quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Com mais de trinta

Ouvi essa música e pensei: É o tipo de poesia que vestiu minha caneta e papel. Eu teria escrito isso tudo. Antes.


Não confie em ninguém com mais de trinta anos
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta
Oh mais de trinta
Não confie em ninguém com mais de trinta ternos
Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos
O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida
A sua vida
Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço
Eu me desloco no tempo e no espaço
Passo a passo, faço mais um traço Faço mais um passo, traço a traço
Sou prisioneiro do ar poluído
O artigo trinta eu conheço de ouvido
Eu me desloco no tempo e no espaço
Na fumaça um mundo novo faço Faço um novo mundo na fumaça
Não confie em ninguém...


Marcos Valle

sábado, 22 de dezembro de 2012

Mesa amarela nº 12. Ou 14.

O que será que aconteceria quando aquela possibilidade que sempre parecera tão terrível, destruidora, temível, aquela que mudaria todo o futuro para pior, que atrairia os olhos de repugnância e desprezo, começasse a ser interpretada como um fato normal? Um evento cotidiano, como a escolha (desde agora, tão mais importante!) entre a camisa azul e a vermelha. 

Aquilo que sempre foi colocado como prioritário, que sempre fez transformar simples proletariados em agentes secretos, psicólogos, hipnotizadores e manipuladores de mentes, donos do tempo, donos da verdade, o que mais? Não importa. Mas e se não fosse mais prioridade, então? Se todos os riscos envolvidos se resumissem a um dano qualquer. Levar ou não o guarda-chuva? É deste poder de escolha que estou falando.

O raciocínio apareceu quando devia. Ontem um "Ensaio" de Saramago, amanhã uma maratona de "Bergman", ambos com a potência de uma avalanche trazendo aquela sensação esquisita dO Vidente: "I made a mistake". O efeito é o mesmo.

Eu não me lembrava mais de como era sofrer o efeito de uma sensação alheia a mim.

Agora toda esta subjetividade e prolixidade - que felizmente não podem ser evitadas - apresentam a nova face, e a possibilidade de entrar na estatística, de sair da esfera, de voltar a um mundo de confusão, insensatez, compromisso e irresponsabilidade, divisão, paixão, madrugada, Coca-cola, sentido figurado. Um mundo de estranhez que sempre, sempre me acolheu tão bem.

Entendo, então, quando diziam sobre perder o brilho em poucas semanas. Acaba-se a energia, a força, o interior. Fica o que é visível, e isso definitivamente nunca importou, pra ninguém. Quem se importa com algo que se pode ver mas não saber o que é?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Registro

Os intervalos longos sem escrever estão acabando comigo.
Não adianta nem tentar dizer que é falta de tempo, de inspiração...inventar uma desculpa. Só assumir a culpa, mesmo.

O mundo anda uma bagunça. Não dá pra deixar de registrar isso, principalmente olhando a principal razão da existência destes fragmentos, desde o começo. Eu teria que resgatar todo tipo de lembrança, mesmo que as dos piores momentos, enfim.
Se são os piores momentos até agora, quem sabe o que está por vir?

Não se trata de uma declaração piegas. O pior momento não é para mim - e ainda que fosse, não haveria problema em dizer, mas - não. É a geração atual que se desfigurou, assim, sem saber.
O pior é que não foi de uma hora para outra, sabe? Dizer que até ontem estava tudo bem, é lembrar de quase vinte anos atrás. Poxa vida, vinte anos, e ninguém percebeu que a coisa estava indo pelo caminho errado?

Olhando tudo pelo lado de fora, até onde for possível, fica fácil perceber:
As músicas não possuem conteúdo. Nem poético, nem artístico, nem técnico. Nada;
Fotografias não retratam mais nada. Agora são pedaços de imagens, que podem ser capturados por qualquer pessoa em qualquer lugar. A emoção e a viagem, deram lugar ao botão touch;
Os carros agora são descartáveis. Peças de plástico envolvendo um motor, rodando por aí.
Por fim (para não ficar o resto do dia dando exemplos), a comida. Poxa vida, o que aconteceu com a comida? Ou indo mais além, com a cozinha e suas cozinheiras de mão cheia? Tudo muito rápido, tudo pronto, para comer ou para jogar fora. Na hora.

Tantas frases, de cada um dos pensadores do passado, quando unidas, conseguem expressar o que talvez estejamos vivendo. E agora, sim, é possível entender a tristeza e perturbação das grandes mentes que previam isso tudo, assim, de maneira lógica, racional: já pensou como vai ser quando...?
Triste, mesmo.
E aí vem a questão do que será que destrói mais em menos tempo: viver em anos de luz e prever a catástrofe total, ou viver enquanto a própria acontece. On line, diriam.

O ponto principal está nas pessoas. Nas pessoas e em suas relações: consigo próprias, com a natureza, com o material etc. 
O que se observa é uma contaminação da geração atual, pelo vírus que trouxe essa superficialidade para dentro de cada um. Crianças, Adolescentes, Jovens e Adultos. Ainda não encontrei alguém que nasceu antes de 1950 com estas características, e nem espero. Eles são o elo entre o agora e o que já foi bom, porém, estão indo embora, é natural. O que não é natural é ignorar os mais velhos, deixá-los de lado, não prestar atenção. Talvez este seja o primeiro sinal do atestado de burrice.

