quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Quando um encontro não é tão bonito assim

Não é de hoje que as pessoas não se dão bem. Em verdade, se o primeiro conflito ocorreu entre Adão e Eva ou Macaco e Macaca, já não faz diferença. É a recompensa da tal racionalidade.
Qualquer relação já se inicia prestes a entrar em um colapso, devido à possibilidade de surgir um bate-cabeça nos primeiros dois minutos. Se isto não acontecer, desenhe um prazo qualquer, e espere. Qualquer previsão Maia perde para esta tese.
Os homens, no geral, costumam ser menos críticos neste aspecto, e não se trata de machismo, nem de longe. Talvez porque o gênero tenha menos paciência - ou intuição? - pra arquitetar vestígios de cena de briga de novela. Mas que o nosso Quintana estava certo, concorde comigo:

"Dizem-se amigas... Beijam-se... Mas qual!
Haverá quem nisso creia!
Salvo se uma das duas, por sinal,
For muito velha, ou muito feia..."

Mulheres recém-conhecidas podem formar uma aliança mãe das forças armadas de um país inteiro! Entretanto, temporariamente.
Não há interesse que não desvirtue essa linda amizade.
E se colocar homem no meio então, aí piorou, não tem negociação. Horas e horas de conversas pela madrugada que serão, instantaneamente, guardadas na gavetinha do rancor. Perfeitos idiotas se tornando, naquele momento, o possível futuro-amor-da-vida-inteira. Só para este fim.
Agora, a situação só complica mesmo, quando se forma um grupo. Mistos ou não, foram feitos para explodir.
Não é possível que dez pessoas (para pegar leve com a galerinha) se identifiquem umas com as outras, tenham afeto, respeito, saibam falar e ouvir, cuidem de si. Dá problema.
Aí dentro de um grupo forma-se um casal, e a trama começa a pegar fogo! Qualquer Avenida Brasil passa apertada frente a uma coisa destas. Ganha na audiência, empata no enredo, perde na veridicidade. Triângulos amorosos, entre outros recursos geométricos do "me liga quando estiver sozinho", fazem tudo ficar muito verossímil.

Embora pareça, não se trata de um problema, mas de uma condição. Não é algo que possa ser solucionado, e a intenção não está nem perto de ser a promoção de uma reforma completa no mundo das relações. E sim, dias inteiros convivendo, contracenando, dividindo, falando, respirando, tomando cafés com pessoas e pessoas, da maneira menos hostil possível - de preferência.
Até o fim.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Como nunca


Quando perguntei a ela, deveria saber que sua sabedoria ultrapassa qualquer racionalidade, pois vem de uma iluminação estranha, que eu ainda não sei - e nem sequer sei, se um dia, saberei - de onde vem...

 - Será que continuo indo de paletó e gravata?
 - Hum...como os outros estão?
 - De calça jeans e camiseta.
 - Então vá de calça jeans e camiseta.

Imediatamente me lembrei de velhas sensações, como a de chegar em cada pequena cidade de paletó, sem gravata, e óculos escuros, logo na primeira reunião. Os suspiros que eu podia ouvir à distância, os olhares impressionados e os rostos em forma de interrogação pelos corredores, até o olhar surpreso e o sorriso de canto de cada um na mesa da última sala; Tudo isso me fez chegar a lugares que nem eu mesmo sabia que existiam.

Ou então, nas grandes cidades onde o traje é quase que banal, chegar com o melhor. As sensações, neste caso, eram todas ocultas. Disfarçadas na feição, mas assinadas e publicadas no outdoor da retina de cada coração ríspido. Inevitavelmente bom.

Os resultados e desfrutes de toda esta atuação vieram muito rapidamente, e em tom de grande orgulho por não ter sido necessário pisar em cima de nenhuma cabeça. Juro, nenhuma.

Todavia, se há certo tempo eu intimidei, se hoje eu quase que intimidei, no dia seguinte eu não quero mais. Não posso, não é justo, nem comigo e nem com todos os outros ali. Amanhã, não vai poder ser assim: eu não estou por cima, e não vou parecer estar. Não vou enganar ninguém.

Aquilo que consegui fazendo caras e bocas, não foi - todo - gasto em diversão, prazeres, loucuras. O investimento maior foi naquilo que me tornei agora. E se eu lutei, cresci, atingi, para me tornar alguém inferior ao que eu era - ou melhor, ao que eu pensava que era - foi porque eu quis, porque eu deixei, porque as coisas deveriam ter acontecido assim e este é, sim, o melhor caminho.

