domingo, 22 de abril de 2012

Dois



Toda palavra se faz necessária. Mas não qualquer palavra...

Naquele instante em que a música parou, que as crianças acalmaram seu choro, só o que se ouvia - além, é claro, do violino preparando suas notas ao fundo - eram os comentários quase cochichados. (Isso deve acontecer sempre, será?)

Porém, eu podia ouvir algo a mais: o seu suspiro, lá de cima, quase que como se estivéssemos lado a lado.

Não podia ouvir os teus pensamentos, mas porque te conheço bem, e sei que não havia. A mente limpa, o coração aberto, apenas ali a esperar e pronto pra receber o que viesse. Inexplicávelmente surpreendente, embora previsível há 13 anos. Treze(!).

Quando aquela porta se abriu, e o foco se tomou na beleza da vida inteira, não foi pra lá que eu olhei. Não, meu amigo, foi pra você! Curiosamente, em posição de pais de família que somos, estávamos frente-a-frente o tempo todo. Como se eu tivesse escolhido aquele banco propositalmente, aliás, alguém o colocou lá assim. Pronto pra mim.

E ao olhar pro seu rosto perante ao ponto de início do fim da turbulência e taquicardia, é que pude traçar seu caminho nos próximos vinte ou trinta anos. Não ousei fazê-lo por mais, porque não precisaremos de tanto.

Nós nunca precisamos. Pois dias de amizade, sempre foram anos de estrada. 

Amigo, não há força maior no mundo, ou grandiosidade que se compare ao significado disso tudo para mim. Não há pureza maior que, em menos de vinte e quatro horas, alternarmos entre o inferno e o céu. Nesta ordem. Aliás, aquilo é o maior sinal de que qualquer café entra tanto nas veias quanto o alcool caro e bebido assim, tão rapidamente. Nossa vida está dentro, da veia ao coração em questão de segundos.

Como resolvo insistir: tomar um uísque On the Rocks com você nunca será luxo, pois quaisquer duzentos quilômetros - como os dias que se transformam em anos - acabam por duzentos metros. E participar do momento mais importante da sua vida, depois do seu nascimento, é o prazer da mera formalidade. Já somos tudo isso.

Permito-me chorar frente ao texto, pra não molhar seu paletó. 

E para que não reste nenhuma dúvida, fui eu que puxei Deslizes. Este sim, foi meu presente pra você, de todo o meu coração.

Um comentário:

Renato Menezes disse...

Eu não esperava menos de você, meu amigo. As palavras certas, medidas e direcionadas. E a emoção de ler me lembrou a mesma emoção de abraçar você.

Muito obrigado. Mesmo.