Ah, e eu deveria tomar cuidado, porque escrever a palavra burrice [Ops, escrevi de novo!] pode me causar problemas com a Associação protetora dos Burros (APROBUR). 

A geração do "Não me rele, não me toque", além das grandes atrocidades cometidas - como lutar com a própria vida pelas cotas raciais - comete pequenos, porém impagáveis, desleixos. Como mudar a letra de "Atirei o Pau no Gato" devido ao incentivo à violência contra os animais. Duvida? Cheque.

A comunicação rápida e imediata pela internet destruiu a ansiedade de receber uma carta de amor, vinda pelas estradas de terra que também já não existem mais, carregando o perfume no papel, que também foi substituído pela grife.
E como se não fosse suficiente, também limitou as pessoas a conversarem pessoalmente. Acabou a coragem, o olho no olho, a decisão tomada na hora. O que se quer agora, é tempo pra pensar na resposta, entre uma mensagem e outra do chat.
E experimente contar a alguém que, há certo tempo, era preciso ir até a casa da pessoa caso tivesse algo a dizer. Sendo importante ou não. Fica parecendo piada.
Se for ver mesmo, até que faz sentido, não? Já na nova geração, não dá pra sair a pé após determinado horário, ou corre-se o risco de não voltar nunca mais.

É a bola de neve com a neve mais cruel que alguém já pode ter provado.

O mais engraçado é ver que os problemas da geração anterior, sendo as limitações sociais, preceitos morais, congelamento de crenças e de costumes ditatoriais, se mantiveram!
Aliado a isso tudo, surge o novo: o medo, a insegurança, a incapacidade interior e exterior, os novos modelos, o culto a uma imagem pra lá de esquisita, entre diversos et ceteras.
Veja que mistura.

Finalizando a ótica deste registro - que apresentou apenas a problemática, pois nunca foi intenção consertar nada por aqui - trago a visão mais intensa: tornou-se raso o prazer. Qualquer prazer, incluindo desde a mais proibida das luxúrias até a mais banal mordida em um chocolate. 
Não é mais necessário estar no lugar certo, na hora certa, com um monte de gente desconhecida, para que após um fondue e muito vinho todos estejam nus sobre um tapete de pele de coelho se divertindo pela noite a fora. Agora, é só abrir a internet banda larga e resolver tudo sozinho, usando a imaginação.
Imaginação esta que, doutra feita, compunha músicas da mais pura emoção e transparência dos sentimentos de um grande artista. Que nada! Artista hoje é aquele que consegue chegar em casa após a sequência: Caminhada - Metrô - Ônibus - Metrô - Caminhada.

Que este registro chegue a quem deva chegar.






Atenção:
 - Nenhum animal foi maltratado para a produção deste texto
 - Nenhuma pessoa sofreu abuso físico, psicológico ou moral, bem como preconceito de qualquer natureza, para a produção deste texto.
 - Todos os créditos devidamente atribuídos aos autores de frases que possivelmente não sejam do dono desta página.
 - A reprodução desta obra não se trata de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, fatos, lugares e/ou características reais não é mera coincidência.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Linha verde.

Eu me devo tantos textos, oh, meu Deus, e ainda sim, insisto num novo.

Sob uma perspectiva alcoolizada e nua, como deve ser, esse é o ponto exato onde as coisas acontecem. Não sei se, em algum dia na vida, ousei escrever estando assim - tão calculadamente - no ponto certo da embriaguez que preciso para poder fazer fluirem todas as sensações. Talvez não em palavras, mas tanto faz.

Produzo (e olhem só, que conjugação mais feia de se escrever) os mais diversos pensamentos baseando-me em músicas que me levam do céu ao inferno, do paraíso à consolação - como a nossa mais querida Paulista, já dita pelo poeta caminhoneiro - e assim eu posso capotar o opala metálico azul, posso ver você fumando ópio pra sarar a dor, com o meu pensamento enquanto esfria o café. Uau!

"This is about a woman, when a woman catches you...". Pronto, parei, com "Goodbye to romance".
Estudo e me faço crer que sou capaz. Sempre fui, sempre consegui, sempre arrebentei. Por que não agora? Sei que a vida pode querer o que ela quiser, e eu tenho mais é que aceitar, principalmente após ter completado parte da missão. Agora é outro ciclo que se inicia (ou se iniciou) assim, tão repentina quanto inevitavelmente.

Quando paro e observo, por vezes a fio mas não por horas, como me ensinou o velho professor "Não fique por muito tempo, não marque por muito tempo", é que sinto que - no geral - nada acontece. E é essa a grande frustração: nada vai acontecer. Por mais que eu me permita, em diferentes oportunidades, a probabilidade da inércia dominar (como se eu tivesse ficado em casa, imóvel) é muito maior.

Vivemos em uma geração inconsciente.

Se espera demais, e se oferece de menos. Mas não é por culpa: as pessoas não têm nada a oferecer de bom, de lindo, de intenso. E talvez pela mesma razão, não sabem o que esperar, não têm idéia do que existe por aí, e quando recebem algo, qualquer cousa que o seja, não é bom. O novo, no papel que sempre teve de ser perfeito, agora passa a ser esquisito. Onde estamos, ou quando, afinal?

