terça-feira, 30 de novembro de 2010

Apelo


 
Permito-me deixar que o amor exista. Se em verdade, desta vez, veio a surgir, pois que seja então este punhal a perfurar cada um dos poros do meu peito até penetrar meu coração e, veia e veia, dilacerar o que ainda resta desta estrutura que finge que é forte.

Em cada cômodo há um pouco do que é dela, e em cada canto do meu corpo resta ainda mais um pouco dela inteira. Faço que me engano, finjo que já foi, e logo me lembro do que não sai de mim, nem sairá. Lembro que eu não vou deixar, nunca mais, de queimar naquele fogo a cada manhã.

Não venço a guerra. Não tento, apelo, abro os braços e caio de joelhos frente à porta - que dei uma volta a menos na chave, na esperança te ver ali do outro lado a me chamar. Sinto que é em vão quando só o vento pelos corredores me responde um não em sua cantoria.

Em teus braços que não encontro, termino por adormecer após horas de luta. No meio da noite meu coração falha, o ar me falta, e eu acordo. Aqui, bem ao seu lado. Onde você deixou o seu amor. Onde você não está.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cheers


 
Tenho um gosto seu, em meu corpo
Tenho uma metade sua em mim
Metade, assim
De mim

Faço gosto de sentir seu cheiro
Cheiro de boca, quando respiras
Permito-me sentir-te
Em mim

Dorme em meu peito, teu lugar
E sente o perfume em minha nuca
Que a paz, hoje minha, vem
De ti

E resgato em meu lago a sorte
De ensinar-te os passos
Estrago e te curo, entro
Em ti

Que se acabe o sentir, da morte
E o mundo ecoará sonhos
Absorvamos vida, um brinde
A nós.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

No meio de tudo, você



Por um longo tempo eu vivi na sujeira. No meio dos rombos, dos restos e dos rastros, eu me alojei. Me mantive infiltrado em meio a toda aquela maldade analisando cada pedaço de gesto. E aprendendo.
Havia muitas pessoas querendo comer umas as outras. Canibalismo e sociedade andando juntos? A resposta é sim, claro, ou não haveria o primeiro. São dedos fracos em gatilhos descontrolados, gritos (e quase que cheguei, por vezes, a ouvir o ranger de dentes) cheios de hostilidade e agressão física, brutalidade crua.
E por que, isso?
A resposta também é simples: interesses.
Uma das mulheres mais cruéis que eu já conheci, certa vez, me disse: "Você considera uma pessoa legal? Dê dinheiro e poder a ela, e depois disso, conversamos", e referenciou "O poeta" como autor. Eu, um menino (que realmente era), ouvi e acreditei. Estava lá muito mais para ouvir, mesmo, do que para falar. Não tinha nada a ensinar, evidentemente.
A vida foi seguindo e a habilidade de arquitetar pensamentos, manipular idéias, mover pensamentos e atitudes em massa continou. Da mesma forma que não tenho o menor orgulho, não tenho vergonha de falar. É a verdade, e é só ela que realmente vale.
Matei, morri, todos os dias. Sem a menor pena.


Até que você apareceu.


E foi a coisa mais bonita e doce que pôde acontecer por todos estes anos. Te ver ali tão bela com teu sorriso, e esta habilidade incrível de me encantar e me cegar os olhos com teus olhos, tão, tão sinceros.
A reciprocidade do nosso olhar me desarmou. Joguei as armas no chão e chutei-as pra frente: deixei de lado todas as más intenções. Sensação de entrega mútua, de transparência, de cumplicidade.
Conforme os momentos entre nós foram ficando cada vez mais intensos, percebi que você era mesmo um coquetel delicioso de tudo aquilo que eu precisava para mim. Melhor: era mais do que isso, porque as sensações que passei a sentir, jamais pensei que existissem.


Tudo virou de cabeça para baixo. Minha vida ganhou uma paz sem tamanho, e eu caminho pelas ruas sentindo a brisa e sorrindo tranquilidade por dentro. Eu tenho você.
Entretanto, infelizmente, aquela sujeira me contaminou e corre em meu sangue sem titubear. E em alguns momentos, no meio da paz, minha cabeça se confunde e começa a criar novas realidades, distorcer os fatos, ofuscar o brilho do amor.

E é aí que eu preciso olhar nos seus olhos, assim, bem de perto. E ouvir tua voz.



