quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Neverland

Preciso respirar.

Deixei a selva de lado, quase que fechei as portas daquele lugar por um longo tempo.

E agora, após um tornado que passou arrebentando com tudo e me levou junto com os destroços, caio no chão frente ao portal que me leva ao meu habitat natural.

Me apoio em meu machado, precisamente desenhado para minhas mãos finas, e logo estou em pé, um pouco curvado, ouvindo aquele som. De novo.

Olho para o portal e vejo a bagunça na selva: tudo ficou desordenado desde que parti.

Os pensamentos mais intensos se camuflaram, e só pude mesmo identificá-los pois eu os conheço bem. As loucuras então, estavam todas à solta procurando o seu Lenhador para se alojarem: sem sucesso. Os medos começaram a dominar o local com seus exércitos poderosos, devastando qualquer vestígio de lucidez que encontravam pela frente.

Quando parei, percebi que estava no meio: nem na selva, nem no mundo real. E então toda uma desordem começou e é esta que ainda não acabou, que me traz de volta aqui todo santo dia.

Ao ver que o portal se abriu, cipós de espontaneidade grudaram em meu corpo e começaram a limpar certa timidez que quase me cobriu. Junto deles, o manto da intelectualidade me cobriu, tapando minha visão por um tempo. E foi debaixo deste manto que pude ouvir calmamente aquela voz: "você de volta?"

De repente me soltaram, e dois soldados de luz me trouxeram a espada da liberdade e o escudo de acidez que me fez tanta falta durante este tempo: no escudo refletia o brilho dos meus olhos, quase que me reconheci.

Eis que olhei para trás e minha visão ficou turva, seria vertigem? Desequilibrei, e a ansiedade tomou conta do meu coração tão calmo, me causando dores de estômago e disritmia. Um vento de confusão vindo por trás ameaçou me derrubar, mas só pude me fazer mais forte, quando olhei ao lado do portal e vi aquela placa de madeira, onde foi talhado o nome do local que sempre me refugiou. Foi então que eu vi que estava de volta, e que deveria mesmo olhar pra frente.

Fiz o sinal da cruz, e recebi a máscara da solidão, que tampa o poder do meu olhar assim para qualquer pessoa.

Ouço: bem vindo de volta, Lenhador Machado.

Agradeço.

Agora só preciso mesmo é me convencer.

Um comentário:

Menina no Sotão disse...

Eu li duas vezes os seus escritos e acho que me perdi entre a paisagem das minha janela e a paisagem onde você chegou. Estou meio fora do ar hoje. Será que amanhã terei outro olhar sobre esse desenho de letras? Voltarei para saber.Bacio