Me encontro por fim, sentado aqui, a kilômetros e mais kilômetros por hora, sem saber se estou saindo ou chegando. Não faz diferença. O que me faz crer que ainda existe algo por aí, por mais que em Aju e não tão já, é o tal prazer do intelecto invisível. Esse, sim, não falha nunca. Mesmo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

E suas velas...


"Calça nova de riscado
Paletó de linho, branco
Que até o mês passado
Lá no campo, ainda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De rapaz novo, encantado
Com vinte anos de amor..."


(Mucuripe)


*Já devo ter postado essa música tantas e tantas vezes. Mas deste jeito, sem ler a letra, digitando o verso todo sem nem ouvir a música, é sinal que veio - de repente - um sentimento tão estranho. Tão assim.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que não me mata


Comecei a perceber que não fazia parte do meio, que não podia ser assim comum, normal, aos doze ou treze anos.  E é por isso que eu espero que meus possíveis herdeiros, se encontrarem meus textos, que o façam somente após os trinta, ou até - quem sabe - quarenta. Sendo pessoas normais, talvez a compreensão apareça. E vou trabalhar para que isto ocorra.

Pois bem.

Há algum tempo, e após uma ausência não-planejada de meses, resolvi me lembrar de que a selva ainda existia. Resolvi arriscar.

Ao chegar e olhar da porta para dentro, não consegui. Sentei ali nas primeiras pedras, e então fiquei. A selva continua onde estava, mas depois de tanto tempo, deve estar uma bagunça sem tamanho. Vai dar um trabalhão para organizar todos estes pensamentos, e é por isso que vou olhar devagar, parte por parte, daqui da frente mesmo.

De um jeito estranhamente inexplicável, estou congelado. Há um certo tempo eu tenho visto minha vida de fora, como se não estivesse participando dos acontecimentos, como se houvesse um dublé de corpo fazendo todo o trabalho da atuação. E eu aqui, atrás do vidro espelhado, acompanhando tudo de perto (às vezes não tanto assim) e vendo a vida passar, esquecendo de contar o tempo que cruelmente insiste em correr junto, esquecendo de mim. Sou um mero espectador.

Reconhecer tudo isso não foi processo fácil. Contrariando o popular, requer prática tanto quanto habilidade. Mas aconteceu, jogando toda a imagem de dentro da tela em cima de mim, quebrando o vidro e fazendo tudo atravessar ao mesmo tempo. Por pouco não estaria totalmente vendido, e deixaria até o próprio dublé entrar aqui e tomar conta. Por pouco, eu ainda sou eu.

No cômodo escuro é que aconteceu a conexão (olha que palavra moderna!). Com ele ali, o dublé, sentado no sofá, de madrugada, com todas as luzes apagadas e apenas o sensor de movimento iluminando o ambiente a cada vez que os olhos encontravam as palmas das mãos.

Eis que a realidade fabricada se encontra com a realidade em essência: vem à tona a existência das possibilidades. Neste universo, começam a surgir as alternativas, e os possíveis resultados, criando-se uma tabela-verdade em minha mente, conectada diretamente entre o lado de cá do vidro, e o lado de lá, naquele cômodo escuro, fazendo-se entender que em qualquer uma das situações que ocorrerem naturalmente, ou qualquer uma das opções que eu vier a escolher, o resultado - além das inúmeras variáveis - possui uma constante: eu sobreviverei. Eu estou vivo no final da maioria das escolhas feitas agora.

E é por isso que agora não se trata mais do tamanho da dor, de o que deve ser feito para melhorar, ou qual será a minha septuagésima tentativa de fazer as coisas voltarem ao normal.

Trata-se somente do resultado.

Ainda bem.

sábado, 1 de setembro de 2012

POV

Inesperadamente, no meio da noite, me veio um estalo: aqui eu tenho mil histórias.

E eu poderia escrever cada uma delas. Algumas poéticas, outras dramáticas, quem sabe um grande romance em meio a outras tantas comédias...

Foi quase cena de filme o modo como eu percebi onde estava. Em pé, sabe-se lá por quantos minutos, congelado, ouvindo, sentindo o cheiro, olhando tudo. O toque e o paladar ficam por conta do guardanapo no copo e do bourbon. Tudo começou a girar, uma visão 360°, ou será que era eu que estava virando no meu eixo sem nem perceber?

Na mesa da frente o amante troca mensagens de celular com a moça casada da próxima mesa, que olha atentamente o amigo do marido ausente na mesa do canto. Na mesa do amigo, o casal que toca suas mãos por baixo da mesa, escondido, e disfarça tão mal. Logo atrás, no balcão do fundo, o cara escroto que fuma seu cigarro com cheiro esquisito, lembrando até a boa e velha marijuana, enquanto o artista sem glória vomita elogios à sua própria carreira pseudo-vitoriosa. Logo à frente, pais de família fazendo tietagem desnecessária, ficando a meu cargo atribuir a uma politicagem barata ou à arte de ser imbecil, enquanto dois pombinhos escolhem a mesa mais escura do salão pra poderem fingir privacidade. Ouço risadas, e quanto vejo há uma mesa de jovens fazendo a grávida da mesa mandar tequila pra dentro, e ela cumpre, ao passo que no fundo do corredor, a moça bonita tenta literalmente escapar das garras daquele tipo de homem menino que não tem papo, então agarra direto [e ainda usa força!] sem dar chance de ouvir um "não". 

Uau!

