sexta-feira, 1 de julho de 2011

Balcão

Parece até que não, mas o balcão do bar diz muito sobre um homem. 

Chego e encosto. Curiosamente o negão afrodescendente de 1.90m de altura da portaria me reconheceu, e sorriu, recebendo novamente o dinheiro da entrada. As mesmas notas, recém devolvidas.

A garçonete também me reconheceu. Tem dezesseis, dezessete anos, não mais que isso. Guardou minha água, e fiz questão de continuá-la. Perdeu de vender outra água, mas tudo bem, eu sei que ela não tem malícia ainda para isso.

 - Por favor, um copo de vidro.
 - Senhor, não servimos com copo de vidro às quintas.

Respiro.

Quando tiro meu uísque do bolso do paletó, ela se espanta. Não olho em seus olhos nem faço nenhuma expressão, para não interrompê-la. Quero que ela sinta, mesmo. Percebi que foi novidade.

Começa a música, e eu permaneço em silêncio. Quando cheguei, notei as três garotas ao fundo (agora às costas): Morena do cabelo curtinho e bem enrolado, gordinha do cabelo liso, e uma bem, bem branquinha, da boca bonita e com aquela beleza exótica. Claro, é essa.

Não viro para trás em um sequer momento. Cada movimento é preciso, desde o abrir da tampa do cantil – dez voltas para abrir, dez para fechar – ao gole, em si. Bebo, tampo, guardo. Bebo a água em seguida, continuo a viajar em pensamentos, calado. Percebo os olhares, recuso. Preciso.

A banda é horrível. Um jazz muito mal feito, viciado, impuro. E eu ali a ouvir, a entender o que já não se sabe mais para onde vai. Eu, e o João, o Andarilho, de traços negros, dentro do meu cantil. Pois bem.

E é quando chegam dois indivíduos à mesa das três garotas é que tudo fica mais interessante. Faço questão de ouvir as conversas, com algumas frases do tipo “É que eu sou irmão do secretário de cultura”, ou “eu toco na noite, mas estou parado ultimamente”. Asco, eu sinto, mas rio. Meu velho companheiro uísque me faz bem.

Vou longe, ali encostado no balcão. É possível identificar o perfil de cada um que está ali, e ainda sim, sobreviver. Mais uma dose, do vermelho, dessa vez. Lembro de um amigo, a gordinha aqui da mesa cairia perfeitamente ao seu gosto. Mas ele não está aqui, e eu devo respeitar. Rio, sozinho.

Coloco uma nota de vinte sobre o balcão, e olho para a mocinha. Ela me devolve o troco, sabia que não iria me custar mais que isso. Amanhã cedo eu descubro se esta dose extra é vagabunda, ah, se descubro!

2 comentários:

Anônimo disse...

to rindo muito com o texto.
coincidência ou caso pensado?

ex bonita rs*

Renato Menezes disse...

Muito interessante. Especialmente a mescla do real e do imaginário. E há um ponto em que eu sorri incontrolavelmente quando li o que li. Sim, exatamente ali.