"(...) você, me salva da selva, me salva da selva."
(Engenheiros do Hawaii)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A boca e a palavra

 - Meu cabelo está embaraçado...
 - Como?
 - Meu cabelo...
 - O que tem?
 - Está embaraçado.
 - Está o que?
 - Embaraçado!
 - Fala de novo?
 - Por que?
 - Que delícia ver sua boca falando essa palavra: Embaraçado, embaraçado, embaraçado...
 - Ai, para!
 - É verdade! Duvida?
 - Bobo...eu te amo!
 - Eu te amo!
 - E digo mais...
 - Ahn?
 - Meu cabelo...
 - O que tem?
 - Está embaraçado, embaraçado, embaraçado...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bandidos

Atirei.

E sei que não foi por defesa, ah, como sei. Só eu sei.

Mas fiz como se tivesse sido e deu certo, até porque, estou aqui agora. Sétimo andar, frente a outros sétimos andares, acima de todos, e abaixo de um só.

Eu, e ele: meu uísque. O negro dos caminhantes. O meu preferido.

Eu andava sozinho, indo pra casa, naquela noite. Caminhava tranquilamente, embora ja fosse tarde, eu sabia que estaria tudo bem.

Foi quando percebi que errei o cálculo: a rua que eu tinha que descer não era esta, era aquela ali de trás. Até dava pra voltar, mas sabe como é, meus métodos não me deixaram andar pra trás. Sempre fui contra, sempre.

Eis que desci: Rua das Orquídeas, só eu sei como vou me lembrar bem deste nome. Nunca escolho esta rua exatamente pelo motivo mais óbvio: é escura, tem árvores, e na ponte - uma baixada perto de um rio, destes - fica ainda mais escuro e estranho o ambiente. Sempre preferi evitar.

Senti aquele vento frio vindo do rio como ja era de se esperar. Meu terno me protege do vento, mas não me tampa o rosto. E continuei a caminhar até que enxerguei um grupo de pessoas que estavam sentadas logo após a ponte. O que fazem algumas pessoas, tarde da noite, perto do vento frio que vem do rio? Justo ali?

Havia alguma coisa errada.

Continuei a caminhar e, desta vez, fiz o sinal da cruz. Sabia que precisaria dele.

Quando fui chegando perto da ponte percebi que as pessoas se levantaram e começaram a caminhar em minha direção, também entrando na ponte. E a ponte é um lugar perfeito para qualquer abordagem: não tem saída. Não estamos em um filme, não vou pular no rio, nem eles.

Então, pude ver com mais detalhes: eram três homens e duas mulheres. Tive menos dúvida ainda quando um deles gritou: Ei, você aí, solte a maleta!

Não obedeci, e continuei caminhando na direção do grupo. Ainda não estava perto.
 - Solte a maleta ou nós vamos até aí pegar! E não adianta correr, não!

De alguma maneira não senti medo. Eu não tenho medo da morte, e a morte seria o pior que poderia me acontecer ali. Apenas diminui o ritmo, até que parei: Estático e ereto. A maleta, que estava na mão direita, deixei lentamente no chão, e cruzei os braços. Ousei gritar:

 - Deixem-me ir. Estou em paz.

Pensei em ser mais hostil, mas não sabia o que me aguardava. Melhor não arriscar.

 - A gente só quer a maleta, e dinheiro! Passa tudo, vai, vai, vai! - outro deles, gritou.

Ladrões. Tenho raiva de ladrões. Não sou policial, mas não gosto de bandidos.

 - Deixem-me ir, agora! Não vou entregar nada! - eu sabia que era hora da ousadia.

Ao terminar de falar, percebi um sinal de um dos rapazes para as moças, e elas tiraram algo brilhante dos bolsos. Percebi no reflexo que os objetos tinham com a luz da lua e dos postes distantes. Facas, pensei. Pensei, e não pensei duas vezes:

 - Chega!

Meus braços descruzaram já com as duas pistolas que levo por dentro do terno. Atirei três, quatro, cinco vezes. Acertei as duas moças com as facas e um dos rapazes, enquanto os outros corriam. Todos gritavam. Abaixei a arma para meu coração se acalmar, e após uma nova respirada, retomei a mira e atirei mais quatro vezes. Dois doces para cada um ir para o inferno.

O cheiro de fumaça tomou minha mente, que se aliviou na hora. Se não havia dor, eu não levei nenhum tiro.

Fiz o sinal da cruz, peguei de volta a mala, e caminhei pela rua novamente. Corpos no chão, ali ficaram, não sou da polícia, repito.