Minha noite foi mais longa do que pareceu, afinal, para cada quadro - em minha cabeça - se formou o contexto todo, trajetórias que os levaram até ali, e futuros modificados partir de então.

Será que adianta produzir assim, no meio da confusão? Ah, se eu tivesse poder de decisão...

E por fim, ir embora se torna a melhor das histórias: solidão não é melhor nem pior, quando se tem pessoas em volta. Observar e imaginar acaba sendo, sim, até melhor que viver.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Quando um encontro não é tão bonito assim

Não é de hoje que as pessoas não se dão bem. Em verdade, se o primeiro conflito ocorreu entre Adão e Eva ou Macaco e Macaca, já não faz diferença. É a recompensa da tal racionalidade.
Qualquer relação já se inicia prestes a entrar em um colapso, devido à possibilidade de surgir um bate-cabeça nos primeiros dois minutos. Se isto não acontecer, desenhe um prazo qualquer, e espere. Qualquer previsão Maia perde para esta tese.
Os homens, no geral, costumam ser menos críticos neste aspecto, e não se trata de machismo, nem de longe. Talvez porque o gênero tenha menos paciência - ou intuição? - pra arquitetar vestígios de cena de briga de novela. Mas que o nosso Quintana estava certo, concorde comigo:

"Dizem-se amigas... Beijam-se... Mas qual!
Haverá quem nisso creia!
Salvo se uma das duas, por sinal,
For muito velha, ou muito feia..."

Mulheres recém-conhecidas podem formar uma aliança mãe das forças armadas de um país inteiro! Entretanto, temporariamente.
Não há interesse que não desvirtue essa linda amizade.
E se colocar homem no meio então, aí piorou, não tem negociação. Horas e horas de conversas pela madrugada que serão, instantaneamente, guardadas na gavetinha do rancor. Perfeitos idiotas se tornando, naquele momento, o possível futuro-amor-da-vida-inteira. Só para este fim.
Agora, a situação só complica mesmo, quando se forma um grupo. Mistos ou não, foram feitos para explodir.
Não é possível que dez pessoas (para pegar leve com a galerinha) se identifiquem umas com as outras, tenham afeto, respeito, saibam falar e ouvir, cuidem de si. Dá problema.
Aí dentro de um grupo forma-se um casal, e a trama começa a pegar fogo! Qualquer Avenida Brasil passa apertada frente a uma coisa destas. Ganha na audiência, empata no enredo, perde na veridicidade. Triângulos amorosos, entre outros recursos geométricos do "me liga quando estiver sozinho", fazem tudo ficar muito verossímil.

Embora pareça, não se trata de um problema, mas de uma condição. Não é algo que possa ser solucionado, e a intenção não está nem perto de ser a promoção de uma reforma completa no mundo das relações. E sim, dias inteiros convivendo, contracenando, dividindo, falando, respirando, tomando cafés com pessoas e pessoas, da maneira menos hostil possível - de preferência.
Até o fim.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Como nunca


Quando perguntei a ela, deveria saber que sua sabedoria ultrapassa qualquer racionalidade, pois vem de uma iluminação estranha, que eu ainda não sei - e nem sequer sei, se um dia, saberei - de onde vem...

 - Será que continuo indo de paletó e gravata?
 - Hum...como os outros estão?
 - De calça jeans e camiseta.
 - Então vá de calça jeans e camiseta.

Imediatamente me lembrei de velhas sensações, como a de chegar em cada pequena cidade de paletó, sem gravata, e óculos escuros, logo na primeira reunião. Os suspiros que eu podia ouvir à distância, os olhares impressionados e os rostos em forma de interrogação pelos corredores, até o olhar surpreso e o sorriso de canto de cada um na mesa da última sala; Tudo isso me fez chegar a lugares que nem eu mesmo sabia que existiam.

Ou então, nas grandes cidades onde o traje é quase que banal, chegar com o melhor. As sensações, neste caso, eram todas ocultas. Disfarçadas na feição, mas assinadas e publicadas no outdoor da retina de cada coração ríspido. Inevitavelmente bom.

Os resultados e desfrutes de toda esta atuação vieram muito rapidamente, e em tom de grande orgulho por não ter sido necessário pisar em cima de nenhuma cabeça. Juro, nenhuma.

Todavia, se há certo tempo eu intimidei, se hoje eu quase que intimidei, no dia seguinte eu não quero mais. Não posso, não é justo, nem comigo e nem com todos os outros ali. Amanhã, não vai poder ser assim: eu não estou por cima, e não vou parecer estar. Não vou enganar ninguém.

Aquilo que consegui fazendo caras e bocas, não foi - todo - gasto em diversão, prazeres, loucuras. O investimento maior foi naquilo que me tornei agora. E se eu lutei, cresci, atingi, para me tornar alguém inferior ao que eu era - ou melhor, ao que eu pensava que era - foi porque eu quis, porque eu deixei, porque as coisas deveriam ter acontecido assim e este é, sim, o melhor caminho.

Por fim, eu sei que isso tudo não precisa ser definitivo. Mas se um dia eu tiver que me tornar alguém diferente, com certeza, será pelo investimento feito neste momento da minha vida. Dure ele o tempo que precisar durar, que seja meu. [talvez] Como nunca.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Concreto


Um homem quando procura por paz, é porque já cometeu pecados demais - disse o padre. E eu não pude fazer nada, se não, aceitar.

