terça-feira, 7 de setembro de 2010

Universo Particular



De repente, de novo, aquela sensação. Paro o carro, desligo. Respiro.
Como pode?
Agora mais calmo, volto para a estrada, e calmamente reflito este meu devaneio que não sai da cabeça.

Desde os meus 15, 16, é que não consigo aceitar esta idéia. Já faz certo tempo, eu sei, e penso ainda não ter maturidade para encarar este tipo de coisa. E talvez nunca alcance este ponto. Tenho medo.

O que me incomoda de verdade, é a idéia de que bilhares de universos estão à minha volta. Sim, e este tipo de catarse acontece exatamente nos momentos em que essa realidade se aflora: eu, em meio à uma multidão, esteja onde estiver.
Enquanto dirijo, milhares de carros vêm e vão, o tempo todo, na mesma direção que eu e na outra também. Carros azuis, pratas, pretos, cinzas, brancos. Pessoas, pessoas, pessoas. Centenas de milhares delas, por toda parte. Cada uma, um universo, que cruza diretamente com o meu universo.
Ao passo que, seguindo a estrada, outra parcela de milhares de pessoas atravessam a pista, ou estão de um lado, ou estão de outro. Casas na beira do caminho, abrigando famílias. Todas, cada uma delas apesar de sua idade, cor, tamanho, etnia ou nacionalidade, tem um universo inteiro girando em torno de si. E assim, cruzam com o meu universo.

Me concentro no senhor com aquela bicicleta, aguardando os carros aliviarem o fluxo, para atravessar a pista. Para onde esse cara está indo? São quase 16h no feriado, um vento quase cortante lá fora, chuva fininha, e ele ali. Mas da onde este homem veio?
Mil-e-uma circunstâncias o trouxeram até aquele ponto. Justamente para aquele metro quadrado de acostamento, em que eu passaria em alta velocidade, e cruzaria com o mesmo. Só o fato de ele ter me visto, e guardado a imagem da combinação modelo / cor / placa do meu carro - ainda que no subconsciente - já faz com que nossos universos todos tenham se cruzado de inúmeras formas.
Quem é este, qual o seu nome, sua idade? Aparentando quase 50 anos de sofrimento, é impossível não pensar que há toda uma vida de saudade e lembrança, de trabalho e até esperança, desejos, compromissos, fé. Quanta bagagem tem ali, naqueles poucos segundos, em que passamos um pelo outro.
O boné azul, quase escondendo o rosto moreno de barba grossa e mal feita, a blusa de moleton surrada, de um cinza sujo quase preto, e uma calça jeans que no mínimo abriga o guarda-roupa - ou quem sabe, a caixa de papelão - há muito tempo, partirão para sempre da minha memória, em alguns dias. Ou não.
Entretanto tudo isso não isenta a realidade de que aquele homem irá seguir sua vida, chegar onde deseja, e passar sua noite. Acompanhado ou não, com frio ou não. Assistirá TV ou os carros que passam, e enfim, dormirá. Ou, quem sabe, não.

Como pode, como pode?

Paro o carro, desligo. Respiro.

É hora de continuar.

Um comentário:

Raiana Reis disse...

Nesses tantos universos, maior que o susto dos esbarrões é a magia das escolhas em cada esquina. No cruzamento de águas que se unem para um novo curso...