Mas não gosto de bandidos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bilhetes


Minha vida, e rotina
Estão sancionadas
aos velhos bilhetes
Bilhetes que mando,
bilhetes que escrevo
Mas, bem mais que eles,
Os, tais, que recebo

Nem bem amanhece, e na padaria
Sou o vinte e sete, e espero na fila
Entrego pra moça, e faço meu pedido
Me entrego à sequência,
Ja sou atendido.

E é claro, eu preciso resolver problemas
Daqueles que a gente bem sabe que tem
Se eu ligo me informam, com vozes amenas
O seu protocolo é o dois mil e cem.

Já fui vinte e sete, e pulei pro dois mil
Crescer fácil, fácil, é o que a gente tenta
Mas são só algarismos, que ordenam a vida
Que será de mim? Três, nove? Quarenta?

Eu ouço os jornais, nas ruas, nos bares
Milhões de pessoas cruzam a cidade
E eu lá no meio, sobre o mesmo chão
Sou só uma vez
Que o tal, contador
Apertou um botão

E temo que um dia, os tais bilhetinhos
Que tanto enviei, bic em guardanapos
Sejam resumidos a míseros números
Pra contar pessoas
Marcar caipirinhas
E só resumir os amores aos trapos

Quem é o próximo?

domingo, 14 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Então

Esta estória está esfriando
e este enigma, esquentando.
Enquanto eu espero e encanto
E ela engana-me, escutando.

Eu ecoo em esperança
E, eclético, extasio
Economizando estâncias
Eu elevo e, enfim, ensino

Este eclair, excitação
Entre encontros e explosões
Eu expiro emoção
E então
Entrego-te estações

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Devil in Disguise

Para ouvir, cantar, e fazer o movimento com os bracinhos pra cima: dois pra lá, dois pra cá!



Devil in Disguise
by Elvis Presley

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

You fooled me with your kisses
You cheated and you schemed
Heaven knows how you lied to me
You're not the way you seemed

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

I thought that I was in heaven
But I was sure surprised
Heaven help me, I didn't see
The devil in your eyes

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Away, away



Era de manhã, no comecinho do final de semana. A família saiu em peso de casa, sentido interior: precisavam de férias, e sabiam disso. Resolveram arriscar uma viagem destas de feriado, mesmo que buscando aquele relaxar momentâneo, afinal, a vida é ou não feita de uma sequência de momentos, todos coladinhos assim, um atrás do outro?

Então pegaram a estrada. O dia se lançava com um sol gostoso, e o vento que entrava pelo vidro quase chegava a incomodar as crianças no banco de trás, porém nada tão frio assim. Se sentiam bem, todos eles, por fugirem um pouco daquela loucura que é o dia-a-dia.

Em uma destas cidades do interior que entraram, visualizaram um hotel. Era um bairro estilo americano: calçadas bem definidas com seus jardins, e o hotel quase que no meio do quarteirão, com uma espécie de passarela até chegar no mesmo. Um prédio amarelo com detalhes em marrom, parecia ser novo, e bonito.

O filho resolveu entrar enquanto a família esperava no carro. Entrou no hotel e a sala da recepção era diferente: tinha um teto baixo, que até o fez se sentir incomodado. Chegou até o balcão da recepção e foi abordado por um destes atendentes bem uniformizados:

 - Você não pode ficar, com licença
 - Como assim? - indagou o rapaz - Você não pode me dar uma informação?
 - Por ali, senhor.

E indicou um outro balcão, onde estava um outro rapaz de uniforme. Ao chegar mais perto do balcão, visualizou um tipo meio estranho ao lado direito. Um homem com um chapéu marrom e pequeno, vestindo bege e uma calça jeans, tinha um olhar diferente, desconfiado. Ao olhar para a outra porta à extrema esquerda, entraram mais dois homens feios e vestidos mais ou menos da mesma forma.

Após um rápido instante, o homem à direita do balcão sacou da cintura uma arma, e sem pestanejar levantou a mão direita, armada, e atirou! Uma, duas vezes. E o primeiro pensamento que veio em sua cabeça foi sua família, que estava lá no carro, sem nem imaginar o que poderia estar ocorrendo.

Saiu correndo pela porta dos fundos e teve de dar a volta no prédio, o que levaria tempo, logo presumiu. Pensou em sacar o celular e ligar para alguém do carro, mas quando avistou a cena era tarde demais: dois homens saíram pela porta da frente e atiraram continuamente em direção ao carro.

Quando viram que o rapaz se aproximava correndo, viraram em sua direção e atiraram também nele, que pulou no chão atrás de uma lixeira. O coração começou a bater mais forte, e mais forte ainda.

Profundamente, respirou.

Acordei.