Durante os velozes últimos anos, alguns episódios foram mais que eventos do cotidiano, e sim enormes bandeiras cravadas a fim de marcar aquilo que seria o ponto divisor de águas entre o que eu acabara de ser, o que eu efetivamente me tornei. 

Assim, nas entrelinhas do que parecia certo, foram adquiridas, desenvolvidas, evoluídas e por fim muito bem camufladas algumas falhas de caráter. Ou então não teria entendido realmente o que o padre quis dizer ao vilão de coração bom.

Paro e olho, então, para mais uma bandeira a ser marcada irreversívelmente. Avalio a situação e sei que ela tem um propósito crucial, que pode ser o de me levar para o total fracasso e estagnação, ou de me fazer perceber um outro caminho atrás desta porta e me levar ao topo novamente.

Porém, eu sei que o poder e que o dinheiro têm seu preço. Paguei este preço com prazer por certo tempo, e com algum auxílio consegui me desvincular do ritmo, deixar de lado aquela imagem e dar lugar, enfim, a uma paz que ainda não sei descrever.

A estória não está somente nos filmes, e quando está, vem sem exagero algum: um homem comum entra no mundo sujo, se envolve com dinheiro e pessoas da maior sujeira possível. Toda sujeira, por si só, já é a maior. Segue em frente até que é preso, passa por um caminho de limpeza forçada e, após décadas, sai renovado e se isola totalmente. Por fim, muda para uma pequena cidade e arruma um trabalho discreto atrás de um balcão. 

Paz.

Fim.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Boa escolha, Luiza.

O clima de um restaurante não pede somente pratos quentes, estômagos cheios e cortesias. Existe tanto ali escondido por detrás dos abajures em mesas de canto, entre os corredores de mesas cheias e vazias, de encontros desagradáveis e casais à beira do seu fim. Mais do que se pode imaginar.

E neste meio todo é que estava ela, eu, e todo o amor do mundo.

Foi durante o ajuste da cadeira pelo maître, enquanto recusava a retirar o meu chapéu, que a vi. Essas são poucas vantagens de se sentar em uma mesa escura no canto de um bom restaurante: ter a visão panorâmica, e não ter a obrigação de ficar sem chapéu.

Em um vestido branco, daqueles que de longe vistos estão intactos, mantinha um sorriso poderoso para seu companheiro na mesa. Ainda pelo sorriso, dava pra ver que não era um marido ou um namorado, mas sim, uma proposta. Ela tinha o controle, o tempo todo.

Desviar a atenção de uma mulher como esta deixou de ser luxo há certo tempo. Porém ainda pratico, aprecio...Narciso. E foi no sorriso que disparou para mim, por cima do ombro direito em sua frente, é que a noite começou de verdade.

Acenei com o copo de uísque: "um brinde ao seu sorriso". Não funcionou, é claro, ela precisava de muito mais do que isto. Mas logo em seguida, ainda por cima do mesmo ombro, um olhar charmoso de cobrança e um leve toque na franja, como quem diz: "e então, encontrou?".

Um leve cumprimento na aba do chapéu, e pronto! Um sorriso aberto e um riso solto que deu pra ouvir dali mesmo, e eu ganhei. Chapéus, nas ocasiões em que precisam estar, cumprem o seu papel, desde muito, muito tempo.

Doses depois, e o momento chegou. Ela se levantou, foi retocar a maquiagem, e aquele bilhete escrito há mais de 20 minutos deve seu destino alcançado antes que ela voltasse à mesa...
"Te faço um café, pela manhã, e depois decidimos o que vai ser."

Na vez dele de ir ao banheiro, recebo do garçom a resposta dela:
"Luiza"

Me levanto, vou até o balcão, e pago o uísque. A última jogada é agora, um olhar para aquela mesa, e um aguardar angustiante. Ajeito o chapéu.

Ela disfarça, me olha, e acena com a cabeça - ainda sorrindo hipnoticamente - um não. O não mais charmoso que já vi.

Cumprimento com o chapéu novamente, sorrio tranquilo, e penso: É um homem solitário, de paletó e chapéu, bebendo uísque até meia noite e meia, contra um rapaz com blusa moderna, barba bem feita e talvez um futuro.

É, boa escolha, Luiza...boa escolha.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Isso.

Não se trata de um local específico. De pessoas em questão, carros, prédios, paisagens ou coisa assim. Menos então de alguma música, cheiro, dizer.

Trata-se disso.

Basta somente chegar. E o chegar, repito, poderia ser aqui ou em qualquer outro lugar. Mas, desde que exista a sensação.

E este é o ponto principal, disso tudo. 

Buscar dentro de si qualquer semelhança com a realidade não irá trazer nada de volta. Não é necessário [ainda bem]. Porém o resgate de uma emoção até então esquecida, uma maneira de pensar e arquitetar as condições, que foi simplesmente ignorada - mas que no passado era tão bem feita - mostram tanto, tanto.

No geral, as coisas não mudam muito. Aliás, mudam aquelas que não deveriam mudar, e permanecem as que efetivamente importam. 

Embora a vida não seja, lá, tão surpreendente, o já conhecido - quando encarado de maneira sutil - se torna, então, fabuloso.

É isso.

domingo, 17 de junho de 2012

As coisas.

As coisas, enfim, se perderam.

