quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

No alto da montanha



Nunca foi fácil compartilhar com ninguém a existência da selva. Ninguém entenderia, antes eu pensava. Até refletir, e resolver: É hoje! Hoje eu vou falar com alguém, eu vou contar o que eu sou, eu vou falar da selva e se duvidar, até levo a pessoa lá comigo.
Ninguém entendeu.

Me senti aquele dançarino de sapateado...
...Teatro lotado, onde quase que não cabia a respiração de todos os que ali estavam. Palco pequeno, redondo, com holofotes amarelo-e-brancos ao centro, em foco.
Eis que ele chega: Moço magrinho das pernas finas e o tronco rigidamente ereto, calçando seus sapatos pretos impecáveis. E seu show começa: o artista sente a energia vindo de dentro pra fora, abre os olhos apenas por alguns segundos e fita cada um dos olhares que ali estão, sem tirar um, até que fecha os olhos e aquela energia toda cria um vínculo inquebrável entre a sola de seus pés e a palmilha de seus sapatos, permitindo-o dançar e criar mil frases, e gestos, fazendo seus sapatos pretos e brilhantes cantarem melodias e rítmicas doces e intensas.
Mas ninguém entende...

Tudo estava tranquilo na selva...por cima das árvores enormes e das folhas - das grandes e das pequenas - havia um céu azul lindíssimo.
Caminhando pelas trilhas, percebi que a calmaria não era aquela que precede a guerra, o transtorno. Era apenas um momento de paz, que tomou conta de cada poro de cada ser que ali vive, e trouxe um ambiente leve, com cheiro bom e com a brisa do jeitinho que deve ser.
Tive uma idéia!
Corri feito uma criança inocente e bobca - as da minha época, ressalto - que vai atrás de uma pipa, não importa onde. Segui pelas trilhas que conheço tão bem e cheguei onde mais queria: A montanha mestre.

A montanha mestre é um lugar onde eu posso ver tudo, tudo o que está ocorrendo na selva, em visão privilegiada: ela é alta e, sentado em seu topo, estou acima das nuvens. E quando nao há nuvens então, melhora, porque estou tão mais alto que posso ver cada folha que se move, e pra onde move.
Subir até o topo não é, lá, tarefa fácil. Certa vez tentei construir uma estrutura que me levasse facilmente até lá, mas veio uma tempestade e destruiu tudo. Ja entendi que não deve ser fácil assim chegar a um lugar de tanta paz.

E ali fiquei. Por horas. E aqui estou, olhando todo o meu ambiente, e lembrando de cada pequena história que passei aqui nesta selva: Lutas e batalhas, momentos de fuga e esconderijo, grandes guerras de destruir tudo que está em volta...e me sinto bem. Fui eu que construí e reconstruí tudo isso, do jeito que é hoje, com aquilo que recebi quando a selva nasceu.
Sempre foi assim, e sempre vai ser: só depende de mim.

2 comentários:

Raiana Reis disse...

No fundo lenhador, cada um tem uma selva de difícil acesso, difícil por faltar o ímpeto de aventurar-sem a fundo arriscando se perder, ou também por despercebidamente não permitirmos a entrada...

Menina no Sotão disse...

Agora me vi obrigada a olhar pela janela para tentar identificar minha própria selva. Não tenho uma resposta imediata, até porque não estou em mim ainda. Estou no outro que não eu e que dança as horas do dia. Mas eu volto pra mim até o fim do dia. Assim espero. bacio