sábado, 23 de outubro de 2010

La vida secreta de las palabras

(Imagem: Angeles Mora)


Eu queria ser cantor. Sabe, até canto alguma coisa, bem de leve assim, eu levo bem.

Mas não é disso que eu estou falando. Queria ser cantor de verdade, como este cara que eu estou vendo agora aqui, no restaurante Mexicano. Ele leva desde "Amor, meu grande amor" até "People are Strange", passando por "Stay" e fechando com chave de ouro em "You got it". Precisa dizer mais?

Não é inveja, penso. É vontade, mesmo, e até um certo conformismo de que aquilo não é da minha natureza. Cantar não é, e nunca foi, algo que veio de dentro de mim. Mas sim, algo que aprendi a fazer.

Para o cantor, o que vale é cantar. Não só o que vale, mas o que ele precisa, tem sede, e uma necessidade espontânea inacreditável. E pode o bar estar completamente vazio que ele estará lá: afinadíssimo, firme, com sua voz potente e seu violão preenchendo cada espaço vazio em cada mesa.

A mim, resta contar a história. Isto, sim, é da minha natureza!

Então secretamente faço um acordo com a vida: O cantor vai cantar, e seu espetáculo será fabuloso. E se não estiver ninguém assistindo eu estarei ali com toda certeza. E depois eu vou parar, refletir e contar com toda a delicadeza e riqueza de detalhes necessária para tornar esta noite a mais incrível da minha vida!

Toda noite sempre é.

Parafraseio o poeta: "Não existem boas histórias. Mas sim, bons contadores de histórias". E acredito nele: um simples anoitecer pode virar um grande fenômeno, reagindo em toda a multidão, no coração dos apaixonados, na lucidez dos que estão na escuridão ou na santidade equivocada de alguns monges. Depende apenas, nas palavras de quem, é que este anoitecer está.

Sem um bom contador de histórias, a vida seria apenas uma sequência de fatos. Secretos.

2 comentários:

Tatiana Carlotti disse...

E eu queria ser cantoria de cabaré! Daquelas dos anos 20... Mas nasci no tempo errado, fazer o quê?! Contemos histórias!

Renato Menezes disse...

As histórias ficam...além dos fatos...