sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bandidos

Atirei.

E sei que não foi por defesa, ah, como sei. Só eu sei.

Mas fiz como se tivesse sido e deu certo, até porque, estou aqui agora. Sétimo andar, frente a outros sétimos andares, acima de todos, e abaixo de um só.

Eu, e ele: meu uísque. O negro dos caminhantes. O meu preferido.

Eu andava sozinho, indo pra casa, naquela noite. Caminhava tranquilamente, embora ja fosse tarde, eu sabia que estaria tudo bem.

Foi quando percebi que errei o cálculo: a rua que eu tinha que descer não era esta, era aquela ali de trás. Até dava pra voltar, mas sabe como é, meus métodos não me deixaram andar pra trás. Sempre fui contra, sempre.

Eis que desci: Rua das Orquídeas, só eu sei como vou me lembrar bem deste nome. Nunca escolho esta rua exatamente pelo motivo mais óbvio: é escura, tem árvores, e na ponte - uma baixada perto de um rio, destes - fica ainda mais escuro e estranho o ambiente. Sempre preferi evitar.

Senti aquele vento frio vindo do rio como ja era de se esperar. Meu terno me protege do vento, mas não me tampa o rosto. E continuei a caminhar até que enxerguei um grupo de pessoas que estavam sentadas logo após a ponte. O que fazem algumas pessoas, tarde da noite, perto do vento frio que vem do rio? Justo ali?

Havia alguma coisa errada.

Continuei a caminhar e, desta vez, fiz o sinal da cruz. Sabia que precisaria dele.

Quando fui chegando perto da ponte percebi que as pessoas se levantaram e começaram a caminhar em minha direção, também entrando na ponte. E a ponte é um lugar perfeito para qualquer abordagem: não tem saída. Não estamos em um filme, não vou pular no rio, nem eles.

Então, pude ver com mais detalhes: eram três homens e duas mulheres. Tive menos dúvida ainda quando um deles gritou: Ei, você aí, solte a maleta!

Não obedeci, e continuei caminhando na direção do grupo. Ainda não estava perto.
 - Solte a maleta ou nós vamos até aí pegar! E não adianta correr, não!

De alguma maneira não senti medo. Eu não tenho medo da morte, e a morte seria o pior que poderia me acontecer ali. Apenas diminui o ritmo, até que parei: Estático e ereto. A maleta, que estava na mão direita, deixei lentamente no chão, e cruzei os braços. Ousei gritar:

 - Deixem-me ir. Estou em paz.

Pensei em ser mais hostil, mas não sabia o que me aguardava. Melhor não arriscar.

 - A gente só quer a maleta, e dinheiro! Passa tudo, vai, vai, vai! - outro deles, gritou.

Ladrões. Tenho raiva de ladrões. Não sou policial, mas não gosto de bandidos.

 - Deixem-me ir, agora! Não vou entregar nada! - eu sabia que era hora da ousadia.

Ao terminar de falar, percebi um sinal de um dos rapazes para as moças, e elas tiraram algo brilhante dos bolsos. Percebi no reflexo que os objetos tinham com a luz da lua e dos postes distantes. Facas, pensei. Pensei, e não pensei duas vezes:

 - Chega!

Meus braços descruzaram já com as duas pistolas que levo por dentro do terno. Atirei três, quatro, cinco vezes. Acertei as duas moças com as facas e um dos rapazes, enquanto os outros corriam. Todos gritavam. Abaixei a arma para meu coração se acalmar, e após uma nova respirada, retomei a mira e atirei mais quatro vezes. Dois doces para cada um ir para o inferno.

O cheiro de fumaça tomou minha mente, que se aliviou na hora. Se não havia dor, eu não levei nenhum tiro.

Fiz o sinal da cruz, peguei de volta a mala, e caminhei pela rua novamente. Corpos no chão, ali ficaram, não sou da polícia, repito.

Mas não gosto de bandidos.

Um comentário:

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

"De alguma maneira não senti medo. Eu não tenho medo da morte, e a morte seria o pior que poderia me acontecer ali.


Eu também não tenho medo da morte, poeta. Mas convenhamos, um bom susto cardíaco faz qualquer um acreditar até em papai noel.