Sensações e filosofias até então divididas apenas naquelas madrugadas quentes, em mesas amarelas e de números pares, resolveram imperar, vir para o foco principal, assumir seu verdadeiro papel. Por que será que isso nunca pareceu ser possível?

O inferno continua sendo os outros. Ele não errou, não mesmo. Agora, errou sim o compositor do "viver é melhor que sonhar". Enquanto as idéias estão desenhadas, discutidas, arquitetadas e assim então construídas, as coisas efetivamente funcionam. No mundo real, não.

Pode-se odiar o que, ou quem quiser, enquanto se pensa. Pode-se matar, morrer e até voltar, se quiser. Afogar-se no sereno, voar pelo vidro do carro e então acordar na cama, molhado de suor. Ainda sim, se está vivo. Repito, ainda sim, se está vivo sem se viver nada. Basta pensar nas coisas.

E então, neste caso, o grande ponto foi a sustentação da ira, desprezo, desesperança e enojamento para com as pessoas. Os outros. Tudo estava estável até esse coquetel atravessar o portal e vir a estacionar aqui: no trânsito, nos bares e restaurantes, recepções de consultórios médicos e uma lista de et ceteras quase que interminável. 

Sei que se as coisas saíram do pensamento e tomaram um lugar físico, palpável, visível até, a culpa foi minha. De alguma forma - que, infelizmente, não sei explicar - tudo se tornou tão real, tão perto, que não consigo mais enxergar solução.

Mesmo porque, se eu soubesse explicar, já teria resolvido isso.

Há alguns meses, me disseram - em meio a um caminhão de besteiras - algo mais ou menos assim: "Se você perder a fé nas pessoas, vai perder o afeto. E o afeto é a solução para que, se é que ainda é possível, o mundo possa voltar ao normal. O afeto é o que vai trazer as pessoas de volta". Enquanto minha opinião (sobre as esquisitisses aí de fora) estava apenas incluída no ritual da mesa, e das TVs dessincronizadas, estava tudo bem. Agora, é só olhar pela janela, que já vem aquela sensação de que eu posso ativar uma bomba nuclear que está dentro do meu estômago.

Por fim, o caminho escolhido, foi o exílio. Recolhimento quase que total, e que será efetivo, sei disso com clareza. O que não sei ao certo é como vou resolver. Será que vou conseguir guardar tudo de novo, dentro de uma caixa?

Melhor esperar até lá, até que as coisas e eu estejamos a sós.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

E doze.


No meio da multidão, chego sozinho. Compro uma cerveja, ainda que o tempo esteja bem frio, e purifico minha alma no primeiro gole, que dura mais que o convencional. E quando termino a respiração do fim da bênção, minha segunda consciência me traz "Sinal fechado", à tal força psíquica incontrolável. 

Não somente olho. Tenho azar: vejo, capto, sinto tudo. Tenho noção: não falo, nada.

Sei que não devia, e cumpro, não me surpreendo com as pessoas. Os universos continuam a se cruzar em uma velocidade incrível, fazendo surgir sorrisos, demonstrações de um afeto planejado, discussões inúteis e tantos outros comportamentos lastimáveis. 

Como se eu tivesse parado de fazer este exercício propositalmente, continuo a analisar as respirações e a prever os resultados, preciso me lembrar no que eu ainda sou bom. Mais uma cerveja.

Agora aparecem os palhaços [Chamam de intervenção circense]. Em dias normais poderia rir e entrar na brincadeira, mas claro, não é o caso. Fico longe a observar a habilidade que o teatro adquiriu de ser uma bosta. O suco da bosta, diria um velho amigo. 

Pacientemente aguardo o momento em que explodirá uma bomba de dentro pra fora da roda e eliminará todo aquele conjunto de diferentes obrigações montadas em cada ser ali parado, ou ali "atuando". Não acontece [será que falhou? ainda há esperança].

Por fim, a cerveja do vendedor esquentou. Escolho o outro, que é um troglodita. Ainda pacientemente, dou $50 e espero $45. Vem $75, eu olho para aquela cara primata dizendo (internamente): "Você tem certeza?". Ele vira e se vai, e eu sei que o mundo está mesmo seguindo rumo ao fim. 

É por isso que eu como carne. Porque uns vegetarianos vieram me dizer que, por comerem só verde, vão viver mais que eu. 

Não vai dar mesmo pra ficar no meio dessa esquisitisse por muito tempo.

Sempre há tempo.


No frio que Maio trouxe à tona, nove da noite no sábado já era tarde. 
" - Já vou indo deitar."
Por cinquenta e três maios foi assim. Sempre ele primeiro, sempre ela depois, quase que como um ritual, um acordo fechado, apostado. Ou, simplesmente: assim.
Ao ir para o quarto, era de praxe arrumar a cama. Cobertores individuais na cama de casal, decisão mais inteligente em uma relação, não há. Arrumar o dele, e o dela, e os travesseiros também em seus certos lugares. Prontos, aos dois.
Deitar e fixar um ponto fixo no teto. Para Ele, rezar, e dormir. Por vezes, dormir rezando. Por outras, rezar dormindo.

...

Naquela noite de sábado ela chegou no quarto e se deparou com ele ali, deitado na cama, com seus cobertores e seu travesseiro do lado esquerdo da cama. Porém, desta vez, não havia cobertor para que ela pudesse se esquentar. Nem mesmo o velho travesseiro ali estava.
" - Nossa, véio - costumava chamá-lo com carinho - nem colocou coberta pra mim hoje, foi?"