Por fim, eu sei que isso tudo não precisa ser definitivo. Mas se um dia eu tiver que me tornar alguém diferente, com certeza, será pelo investimento feito neste momento da minha vida. Dure ele o tempo que precisar durar, que seja meu. [talvez] Como nunca.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Concreto


Um homem quando procura por paz, é porque já cometeu pecados demais - disse o padre. E eu não pude fazer nada, se não, aceitar.

Durante os velozes últimos anos, alguns episódios foram mais que eventos do cotidiano, e sim enormes bandeiras cravadas a fim de marcar aquilo que seria o ponto divisor de águas entre o que eu acabara de ser, o que eu efetivamente me tornei. 

Assim, nas entrelinhas do que parecia certo, foram adquiridas, desenvolvidas, evoluídas e por fim muito bem camufladas algumas falhas de caráter. Ou então não teria entendido realmente o que o padre quis dizer ao vilão de coração bom.

Paro e olho, então, para mais uma bandeira a ser marcada irreversívelmente. Avalio a situação e sei que ela tem um propósito crucial, que pode ser o de me levar para o total fracasso e estagnação, ou de me fazer perceber um outro caminho atrás desta porta e me levar ao topo novamente.

Porém, eu sei que o poder e que o dinheiro têm seu preço. Paguei este preço com prazer por certo tempo, e com algum auxílio consegui me desvincular do ritmo, deixar de lado aquela imagem e dar lugar, enfim, a uma paz que ainda não sei descrever.

A estória não está somente nos filmes, e quando está, vem sem exagero algum: um homem comum entra no mundo sujo, se envolve com dinheiro e pessoas da maior sujeira possível. Toda sujeira, por si só, já é a maior. Segue em frente até que é preso, passa por um caminho de limpeza forçada e, após décadas, sai renovado e se isola totalmente. Por fim, muda para uma pequena cidade e arruma um trabalho discreto atrás de um balcão. 

Paz.

Fim.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Boa escolha, Luiza.

O clima de um restaurante não pede somente pratos quentes, estômagos cheios e cortesias. Existe tanto ali escondido por detrás dos abajures em mesas de canto, entre os corredores de mesas cheias e vazias, de encontros desagradáveis e casais à beira do seu fim. Mais do que se pode imaginar.

E neste meio todo é que estava ela, eu, e todo o amor do mundo.

Foi durante o ajuste da cadeira pelo maître, enquanto recusava a retirar o meu chapéu, que a vi. Essas são poucas vantagens de se sentar em uma mesa escura no canto de um bom restaurante: ter a visão panorâmica, e não ter a obrigação de ficar sem chapéu.

Em um vestido branco, daqueles que de longe vistos estão intactos, mantinha um sorriso poderoso para seu companheiro na mesa. Ainda pelo sorriso, dava pra ver que não era um marido ou um namorado, mas sim, uma proposta. Ela tinha o controle, o tempo todo.

Desviar a atenção de uma mulher como esta deixou de ser luxo há certo tempo. Porém ainda pratico, aprecio...Narciso. E foi no sorriso que disparou para mim, por cima do ombro direito em sua frente, é que a noite começou de verdade.

Acenei com o copo de uísque: "um brinde ao seu sorriso". Não funcionou, é claro, ela precisava de muito mais do que isto. Mas logo em seguida, ainda por cima do mesmo ombro, um olhar charmoso de cobrança e um leve toque na franja, como quem diz: "e então, encontrou?".

Um leve cumprimento na aba do chapéu, e pronto! Um sorriso aberto e um riso solto que deu pra ouvir dali mesmo, e eu ganhei. Chapéus, nas ocasiões em que precisam estar, cumprem o seu papel, desde muito, muito tempo.

Doses depois, e o momento chegou. Ela se levantou, foi retocar a maquiagem, e aquele bilhete escrito há mais de 20 minutos deve seu destino alcançado antes que ela voltasse à mesa...
"Te faço um café, pela manhã, e depois decidimos o que vai ser."

Na vez dele de ir ao banheiro, recebo do garçom a resposta dela:
"Luiza"

Me levanto, vou até o balcão, e pago o uísque. A última jogada é agora, um olhar para aquela mesa, e um aguardar angustiante. Ajeito o chapéu.

Ela disfarça, me olha, e acena com a cabeça - ainda sorrindo hipnoticamente - um não. O não mais charmoso que já vi.

Cumprimento com o chapéu novamente, sorrio tranquilo, e penso: É um homem solitário, de paletó e chapéu, bebendo uísque até meia noite e meia, contra um rapaz com blusa moderna, barba bem feita e talvez um futuro.

É, boa escolha, Luiza...boa escolha.