quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Boa escolha, Luiza.

O clima de um restaurante não pede somente pratos quentes, estômagos cheios e cortesias. Existe tanto ali escondido por detrás dos abajures em mesas de canto, entre os corredores de mesas cheias e vazias, de encontros desagradáveis e casais à beira do seu fim. Mais do que se pode imaginar.

E neste meio todo é que estava ela, eu, e todo o amor do mundo.

Foi durante o ajuste da cadeira pelo maître, enquanto recusava a retirar o meu chapéu, que a vi. Essas são poucas vantagens de se sentar em uma mesa escura no canto de um bom restaurante: ter a visão panorâmica, e não ter a obrigação de ficar sem chapéu.

Em um vestido branco, daqueles que de longe vistos estão intactos, mantinha um sorriso poderoso para seu companheiro na mesa. Ainda pelo sorriso, dava pra ver que não era um marido ou um namorado, mas sim, uma proposta. Ela tinha o controle, o tempo todo.

Desviar a atenção de uma mulher como esta deixou de ser luxo há certo tempo. Porém ainda pratico, aprecio...Narciso. E foi no sorriso que disparou para mim, por cima do ombro direito em sua frente, é que a noite começou de verdade.

Acenei com o copo de uísque: "um brinde ao seu sorriso". Não funcionou, é claro, ela precisava de muito mais do que isto. Mas logo em seguida, ainda por cima do mesmo ombro, um olhar charmoso de cobrança e um leve toque na franja, como quem diz: "e então, encontrou?".

Um leve cumprimento na aba do chapéu, e pronto! Um sorriso aberto e um riso solto que deu pra ouvir dali mesmo, e eu ganhei. Chapéus, nas ocasiões em que precisam estar, cumprem o seu papel, desde muito, muito tempo.

Doses depois, e o momento chegou. Ela se levantou, foi retocar a maquiagem, e aquele bilhete escrito há mais de 20 minutos deve seu destino alcançado antes que ela voltasse à mesa...
"Te faço um café, pela manhã, e depois decidimos o que vai ser."

Na vez dele de ir ao banheiro, recebo do garçom a resposta dela:
"Luiza"

Me levanto, vou até o balcão, e pago o uísque. A última jogada é agora, um olhar para aquela mesa, e um aguardar angustiante. Ajeito o chapéu.

Ela disfarça, me olha, e acena com a cabeça - ainda sorrindo hipnoticamente - um não. O não mais charmoso que já vi.

Cumprimento com o chapéu novamente, sorrio tranquilo, e penso: É um homem solitário, de paletó e chapéu, bebendo uísque até meia noite e meia, contra um rapaz com blusa moderna, barba bem feita e talvez um futuro.

É, boa escolha, Luiza...boa escolha.

3 comentários:

Débora Tairini disse...

Ahhhhh...Incrível...Adorei

.Lu. disse...

Foi, foi sim, uma boa escolha.
E o texto então, perfeito!
Mas diz pra mim? Será que a foi a melhor escolha? Pois com futuro ou não. Foi apenas talvez!
;)

Renato Menezes disse...

Realmente, há tempos não lia um desses. Obrigado, meu brother.