segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que não me mata


Comecei a perceber que não fazia parte do meio, que não podia ser assim comum, normal, aos doze ou treze anos.  E é por isso que eu espero que meus possíveis herdeiros, se encontrarem meus textos, que o façam somente após os trinta, ou até - quem sabe - quarenta. Sendo pessoas normais, talvez a compreensão apareça. E vou trabalhar para que isto ocorra.

Pois bem.

Há algum tempo, e após uma ausência não-planejada de meses, resolvi me lembrar de que a selva ainda existia. Resolvi arriscar.

Ao chegar e olhar da porta para dentro, não consegui. Sentei ali nas primeiras pedras, e então fiquei. A selva continua onde estava, mas depois de tanto tempo, deve estar uma bagunça sem tamanho. Vai dar um trabalhão para organizar todos estes pensamentos, e é por isso que vou olhar devagar, parte por parte, daqui da frente mesmo.

De um jeito estranhamente inexplicável, estou congelado. Há um certo tempo eu tenho visto minha vida de fora, como se não estivesse participando dos acontecimentos, como se houvesse um dublé de corpo fazendo todo o trabalho da atuação. E eu aqui, atrás do vidro espelhado, acompanhando tudo de perto (às vezes não tanto assim) e vendo a vida passar, esquecendo de contar o tempo que cruelmente insiste em correr junto, esquecendo de mim. Sou um mero espectador.

Reconhecer tudo isso não foi processo fácil. Contrariando o popular, requer prática tanto quanto habilidade. Mas aconteceu, jogando toda a imagem de dentro da tela em cima de mim, quebrando o vidro e fazendo tudo atravessar ao mesmo tempo. Por pouco não estaria totalmente vendido, e deixaria até o próprio dublé entrar aqui e tomar conta. Por pouco, eu ainda sou eu.

No cômodo escuro é que aconteceu a conexão (olha que palavra moderna!). Com ele ali, o dublé, sentado no sofá, de madrugada, com todas as luzes apagadas e apenas o sensor de movimento iluminando o ambiente a cada vez que os olhos encontravam as palmas das mãos.

Eis que a realidade fabricada se encontra com a realidade em essência: vem à tona a existência das possibilidades. Neste universo, começam a surgir as alternativas, e os possíveis resultados, criando-se uma tabela-verdade em minha mente, conectada diretamente entre o lado de cá do vidro, e o lado de lá, naquele cômodo escuro, fazendo-se entender que em qualquer uma das situações que ocorrerem naturalmente, ou qualquer uma das opções que eu vier a escolher, o resultado - além das inúmeras variáveis - possui uma constante: eu sobreviverei. Eu estou vivo no final da maioria das escolhas feitas agora.

E é por isso que agora não se trata mais do tamanho da dor, de o que deve ser feito para melhorar, ou qual será a minha septuagésima tentativa de fazer as coisas voltarem ao normal.

Trata-se somente do resultado.

Ainda bem.

Um comentário:

Renato Menezes disse...

Como isso pode acontecer?
É estranho, mas eu preciso dizer. Em meu rascunho, havia um trecho depois cortado na publicação. Dizia: "Só importa aos olhos que correm". E esses olhos eram os seus, lendo, simultaneamente. E, talvez, por isso, eu tenha retirado essa parte. Porque já haviam lido, "corrido o texto".
E, não, não é coincidência, nem fantasia. Aconteceu.