feita rezo.
Rezo e rezo. Todo dia.

Há um turbilhão de bem e de mal.
Não mais forte que o vento que traz essas quebras de onda, de sonho e de sal.
Por enquanto.

Eu perco a ponta desse lápis verde.
Há tempos já perdi meu rumo, meu escuro e meu drama tão clichê.
Mas eu não perco a idéia, isso não!

Eu vou pro mar.
E volto diferente.
É, não há o que não mude após a boa onda.

E pensar que uma palavra pequena: "mar", significa tanto.
Tenho outra também: "céu".
Que imensidão!

E a máxima continua válida: as coisas mínimas e seus valores imensuráveis.
Ela é pequenina mesmo.
Eu sabia! Que será das grandes? "Inconformado" para o simples fato de não se crer.
E eu, todo grande, padeço aqui.

Talvez isso explique meus erros imaturos de ontem.
E me faça recomeçar no melhor estilo: livre.
Para amar, inclusive.
Para amá-la. (?)

O amor independe da reciprocidade, e isso é ainda mais bonito que o mais bonito acorde daquele violão pobre e encostado.
Opostos.
Equilíbrio.
Vida.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Universo Particular



De repente, de novo, aquela sensação. Paro o carro, desligo. Respiro.
Como pode?
Agora mais calmo, volto para a estrada, e calmamente reflito este meu devaneio que não sai da cabeça.

Desde os meus 15, 16, é que não consigo aceitar esta idéia. Já faz certo tempo, eu sei, e penso ainda não ter maturidade para encarar este tipo de coisa. E talvez nunca alcance este ponto. Tenho medo.

O que me incomoda de verdade, é a idéia de que bilhares de universos estão à minha volta. Sim, e este tipo de catarse acontece exatamente nos momentos em que essa realidade se aflora: eu, em meio à uma multidão, esteja onde estiver.
Enquanto dirijo, milhares de carros vêm e vão, o tempo todo, na mesma direção que eu e na outra também. Carros azuis, pratas, pretos, cinzas, brancos. Pessoas, pessoas, pessoas. Centenas de milhares delas, por toda parte. Cada uma, um universo, que cruza diretamente com o meu universo.
Ao passo que, seguindo a estrada, outra parcela de milhares de pessoas atravessam a pista, ou estão de um lado, ou estão de outro. Casas na beira do caminho, abrigando famílias. Todas, cada uma delas apesar de sua idade, cor, tamanho, etnia ou nacionalidade, tem um universo inteiro girando em torno de si. E assim, cruzam com o meu universo.

Me concentro no senhor com aquela bicicleta, aguardando os carros aliviarem o fluxo, para atravessar a pista. Para onde esse cara está indo? São quase 16h no feriado, um vento quase cortante lá fora, chuva fininha, e ele ali. Mas da onde este homem veio?
Mil-e-uma circunstâncias o trouxeram até aquele ponto. Justamente para aquele metro quadrado de acostamento, em que eu passaria em alta velocidade, e cruzaria com o mesmo. Só o fato de ele ter me visto, e guardado a imagem da combinação modelo / cor / placa do meu carro - ainda que no subconsciente - já faz com que nossos universos todos tenham se cruzado de inúmeras formas.
Quem é este, qual o seu nome, sua idade? Aparentando quase 50 anos de sofrimento, é impossível não pensar que há toda uma vida de saudade e lembrança, de trabalho e até esperança, desejos, compromissos, fé. Quanta bagagem tem ali, naqueles poucos segundos, em que passamos um pelo outro.
O boné azul, quase escondendo o rosto moreno de barba grossa e mal feita, a blusa de moleton surrada, de um cinza sujo quase preto, e uma calça jeans que no mínimo abriga o guarda-roupa - ou quem sabe, a caixa de papelão - há muito tempo, partirão para sempre da minha memória, em alguns dias. Ou não.
Entretanto tudo isso não isenta a realidade de que aquele homem irá seguir sua vida, chegar onde deseja, e passar sua noite. Acompanhado ou não, com frio ou não. Assistirá TV ou os carros que passam, e enfim, dormirá. Ou, quem sabe, não.

Como pode, como pode?

Paro o carro, desligo. Respiro.

É hora de continuar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Idem.

Ontem eu escreveria um texto semelhante ao anterior.
Ai de mim.
Caí na cama pra esquecer do mundo.

E hoje...

Bom, hoje é outro dia.

Graças a Deus.