sexta-feira, 8 de abril de 2011

Billie Jean


A troca de pele exige que determinadas coisas sejam mesmo desvinculadas, soltas, para apodrecerem, se degradarem. Com esta casca que é deixada para trás, tudo aquilo que - desde a última transformação - veio grudando, penetrando, se fundindo e que, por fim, criou toda essa estrutura, vai embora. Vai embora e dá espaço a esta nova pele, lisa e intacta, pronta para que novas pessoas, coisas, espíritos, músicas, filmes, anjos, demonios, golpes e carinhos, dentre tantas outras, possam se alojar, tornar-se parte do todo.
Amigos que não estão mais aqui. Não por não serem mais amigos, mas porque não estão mais aqui, simples assim. Inimigos que também estão lá, praticando suas maldades em outros lugares. Amores passados que estão mesmo passados demais para passarem por aqui, além de tapas e abraços que ficaram ali no chão, para sempre.
E esta, é uma das etapas mais difíceis da travessia toda: a da limpeza.
Preciso me livrar de tudo aquilo que é sujo. E ah, como dói, só Deus sabe. Ele é quem manda essa dor, eu bem sei, esse castigo. Não por estar me limpando, não, mas por um dia ter passado por isso e mergulhado nesse prazer ímpio. É hora de pagar.
Aos poucos, nesta renovação de conceitos e idealizações do que é, de verdade, viver, inúmeras tentações chegam em suas diferentes formas. As que caí  em épocas de carne, serão perdoadas agora, pois o punhal do arrependimento rasgando meu ser inteiro, dilascerando cada rastro íntegro que ainda está aqui, me garante. Mas as tentações de agora não, estas não serão perdoadas, nem por Deus, nem por mim. Apenas me conduzirão ao abismo.
Pensamentos de traição, de ira, de descontrole, também aparecem bem agora. É claro que não são bem vindos, porém insistem em me fazer crer que eu ainda sou aquele de antes. Por que? O que há para resgatar de todo aquele lado mais fraco, que só me transformou em um monstro? O que eu ainda tenho que levar para mim, de verdade?
Manipulação, jogos de poder e de valor, jogos de luxúria onde cada aposta valia a própria vida. Foram jornadas inimagináveis misturando prazer e medo, o corpo elevado ao seu máximo até se tornar minimamente importante, impotente, inútil. A mim e a todas elas.
Estratégias perfeitas e com organização, precisão, disciplina. Atuação onde o palco era o próprio cotidiano, misturando os blefes mais discretamente escondidos do pôquer com as jogadas melhor elaboradas do xadrez, onde as peças eram todos os coadjuvantes. 
Por fim, completando o repugnante ser, o estímulo de sentimentos como o desejo de vingança, a perda do medo da morte e consequentemente, a tranquilidade para matar. Não que tenha precisado, mas aquele sentimento de poder ao pensar que se o fosse necessário, as técnicas teriam-no tornado pronto.
Acabou. 
De verdade, acabou, e mais do que nunca é necessário entender e compreender que o tempo é outro. É hora de tirar o sobretudo cheio de facas afiadas e pistolas rápidas e jogar no chão. Despir-se dos coletes a prova de tantos tipos de balas, abandonar aquela caixa de máscaras e caracterizações. Os livros e artigos também deverão ser queimados, tudo o que está ali escrito, e que for bom, já está aqui dentro. É hora de deixar de ser o que eu sou (ou era), e começar a ser aquilo que eu posso ser.
Está doendo muito, e essa dor é minha, não de mais ninguém. O tempo de começar a usar tudo que eu sei apenas para o bem, chegou, pra valer. Pode ser que fiquem as cicatrizes, que peço a Deus com todas as minhas forças para que estas não sejam compartilhadas com mais ninguém. Eu aguento, o que for. 
Vai valer a pena.

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