terça-feira, 30 de novembro de 2010

Apelo


 
Permito-me deixar que o amor exista. Se em verdade, desta vez, veio a surgir, pois que seja então este punhal a perfurar cada um dos poros do meu peito até penetrar meu coração e, veia e veia, dilacerar o que ainda resta desta estrutura que finge que é forte.

Em cada cômodo há um pouco do que é dela, e em cada canto do meu corpo resta ainda mais um pouco dela inteira. Faço que me engano, finjo que já foi, e logo me lembro do que não sai de mim, nem sairá. Lembro que eu não vou deixar, nunca mais, de queimar naquele fogo a cada manhã.

Não venço a guerra. Não tento, apelo, abro os braços e caio de joelhos frente à porta - que dei uma volta a menos na chave, na esperança te ver ali do outro lado a me chamar. Sinto que é em vão quando só o vento pelos corredores me responde um não em sua cantoria.

Em teus braços que não encontro, termino por adormecer após horas de luta. No meio da noite meu coração falha, o ar me falta, e eu acordo. Aqui, bem ao seu lado. Onde você deixou o seu amor. Onde você não está.

3 comentários:

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

"Não vás. E não fui. Ainda que todo o dia, toda a vida, tivesse esperado aquele instante, único entre todos os instantes, ainda que tivesse imaginado o mundo ao pormenor depois da fronteira pequena daquele instante, não fui. Não vás. Ainda que se tivesse levantado uma cegonha a planar como um abraço que nunca demos, mas que julgámos possível, ainda que todo eu a tenha olhado, ainda que lhe tenha dito espera por mim, hoje vou buscar-te, ainda que o crepúsculo nos tenha visto onde só vão os mais sinceros, entrei neste quarto, e deitei-me nesta cama, e deixei que o instante único passasse indistinto e que toda a minha vida se tornas­se um lugar penoso de instantes desperdiçados, instantes desperdi­çados antes do tempo, durante o fastidioso do seu tempo, depois da memória má do seu tempo, no tédio de não ter e de não esperar nada. Não vás. E não fui. (...)
Abro e fecho a porta da rua. A noite é como a conheço: negra e profunda, a isolar-me dentro de si e a dizer-me que também eu sou a noite que a noite é. Não ponho as mãos nos bolsos, deixo-as e deixo os braços. Levanto a cabeça e olho a noite no céu, não as estrelas, mas o espaço negro que as separa."


José Luis Peixoto in Nenhum Olhar

Espero que ela dê um tratamento digno para esta súbita cabeça de sua parte.

Rafaelle Melo. disse...

Tocar essse amor que está do seu lado é tocar a ausência.

As horas de luta para dormir busca-se sonhar com o que não se tem. Mas ai não é sonho, é ilusão. O ar falta e o abriga acordar. A ausência está ali, sorrindo para você.


Meu apelo é que essa ausência não te sufoque. Você, tão acostumado com as misteriosas matas, desbrave.

Com bravura passe pela trilha que findará com a ausência.
Com perspicácia entenda o momento de mudar de trilha.

Um beijo luz pra iluminar teus caminhos.

mari. disse...

Às vezes a ausência é tanta que a gente pode até sentir a presença. mas quando ela é desvairada, descabida, só nos resta apelar. Apelar pra que ela traga de volta o que nos foi levado embora.

=D