terça-feira, 27 de setembro de 2011

Conflito

Doloroso não sentir mais essa dor. Ou sentir e não falar.

por Fagner, de Petrucio Maio / Clodo


Ah, meu coração que não entende
O compasso do meu pensamento
E o pensamento se protege

E o coração se entrega inteiro e sem razão
Se o pensamento foge dela o coração a busca aflito
E o corpo todo sai tremendo,
massacrado e ferido no conflito

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os Três Mal-Amados

Agora em homenagem a Thaís Carvalho:

por João Cabral de Melo Neto 

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

How, buddy?


O momento de encontrá-la está se tornando cada vez mais próximo.
Com isso, surge uma série de questões. Algumas parecem impossíveis, já outras, são simplesmente muito difíceis. Como lidar com todo esse lixo?
Basta olhar em volta para perceber que estamos passando por poucas, e não tão boas. Estamos em um mundo em que cada vez menos é possível admirar as pessoas, seja por seus feitos grandiosos ou - ainda pior - pelo que simplesmente são. Não dá.
Quando foi que tornamo-nos assim, desprezíveis? Ou se sempre fomos assim, tudo bem, quando foi que deixamos de considerar importante esconder?
A imundisse está à solta: na tela, na ponta do lápis dos dedos, no tráfego dos dados. A sujeira inicia nosso dia no rádio e estraga nosso café da manhã. E a responsabilidade cabe a três papéis neste círculo: Quem fez a besteira, quem divulga a besteira, e quem está ouvindo a besteira distorcida - o que será que vai fazer com ela?
As pessoas decepcionam. E então...

Como ensinar?

Como falar a esta nova habitante a respeito do que estamos vivendo, e do que ela vai ver? Do que estamos passando, do que ainda vamos passar, ou - por pior que pareça - como nós já fomos diferentes.
Explicar que para ser alguém bom, é preciso fazer as coisas boas, e fazê-las de bom grado, de bom coração. Que é preciso sorrir e chorar, agradecer todos os dias a Deus, olhar pra frente e, claro, seguir em frente.
Como explicar que vai haver gente que não aprendeu nada sobre isso e que faz exatamente o contrário, ou ainda, que tem outros que nem sabem que essa lição existe. E que mesmo assim, encontramos essas pessoas não tão boas lá no topo, fazendo papel de quem está fazendo seu papel, e que nessa vida, de tantas coisas importantes, o estômago está ali disputando o primeiro lugar. 
Como?
Se sabemos que ganhar é difícil, não podemos esconder. Agora, sabemos também que existe o jeito fácil de ganhar, mas é preciso pisar em algumas cabeças, contar algumas mentiras, e que isso não é coerente com aquela primeira lição.
Ensinar que lealdade é diferente de fidelidade e que, ainda sim, estamos aqui para fazer o bem. Sorrir, e fazer os outros sorrirem também.

Deixa ela chegar, deixa ela viver, deixa ela aprender, e entender que pra estar aqui a gente tem mesmo é que resistir. Senão não dá.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pílula

A noite é fria, então, um banho quente.
A blusa mantém o calor, o blazer carrega o uísque. Noite fria, sabe como é.

Ele chegou, e a viu, de longe. Entrou, e de perto, fingiu que não. Orgulho bom é orgulho bobo.
Encontrou um qualquer e parou, jurou para si mesmo que não o fez estrategicamente, mas a quem engana? E eis que sentiu...
A mão da moça deslizou por suas costas, leve como deveria ser. Embora não tivesse a certeza de quem era, guardou em segredo quem queria que fosse. Tentou sentir o perfume, mas ela não estava tão perto assim.

Virou e a encontrou. Um sorriso belo e natural, porém parecia ter certas ressalvas, vai saber.
 - Oi!
 - Oi...

O fato é que seu sorriso, então, deve ter sido dos mais estranhos. Nunca se sabe que reação ter nessas horas.
O abraço foi bom, e embora tenha durado apenas alguns segundos, foi tão longo quanto deveria ser. Seguido de um silêncio embaraçoso, ele tentou disfarçar o contento, e chegou até a pensar que teve sucesso.

Talvez.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Querer você


Não vou saber
Onde é que estás
E se eu não sei
Pra onde vais
Queres saber?
Não tem porque

Não quero estar
Onde tu estás
E eu sei porque.
Por este estar
Eu já passei
E já bem sei,
Bem não me faz
Mas sei porque
Está onde estás

Não quero ir
Pra onde vais
Pois fui, voltei
E vale mais
Estar aqui
Te ver chegar
Quero te ver
Chegar, ficar
Pois vou chegar
Talvez ficar
Não, onde estás
Mas em você.