Jamais haverá certeza se ele rezou ou não, antes de dormir. Se Ele ouviu, talvez? Não sei.

O que sei é que a morte costumava ser mais simples pra mim, até ouvir essa história, que é real. Só pude pensar em uma coisa: "Fique tranquilo. Não o conheci, mas se não deu tempo de rezar, já o fiz por aqui."

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Boom.

 - E essa inspiração, de onde vem?

 - Simples responder, difícil mesmo é querer trocar. Vem da dor, minha jovem. E é da dor que nascem todas as coisas bonitas: as grandes paixões, os amores intermináveis, as viagens inesquecíveis, as guerras pelas razões mais óbvias...

 - Peraí, as guerras? O que elas tem de beleza?

 - Qualquer guerra, por menor que possa ser ao lado de fora, tem sempre o dom de parecer eterna enquanto dura para quem está dentro. Tem dois lados (ou as vezes, até mais), disputando por um sentimento, um ideal, uma linha de pensamento, pelo poder...tantas coisas.

É onde o ser pode dar o máximo de si, pois sabe que suas chances alternam rapidamente entre vencer e morrer. Morrer significa abdicar-se de tudo, e pode ler pra entender, que nenhuma guerra até hoje terminou porque alguém desistiu no finalzinho.

Agora veja: uma grande guerra não é a cara de um grande amor?

 - Preciso de mais café, você bagunçou minha cabeça.

 - Ah, e claro, como pude me esquecer? Agora sim, posso dizer: a inspiração é um coquetel, uma bomba atômica.

Feita de dor, e de café.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Amanhã tem


No meio do meu sonho, surge o Queen
"Don't stop me now..."
Para isso logo, acorda
Levanta, olha pra cama
[quem é essa?]
Chuta a doida
"Acorda, bora!"
Pega a calça, e a camisa
Bate a porta
Desce a escada, abotoando
(que quebrou o elevador)
Nem bom dia, nem licença
Corre que ja tá atrasado
No caminho um Starbucks
Corre, olha lá, quanta gente
Não deu nesse, pega o outro
Metrô nesse horário é soda
Sobe o prédio
Agora sim: "dias, bom dias"
Senta, vai!

(tum tum, tum tum, tum tum...)

Feliz [sic] dia do trabalho!

domingo, 22 de abril de 2012

Dois



Toda palavra se faz necessária. Mas não qualquer palavra...

Naquele instante em que a música parou, que as crianças acalmaram seu choro, só o que se ouvia - além, é claro, do violino preparando suas notas ao fundo - eram os comentários quase cochichados. (Isso deve acontecer sempre, será?)

Porém, eu podia ouvir algo a mais: o seu suspiro, lá de cima, quase que como se estivéssemos lado a lado.

Não podia ouvir os teus pensamentos, mas porque te conheço bem, e sei que não havia. A mente limpa, o coração aberto, apenas ali a esperar e pronto pra receber o que viesse. Inexplicávelmente surpreendente, embora previsível há 13 anos. Treze(!).

Quando aquela porta se abriu, e o foco se tomou na beleza da vida inteira, não foi pra lá que eu olhei. Não, meu amigo, foi pra você! Curiosamente, em posição de pais de família que somos, estávamos frente-a-frente o tempo todo. Como se eu tivesse escolhido aquele banco propositalmente, aliás, alguém o colocou lá assim. Pronto pra mim.

E ao olhar pro seu rosto perante ao ponto de início do fim da turbulência e taquicardia, é que pude traçar seu caminho nos próximos vinte ou trinta anos. Não ousei fazê-lo por mais, porque não precisaremos de tanto.

Nós nunca precisamos. Pois dias de amizade, sempre foram anos de estrada. 

Amigo, não há força maior no mundo, ou grandiosidade que se compare ao significado disso tudo para mim. Não há pureza maior que, em menos de vinte e quatro horas, alternarmos entre o inferno e o céu. Nesta ordem. Aliás, aquilo é o maior sinal de que qualquer café entra tanto nas veias quanto o alcool caro e bebido assim, tão rapidamente. Nossa vida está dentro, da veia ao coração em questão de segundos.

Como resolvo insistir: tomar um uísque On the Rocks com você nunca será luxo, pois quaisquer duzentos quilômetros - como os dias que se transformam em anos - acabam por duzentos metros. E participar do momento mais importante da sua vida, depois do seu nascimento, é o prazer da mera formalidade. Já somos tudo isso.

Permito-me chorar frente ao texto, pra não molhar seu paletó. 

E para que não reste nenhuma dúvida, fui eu que puxei Deslizes. Este sim, foi meu presente pra você, de todo o meu coração.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Como é que eu vivo sem?

