sábado, 9 de outubro de 2010

Fatia do Problema


 
A criança nasceu. Nasceu e cresceu, serelepe, feliz. A criança cresceu e aprontou.

Aprontando, claro, apanhou. E não foi pouco. Apanhou de mangueira, de vara verde, de chinelo havaianas branco com as tirinhas azuis clarinhas. Ficava a marca as mãos da mãe e da cinta do pai nas pernas, a criança lembra.

Depois a criança foi crescendo, desenvolvendo, ficando bonita. Ficou jovem.

Quando este jovem já estava grandinho, se espelhava muito na família. Pai e mãe estáveis, família constituída, irmãos, irmãs, casa própria. Casa simples, costumes do interior, daqueles de brincar na rua e comer porcaria, tirar a tampa do dedão, chorar e logo em seguida já estar brincando de esconder, terrenos de terra acima e abaixo.

O jovem se tornou adulto. E já que desde criança aprendeu que tem que trabalhar pra se dar bem na vida, o adulto se tornou um diretor, que corre pra lá e pra cá, viaja, não pára.

O adulto conheceu uma adulta. E essa adulta, vejam só!, era tão parecida com ele: bem criada, bem educada, crescida moderna com cabeça simples. Gente, mesmo. Aliás, como não poderia ser diferente, ela era tão bem sucedida, quanto ele.

Após anos de uma relação difícil (afinal, com a distância, as viagens, reuniões e happy hours, almoços com clientes, não há relação que não se torne difícil), resolveram se casar. Casaram-se, os adultos, na capital, com direito a lua de mel na Europa. Não é para qualquer um.

Eis que alguns meses após o retorno da viagem, é dada a notícia: aí vem uma criança.


A criança nasceu. Nasceu, e cresceu. Dentro de um apartamento, criada por uma babá. A criança cresceu e aprontou, pra chamar a atenção, porque não tinha nunca seus queridos pais por perto. Aprontou, e não apanhou. Aprontou de novo, e apanhou! Da babá, que foi pra rua.

A criança foi crescendo e viu na TV que se apanhasse, seria violência infantil e os pais poderiam ser presos, quando em flagrante. A criança, ainda criança, e já aprendeu o que significa flagrante, quando a diretora da escola particular a vê guardando um pacote de drogas na bolsa.

Após discussões intermináveis sobre o que fazer com a criança, os adultos, resolvem se separar. De forma traumática, porém burocráticamente simples: em dois meses está tudo pronto. Separam-se e agora sim, está tudo perdido: a criança apronta, mas não vai apanhar: nem do adulto, nem da adulta. Primeiro porque é crime, segundo porque se ele bater, a guarda vai pra ela, e se ela bater, a guarda vai pra ele. Ninguém quer perder, mas ninguém pode cuidar.


Ninguém vai.

Um comentário:

Sérgio Viana disse...

muito bom. Reflexão social com retoques de artista.