quinta-feira, 27 de setembro de 2012

E suas velas...


"Calça nova de riscado
Paletó de linho, branco
Que até o mês passado
Lá no campo, ainda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De rapaz novo, encantado
Com vinte anos de amor..."


(Mucuripe)


*Já devo ter postado essa música tantas e tantas vezes. Mas deste jeito, sem ler a letra, digitando o verso todo sem nem ouvir a música, é sinal que veio - de repente - um sentimento tão estranho. Tão assim.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que não me mata


Comecei a perceber que não fazia parte do meio, que não podia ser assim comum, normal, aos doze ou treze anos.  E é por isso que eu espero que meus possíveis herdeiros, se encontrarem meus textos, que o façam somente após os trinta, ou até - quem sabe - quarenta. Sendo pessoas normais, talvez a compreensão apareça. E vou trabalhar para que isto ocorra.

Pois bem.

Há algum tempo, e após uma ausência não-planejada de meses, resolvi me lembrar de que a selva ainda existia. Resolvi arriscar.

Ao chegar e olhar da porta para dentro, não consegui. Sentei ali nas primeiras pedras, e então fiquei. A selva continua onde estava, mas depois de tanto tempo, deve estar uma bagunça sem tamanho. Vai dar um trabalhão para organizar todos estes pensamentos, e é por isso que vou olhar devagar, parte por parte, daqui da frente mesmo.

De um jeito estranhamente inexplicável, estou congelado. Há um certo tempo eu tenho visto minha vida de fora, como se não estivesse participando dos acontecimentos, como se houvesse um dublé de corpo fazendo todo o trabalho da atuação. E eu aqui, atrás do vidro espelhado, acompanhando tudo de perto (às vezes não tanto assim) e vendo a vida passar, esquecendo de contar o tempo que cruelmente insiste em correr junto, esquecendo de mim. Sou um mero espectador.

Reconhecer tudo isso não foi processo fácil. Contrariando o popular, requer prática tanto quanto habilidade. Mas aconteceu, jogando toda a imagem de dentro da tela em cima de mim, quebrando o vidro e fazendo tudo atravessar ao mesmo tempo. Por pouco não estaria totalmente vendido, e deixaria até o próprio dublé entrar aqui e tomar conta. Por pouco, eu ainda sou eu.

No cômodo escuro é que aconteceu a conexão (olha que palavra moderna!). Com ele ali, o dublé, sentado no sofá, de madrugada, com todas as luzes apagadas e apenas o sensor de movimento iluminando o ambiente a cada vez que os olhos encontravam as palmas das mãos.

Eis que a realidade fabricada se encontra com a realidade em essência: vem à tona a existência das possibilidades. Neste universo, começam a surgir as alternativas, e os possíveis resultados, criando-se uma tabela-verdade em minha mente, conectada diretamente entre o lado de cá do vidro, e o lado de lá, naquele cômodo escuro, fazendo-se entender que em qualquer uma das situações que ocorrerem naturalmente, ou qualquer uma das opções que eu vier a escolher, o resultado - além das inúmeras variáveis - possui uma constante: eu sobreviverei. Eu estou vivo no final da maioria das escolhas feitas agora.

E é por isso que agora não se trata mais do tamanho da dor, de o que deve ser feito para melhorar, ou qual será a minha septuagésima tentativa de fazer as coisas voltarem ao normal.

Trata-se somente do resultado.

Ainda bem.

sábado, 1 de setembro de 2012

POV

Inesperadamente, no meio da noite, me veio um estalo: aqui eu tenho mil histórias.

E eu poderia escrever cada uma delas. Algumas poéticas, outras dramáticas, quem sabe um grande romance em meio a outras tantas comédias...

Foi quase cena de filme o modo como eu percebi onde estava. Em pé, sabe-se lá por quantos minutos, congelado, ouvindo, sentindo o cheiro, olhando tudo. O toque e o paladar ficam por conta do guardanapo no copo e do bourbon. Tudo começou a girar, uma visão 360°, ou será que era eu que estava virando no meu eixo sem nem perceber?

Na mesa da frente o amante troca mensagens de celular com a moça casada da próxima mesa, que olha atentamente o amigo do marido ausente na mesa do canto. Na mesa do amigo, o casal que toca suas mãos por baixo da mesa, escondido, e disfarça tão mal. Logo atrás, no balcão do fundo, o cara escroto que fuma seu cigarro com cheiro esquisito, lembrando até a boa e velha marijuana, enquanto o artista sem glória vomita elogios à sua própria carreira pseudo-vitoriosa. Logo à frente, pais de família fazendo tietagem desnecessária, ficando a meu cargo atribuir a uma politicagem barata ou à arte de ser imbecil, enquanto dois pombinhos escolhem a mesa mais escura do salão pra poderem fingir privacidade. Ouço risadas, e quanto vejo há uma mesa de jovens fazendo a grávida da mesa mandar tequila pra dentro, e ela cumpre, ao passo que no fundo do corredor, a moça bonita tenta literalmente escapar das garras daquele tipo de homem menino que não tem papo, então agarra direto [e ainda usa força!] sem dar chance de ouvir um "não". 

Uau!

Minha noite foi mais longa do que pareceu, afinal, para cada quadro - em minha cabeça - se formou o contexto todo, trajetórias que os levaram até ali, e futuros modificados partir de então.

Será que adianta produzir assim, no meio da confusão? Ah, se eu tivesse poder de decisão...

E por fim, ir embora se torna a melhor das histórias: solidão não é melhor nem pior, quando se tem pessoas em volta. Observar e imaginar acaba sendo, sim, até melhor que viver.