domingo, 13 de novembro de 2011

Não acabou



Noite chuvosa de sexta-feira, restaurante meio cheio feito um copo meio vazio. Antes mesmo do prato chegar à mesa, ela entrou.
Quando a vi, confesso, estremeci por inteiro. E num disfarce nada eficiente, fixei meus olhos naquela silhueta que atravessava o ambiente principal, logo tomando o caminho direto a uma mesa do fundo. Como sempre, um vestido pra realçar aquela mistura entre sensualidade e maturidade. Não pude acreditar.
Depois de um certo tempo, talvez cinco ou, quem sabe, seis anos, aqueles olhos azuis acompanhados do sorriso mais misterioso que já conheci ainda estariam por perto, ainda poderiam me atormentar, abalar meus sentidos, me trucidar.
Ao vê-la simplesmente deixar sua companhia e ir retocar a maquiagem, já foi suficiente para poder ir até lá, em pensamento, agarrar com força seus cabelos longos e louros, misturar um sussurro no ouvido com um beijo em sua nuca, e em seguida dominá-la e ser dominado, ali mesmo, no mármore e no espelho de um restaurante qualquer.

Sua magia ainda funciona, constatei.

Então ela desceu a pequena rampa e, como não poderia ser diferente, me viu. Os segundos mais longos da noite foram aqueles: passo por passo, olhos fixos sem a menor intenção de se desviarem, o sorriso incógnito e minha expressão de "ainda sou aquele, o seu, o melhor homem do mundo". Mentira, estava totalmente desestabilizado como nas primeiras vezes em que a vi, nos corredores em meio às compras, naquele vestido azul. Contudo, acho que funcionou.
Tentei manter a noite agradável, e estava inspirado em meio à chuva nas janelas, porque consegui. Mesmo.
No final, a conta direto no balcão, e a oportunidade de olhar naqueles lindos olhos novamente. Me virei e, quase num relance, consegui transformar três segundos em três horas, quando vi seu rosto acompanhando meus passos, e seus olhos fixos em mim, medindo cada mudança desde nosso último encontro. Enquanto ouvia uma conversa qualquer, ria disfarçadamente, e me lançava o último sorriso da noite.

Ainda não sei o seu nome, e nem sequer ouvi sua voz. O perfume, vá lá!, tenho até medo de descobrir e de ser entorpecido eternamente. Mas eu me conheço. Eu pago o preço.

E fique com o troco.

5 comentários:

Velho Santiago disse...

Olá! Passo aqui para um pequeno desafio, tão bobo que será surpresa se aceitar. Não sei se sabe, mas o velho aprendeu a daguerreotipar! Imagine! Hoje apenas fotografo... enfim. Adoraria representar com um instante de luz um tema sugerido por você. Topa? Que seu tema seja meu olhar fotográfico e que minha foto seja uma postagem sua dedicado a esse simples velho. Que tal? Se topar, por favor, me dê alguns indícios do que SENTES que tentarei reproduzir em imagem esse momento tão efêmero... Abraço e cheiro de café!

Luana Natália disse...

O jeito que escreves é encantador. Seguindo...
"Eu pago o preço.", talvez o problema seja esse, não é?
Bjs.

Pipa. A Pipa dos Ventos. disse...

Temo que os sonhos se sintam mesmo muito sozinhos, e, exatamente por isso, nos use como instrumento para satisfazer seus caprichos.

Espere um momento...
Um perfume de ninfa campestre está inundando o recinto. E nem é preciso fechar a janela. Esta fada sem asas já arrebentou o trinco.

Anônimo disse...

Você espera que acabe?

H. Machado disse...

Não tenho controle sobre isso, não mesmo. E o desejo é íntimo demais para dizer sim, a resposta é sempre não.