terça-feira, 18 de janeiro de 2011

2045



 - Mas vô, como assim, selva?!

 - É, minha jovem, era lá que eu estava. A "Selva dos pensamentos", como eu já costumei dizer em alguns momentos, era meu refúgio. Não me sentia exatamente protegido lá - as vezes até pelo contrário, eu diria - mas ali eu me sentia eu mesmo, com todas as minhas vontades, meus anseios, bem como meus sonhos e a própria realidade. Tudo isso a flor da pele.

 - Nossa, vô, tô adorando!

 - Sabe, pequena, passei por muitos momentos de solidão em minha vida. Hoje, dentro dessa casca aqui de velho, sei que ainda existe o Lenhador pronto para desbravar toda consciência. Embora talvez enfraquecido pelas marcas do tempo, a velocidade de raciocínio e a capacidade de responder aos estímulos diminuíram, porém nunca a percepção ou mesmo o sentimento. Estes, são meus, pra sempre.

 - Eu também quero conhecer essa selva, também quero conhecer o Lenhador, me conta uma história de lá, me conta?

 - Tudo bem, anjo, tudo bem. Vou te contar um dos episódios mais incríveis - se não for o mais incrível de todos eles. O dia em que eu a vi, lá dentro...

 - A viu? viu quem?

 - Escute, escute...

"Era entardecer e eu estava com a cabeça muito tranquila. Na calçada, conversando com a família - coisa que não se vê mais hoje, infelizmente. Tinha saído da selva na noite anterior, quando foi anunciada a mudança: Fui até lá, vi que as coisas estavam sem vida, sem um propósito determinado. Até eu anunciar a mudança, e perceber que tudo começou a se mover em grande escala: transformação.
Tomei uísque e ouvi música boa naquela noite, com um velho amigo. Falecido hoje, com o pesar o tempo. Após os momentos, pedi para que ele me deixasse em uma das ruas principais da cidade, tinha um encontro. Chegando lá, tive uma das sensações mais intensas e confusas da minha vida: eu a vi. Não era a pessoa que eu iria me encontrar, mas estava exatamente ao lado.
Ao ver o seu sorriso, não podia acreditar que estava acontecendo. Talvez por não estar preparado, ou talvez por estar mas não saber direito como agir, me deu um susto e tanto.
No primeiro sorriso, nossos olhares se fixaram e por alguns segundos (que na hora se converteram em horas), permaneceram. Então foi que achei necessário atravessar o portal e ir até a selva, para entender direito aquilo tudo.
Chegando lá, é que vi a coisa mais impressionante que poderia ter acontecido: Havia uma luz muito forte, clara, vindo lá de dentro. Conforme fui chegando mais perto, pude sentir uma tranquilidade penetrando meus poros e invadindo meu coração. Só conseguia admirar aquela luz, que olhando atentamente, passava tal tranquilidade e segurança para os pensamentos que ali rondavam.
Meus exércitos, em posição de descanso, sentiam aquele bem estar enquanto também admiravam sua presença e ouviam seu canto, que era uma canção amorosa, pura, doce.
Não resisti: me entreguei a essa sensação, caminhei em direção da luz e mergulhei naquela que foi uma das experiências mais incríveis de 'entrega' que pude viver."

 - Uaaaaau! Mas a pessoa, dos olhos, a luz em si? Onde está hoje?
 - ...

 - Na selva, menina...na selva.

2 comentários:

Luana disse...

Não deixe essa luz se perder na selva. Ainda há tempo, e nós temos 34 anos pela frente.
beijo, meu amigo!

Denise Portes disse...

Tão bonitas as suas palavras.
Um abraço
Denise