E quando me perguntaram o que foi tudo aquilo em cima do palco, não teve como não responder:

" - Aquilo sou eu. Eu frente a elas, as músicas, onde cada uma do repertório - para mim - é uma mulher lindíssima, uma mais bela que a outra. Quando me vejo junto a elas, cada nota tocada é um movimento, natural e sentido, com todo o tesão daquele encontro. Eu transo com cada música.
Tem aquela que se deve tocar de leve, aquela que eu preciso de uma pegada intensa - e claro, uso - ou aquela que o ritmo vai sozinho, é só sentir e deixar levar.
O uísque? Ah, é um afrodisíaco, você sabe como é: a gente não precisa, mas quando usa, é bom demais!
E o meu instrumento, por fim, com a grossura do seu som e o tamanho do braço, é o que preciso para satisfazê-las. 
Fazer um show assim é uma noite de orgasmos múltiplos."

sábado, 3 de março de 2012

Visita


Te imagino minha quando chego em teu portão. Inevitável, e nem desejo, esconder o anseio de entregar meus olhos aos seus durante qualquer fração de segundo.

Tua essência, por si só, me confunde os sentidos e é nesta hora que se entorpecer se torna a inconsciência pura, a loucura em seu melhor papel: amor à segunda vista.

Permito-me tocar seus cabelos e viajar para onde quiser. Te levo comigo, no abraço forte e seguro, lembrando a teu corpo que ainda é possível se arrepiar e estar segura em meu peito. Laços assim, não se desfazem assim.

Não tem outro jeito se não trocar olhares e palavras a centímetros de distância. Não posso fazer diferente, resistir não faz parte do vocabulário. Emoção, sim. E na entrega toda, faço perguntas aleatórias pra poder analisar o conjunto lábios, olhos, sorriso. Qualquer palavra ali é a parte menos, menos importante.

E quando o assunto tem que continuar, você já entendeu, e é preciso mesmo o silêncio nada embaraçoso para que possamos voltar alguns anos e alternar entre o suave toque, os delicados beijos, e a paixão avassaladora do fazer amor com toda intensidade...

Choque. Ainda estamos aqui.

Se te conheço bem, não posso ultrapassar a linha limite. Tanto quanto me conheces, provocas quanto quiseres pois sabes que sei esperar. Intimidade.

Despeçamo-nos, então, com outra pitada interminável de desejo e amor aqui guardados [talvez] para sempre. Não me faça pisar no acelerador sem levar teu cheiro comigo.

Ainda estamos aqui.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O gato e a gata.

É impossível dizer não. Não há jeito, maneira, de não sonhar contigo a noite inteira [e, claro, acordar sorrindo].

A cor vermelha deixa bem claro a que veio, não faz rodeios, nem tem porque. E é só olhar de rabo de olho e fazer entender que o que corre em suas veias, tem força própria, vem mais que a mil.

É um sorriso bem dado, um sussurro e uma escolha: viver assim. E ao parar e pensar, já me vejo lá atrás - cinco anos, ou mais - a tomar decisões e a morrer toda vez. O preço de sorrir assim é morrer, todo dia, e você sabe bem.

Sabe também, que a beleza é só tua, e que saber usar de verdade é pra poucos. Qualquer saber é pra quase ninguém.

Saber o que fazer com uma pele assim, os óculos quaisquer, mais a cor que se tem, é uma arma mortal. E agora a curiosidade é uma máquina do tempo.

Quando vejo que pensas e pensas direito, que lê e que sonha, que faz qualquer drama pra poder chorar, é que já consigo trilhar sua estrada. E daqueles erros que eu, há pouco, ria, consigo entender porque são, de onde vêm.

Há tanto de mim em seu jovem olhar que não tenho saída, se não, assumir, admirar, apaixonar, me amedrontar. O destino que há para ti, não é bom. Simplesmente assim, pois nenhum pode ser.

Que tu sejas bem vinda ao que há de melhor, que é saber o que faz, quando e como quiser.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Desapego?



Não há paciência que aguente. Não é possível sustentar a situação, assim, com qualquer tranquilidade.
Basta andar pelas ruas e calçadas, entrar nos bares, olhar dentro dos carros e ouvir aquilo que vem dos rádios, dos palcos, luminosos...

Desapego. A palavra foi estampada onde podia estar, pregada como um dogma, uma seita, até que então se tornou uma moda. É popular se desapegar, ser livre, não sofrer por quem não merece e et cetera.
Mas e então, qual é o sentido?

Se a intenção é se desapegar para não correr o risco de sofrer, então já se torna risível: que gente covarde que a gente quer criar. Ou pior, que a gente quer ser. Tanta coisa lá fora pra gente ter medo, na iminência de uma bala perdida qualquer (e vá lá, aí não teria mais do que se desapegar, mesmo), e querem que todo mundo tenha medo de sentir? Medo de se apaixonar, de se entregar, de ser "bonzinho" - é, existe essa também - e ser prejudicado?

Pelo amor da sua crença! 

Jovens que ainda estão pra se apaixonar pela primeira vez, preferem não. Aqueles não tão jovens, que já levaram um tombo ou outro, então, não querem mais saber: "Agora vou me desapegar de tudo aquilo que me faz mal". E o pior caso: Gente vivida, que já limpou muita bunda de neném e sabe, sim, o que é namorar no portão, dizendo que cansou de sofrer e agora quer ser feliz.

A pergunta é simples: Ser feliz com quem?

Vamos amar, minha gente! Se todo mundo se defender, se esconder daquele olhar inevitável que faz surgir uma paixão, onde é que a gente vai parar? Fica fácil presumir...

Depois, não venha ninguém dizer que não quer ir pra Londres, porque ouviu falar que lá as pessoas são "muito frias". Faça o favor, e aqueça o outro agora, que ainda dá tempo. Antes que seja tarde demais.