segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sempre há tempo.


No frio que Maio trouxe à tona, nove da noite no sábado já era tarde. 
" - Já vou indo deitar."
Por cinquenta e três maios foi assim. Sempre ele primeiro, sempre ela depois, quase que como um ritual, um acordo fechado, apostado. Ou, simplesmente: assim.
Ao ir para o quarto, era de praxe arrumar a cama. Cobertores individuais na cama de casal, decisão mais inteligente em uma relação, não há. Arrumar o dele, e o dela, e os travesseiros também em seus certos lugares. Prontos, aos dois.
Deitar e fixar um ponto fixo no teto. Para Ele, rezar, e dormir. Por vezes, dormir rezando. Por outras, rezar dormindo.

...

Naquela noite de sábado ela chegou no quarto e se deparou com ele ali, deitado na cama, com seus cobertores e seu travesseiro do lado esquerdo da cama. Porém, desta vez, não havia cobertor para que ela pudesse se esquentar. Nem mesmo o velho travesseiro ali estava.
" - Nossa, véio - costumava chamá-lo com carinho - nem colocou coberta pra mim hoje, foi?"




Jamais haverá certeza se ele rezou ou não, antes de dormir. Se Ele ouviu, talvez? Não sei.

O que sei é que a morte costumava ser mais simples pra mim, até ouvir essa história, que é real. Só pude pensar em uma coisa: "Fique tranquilo. Não o conheci, mas se não deu tempo de rezar, já o fiz por aqui."

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