domingo, 24 de outubro de 2010

Monday's Nights - part II


Chegou no restaurante por volta das oito e meia. A noite gostosa, de calor e brisa fresca, a disse: "Aquele vestido", e ela obedeceu.

Tinha os cabelos longos e castanhos, sutilmente ondulados, de maneira a desenhar a forma perfeita de seu rosto. Uma beleza de cinema: pele bem branquinha e olhos castanhos - feito os cabelos - brilhando, sorriso perfeito em sintonia com a expressão angelical. Disse ao homem na porta: "Boa noite, mesa para 2", sorriu, e entrou.

Estava sentado duas mesas à frente da que ela sentou. Pude acompanhar sua entrada, que trouxe energia boa fez com que a brisa passasse naquele momento pelo meu pescoço. De propósito, aposto que foi ela. Conseguiu me arrepiar.

Eis que usava um vestido azul, nem longo e nem curto, que apenas amansou para sentar-se em uma cadeira bem de frente para a minha, embora as mesas entre o campo visual. Cruzou as pernas e, curiosamente, esperou.

Esperou e ali ficou, com uma expressão de quem estava segura. Olhei para seus olhos por alguns instantes, enquanto bebia meu uísque da noite. Entretanto ela deixou bem claro que não estava para brincadeiras: não fixou seu olhar no meu em nenhum momento. Entendi o recado.

Havia em uma das mesas ao redor, uma família com uma pequena criança: uma loirinha de aproximadamente 6 ou 7 anos, de vestidinho branco e um cabelinho de anjo. "Feita para este momento", pensei em voz alta. Tomei mais um gole.

Então pude reparar que a menina, cheia de sorrisos, se aproximou daquela bela mulher. Com toda a ingenuidade e coragem de uma criança, perguntou:

 - Como você se chama?
 - Michele, e você, menina bonita?
 - Carlinha. Tenho 7 anos.
 - Menina bonita, com um nome bonito!
 - Ta esperando alguém? Seu namorado?
 - Estou esperando alguém, sim.
 - Então ta! Tchau
 - Tcha-au.

Tcha-au. Assim, pausadamente. Quase me derreti por aqui (Sou altamente vulnerável à espontaneidade, definitivamente).

O tempo passou: Nove, Nove e meia, Dez. Dez e quinze levantei para pagar a conta, e ao levantar, me deparei com uma expressão de preocupação, misturada com um toque até de tristeza, de decepção. A testa ligeiramente franzida, e os olhos já tinham água. Toda aquela beleza foi prejudicada, é claro. A beleza é muito mais bela, quando exala tranquilidade. É mais sincera.

Paguei a conta logo após o pai daquela família. Saímos praticamente juntos entre as mesas, eu, e os três em minha frente. Eis que percebo aquela delicadeza de menina, com uns olhinhos miúdos agora - talvez seja o sono, pensei - virar em direção à Michele e dizer:

 - Acho que ele não vem.

Michele, já com os olhos escorrendo lágrimas, inclinou sua cabeça e olhou para as próprias pernas, e para as marcas das gotas em seu vestido. Em seu íntimo, absorveu o que a pequena Carlinha lhe disse.


"É, acho que não."

2 comentários:

Raiana Reis disse...

E o mundo anda mesmo assim, instável... Como encontros marcados que se desfazem repentinamente.

Tatiana Carlotti disse...

Eu sempre digo: a vida é dura, mas quando dá de ser boa...